Projeto internacional analisa falhas na "bomba
de sódio e potássio" dos neurônios; monitoramento de pessoas
diagnosticadas fundamentará o desenvolvimento de terapias inovadoras.
Uma pesquisa conduzida pelo
Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e pela
Unidade de Genética do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das
Clínicas da FMUSP (ICr HCFMUSP), em colaboração com a Universidade de Harvard,
está recrutando pacientes de todas as idades, em todo o Brasil, que possuam
diagnóstico genético de mutação no gene ATP1A3. O estudo investiga as
manifestações clínicas dessa condição rara, que afeta a "bomba de sódio e
potássio" dos neurônios, estrutura essencial para a transmissão do impulso
nervoso. Interessados podem participar de forma presencial ou via teleconsulta,
contribuindo para um banco de dados nacional que fundamentará o desenvolvimento
de futuras terapias.
O estudo integra uma colaboração
internacional com o Boston Children’s Hospital e o Massachusetts General
Hospital, ambos hospitais-escola da Universidade de Harvard. A parceria,
coordenada pelo Dr. Fernando Kok (FMUSP), Dr. Ganesh Mochida (Harvard) e Dr. Cláudio
Gusmão (Harvard), fortalece o intercâmbio científico e amplia a capacidade de
análise clínica dos casos. A pesquisa é tema
da tese de doutorado do Dr. Matheus Castro, médico geneticista do ICr HCFMUSP. A iniciativa busca aprofundar a
compreensão dos mecanismos biológicos envolvidos na doença, que pode se
manifestar como Hemiplegia Alternante da Infância (AHC) ou
Distonia-Parkinsonismo de Início Rápido (RDP), abrangendo desde alterações na
motricidade ocular e crises de rigidez (distonia) ou fraqueza (hemiplegia) até
quadros de epilepsia de difícil controle.
A abordagem inclui a análise de
variantes genéticas, identificadas por meio de sequenciamento de exoma, genoma
ou painéis multigênicos, permitindo correlacionar achados laboratoriais com as
manifestações clínicas dos pacientes. Como se trata de um estudo de história
natural, os pesquisadores realizam um acompanhamento longitudinal (geralmente a
cada seis meses) para entender a evolução da doença na ausência de tratamento
específico. Em paralelo, laboratórios em Boston desenvolvem novas terapias
utilizando a tecnologia de oligonucleotídios antisense, visando modular a
expressão gênica no futuro.
O projeto já avaliou mais de 40
pacientes no Brasil e busca atingir a meta inicial de 50 voluntários, embora
não haja limite para novos cadastros. Para participar, o paciente deve
obrigatoriamente já possuir um teste genético que comprove a alteração no gene
ATP1A3, uma vez que o projeto foca no acompanhamento clínico e não no
diagnóstico inicial. Como critério de rigor científico, são excluídos pacientes
que apresentem um segundo diagnóstico genético ou condições neurológicas não
relacionadas à mutação (como tumores cerebrais), para evitar viés nos dados
coletados. Candidatos podem entrar em contato pelo e-mail (clique aqui).
Além do intercâmbio de dados, a
parceria promove a capacitação de pesquisadores brasileiros em tecnologias
genômicas avançadas nos Estados Unidos. O estudo reforça o papel da USP como
polo estratégico na produção científica em neurologia e genética, visando
reduzir a "odisseia diagnóstica" e preparar o terreno para a aplicação
de tecnologias de ponta no tratamento de doenças raras no Brasil.
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