Estima-se
que até 400 milhões de pessoas no mundo têm a condição crônica; no Brasil,
quase 14 milhões. Revisão de painel internacional de 14 especialistas, com
participação brasileira, aponta a necessidade de padronizar diagnóstico e
tratamento 
A COVID longa tem mais de 200 sintomas, como fadiga, falta de ar
e questões neuropsiquiátricas, que vão de disfunção cognitiva, distúrbios
do sono e depressão até a perda de memória
(imagem: CDC/Unsplash)
Quase três anos após a pandemia por SARS-CoV-2 ter sido
oficialmente declarada encerrada, estimativas conservadoras apontam que entre
80 milhões e 400 milhões de pessoas no mundo têm COVID longa. Essa condição
crônica associada à infecção está ligada a mais de 200 sintomas, como fadiga e
falta de ar, mas especialmente a questões neuropsiquiátricas, que vão de
disfunção cognitiva, distúrbios do sono e depressão até a perda de memória, com
impacto na qualidade de vida, dificultando a realização de tarefas do dia a dia
e o desempenho laboral.
Entre os mecanismos fisiopatológicos subjacentes (que ocorrem no
organismo e ajudam a explicar determinados sintomas e alterações) estão:
persistência viral do SARS-CoV-2, reativação do herpesvírus (quando o estresse
imunológico permite que vírus latentes da família Herpesviridae se
tornem ativos) e ativação imune crônica. Também incluem desregulação do sistema
imunológico, desequilíbrio da função dos microrganismos no intestino (disbiose
da microbiota), anormalidades de coagulação e dano endotelial. Em relação ao
cérebro, há alterações estruturais e conectividade funcional anormal.
Porém, para avançar significativamente na compreensão da COVID
longa, ainda é necessário realizar mais estudos científicos visando padronizar
as definições e a nomenclatura usadas para o distúrbio, além de um número maior
de ensaios clínicos com potenciais terapias.
Esse panorama está descrito no primeiro artigo de revisão publicado pela
revista Nature Reviews Disease Primers dedicado às
manifestações neurológicas, psicológicas e psiquiátricas associadas à COVID-19.
O trabalho traz uma análise abrangente sobre epidemiologia, mecanismos
biológicos, diagnóstico e abordagens terapêuticas, além do impacto na qualidade
de vida e dos desafios para a ciência.
Desenvolvido por um painel internacional de 14 especialistas, o
artigo tem entre os autores uma única brasileira, a professora e
neurologista Clarissa Yasuda, da Faculdade de
Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Ela é
pesquisadora do Instituto Brasileiro de
Neurociência e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de
Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, onde
coordena desde 2020 uma série de estudos sobre COVID longa (leia mais
em: agencia.fapesp.br/41624).
“Essa doença é nova e pouco conhecida. Tem muita gente estudando
e tentando entendê-la não só pelos casos atuais, mas também porque a humanidade
é suscetível a outros vírus que podem causar problemas da magnitude dessa
pandemia. Precisamos aprender com ela e investigar de maneira efetiva e rápida.
A COVID longa atrapalha muito a vida das pessoas e, no momento, não há
tratamento específico. O importante é tomar as vacinas e evitar reinfecções.
Essa é outra mensagem do artigo”, diz Yasuda à Agência FAPESP.
No trabalho, os pesquisadores frisam que a única prevenção à
COVID longa até agora é evitar a infecção por SARS-CoV-2. Destacam que o
diagnóstico é baseado na avaliação clínica. Sem biomarcadores disponíveis,
requer histórico recente de contaminação pelo vírus, além de sintomas
persistentes ou recorrentes por pelo menos três meses. Outras condições devem
ser descartadas, o que pode exigir exames de sangue e de imagem,
eletrocardiografia e ecocardiografia.
No Brasil, o número de casos de COVID-19 vem caindo ano a ano,
mas ainda está em patamar alto – em 2025, segundo o Ministério da Saúde, foram
notificados cerca de 432,4 mil casos, ante 984 mil no ano anterior. Entre
janeiro e a segunda semana de fevereiro deste ano foram cerca de 25.200
registros.
Qualidade de vida
Na seção em que trata de qualidade de vida, além de impactos na
saúde, o artigo aborda efeitos da COVID longa no mercado de trabalho e estigmas
ligados à doença.
Os autores apontam que pode haver perda de emprego e renda, além
de dificuldades na volta às atividades por falta de apoio dos sistemas de
bem-estar social. Citam que as pessoas afetadas passam por períodos de “altos e
baixos”, “colapsos”, “depressões” e “vales”, fazendo com que se sintam
incapazes de continuar com o mesmo nível de atividade.
Em 2024, um artigo produzido por cientistas de instituições dos
Estados Unidos e publicado na Nature
Medicine estimou que a COVID longa tenha resultado em mais de 803
milhões de horas de trabalho perdidas (dados daquele ano) somente no Brasil,
com custo potencial de mais de US$ 11 bilhões. Isso equivale a cerca de 400 mil
trabalhadores em tempo integral fora do mercado por um ano. O mesmo estudo
avaliou que a doença pode ter um impacto econômico mundial de aproximadamente
US$ 1 trilhão ao ano – cerca de 1% da economia global.
A própria professora Yasuda vivenciou dificuldades na retomada
das atividades após ter COVID longa. Infectada em agosto de 2020, ela teve
sintomas leves, sem febre, mas cerca de um mês depois percebeu que apresentava
disfunção cognitiva, prejudicando suas tarefas acadêmicas.
No artigo Quero meu cérebro de volta, publicado na biblioteca
digital Scielo Brasil em junho de 2022, ela relatou seu caso.
“À época, mostrei o esforço de recuperação e as estratégias para conviver com
as restrições persistentes em termos de desempenho cognitivo. Depois de muito
esforço e disciplina, melhorei”, conta.
Também chamada de “condição pós-COVID-19”, a COVID longa foi
incluída para acompanhamento no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2021, com
atualização em 2023 por meio da Nota Técnica nº 57. Em boletim
epidemiológico sobre o tema, divulgado em 2025, o número estimado de casos de
“condições pós-COVID” no país foi de 13,8 milhões, sendo a maioria do sexo
feminino (8,58 milhões). Por faixa etária, a mais atingida é dos 30 aos 49 anos
(6,2 milhões de brasileiros).
“Marcas”
Em relação aos estigmas, os cientistas citam que os pacientes
enfrentam múltiplas barreiras para ter reconhecimento da doença e acesso a
cuidados e apoio. As experiências vão desde discriminação até tratamento
inadequado e culpabilização, com estigma particularmente alto para indivíduos
de minorias étnicas.
Lembram que, para crianças e adolescentes, pode haver sérias
implicações em interações sociais e educacionais.
Por isso, sugerem que o acompanhamento dos pacientes seja
realizado por equipes multidisciplinares, com profissionais de várias áreas da
saúde.
Para ensaios futuros, recomendam que haja recrutamento de uma
população de pacientes diversificada e representativa, levando em consideração
as perspectivas de pessoas com COVID longa e o papel dos determinantes sociais
e de saúde.
Nesse cenário, o grupo coordenado por Yasuda está trabalhando em
uma pesquisa longitudinal para buscar compreender as mudanças provocadas pela
doença no cérebro. “Ser convidada para participar dessa revisão foi muito
importante e um reconhecimento internacional ao trabalho que estamos
desenvolvendo no CEPID BRAINN”, diz a pesquisadora, que também conta com o
apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O artigo COVID-19-associated neurological and
psychological manifestations pode ser lido em: nature.com/articles/s41572-025-00674-7.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estudo-detalha-sintomas-neuropsiquiatricos-e-mecanismos-biologicos-da-covid-longa/57477
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