O setor financeiro
sempre esteve na linha de frente da transformação digital, mas a nova onda de
Inteligência Artificial (IA) aponta para uma mudança ainda mais profunda: o
deslocamento do foco do desenvolvimento de código-fonte para a orquestração
tecnológica. Se nas últimas décadas os bancos investiram pesadamente em equipes
capazes de desenvolver sistemas complexos, a próxima fase será marcada por
profissionais que saibam coordenar soluções baseadas em agentes de IA. Essa
mudança já começa a aparecer em bancos brasileiros, especialmente nos projetos
de modernização de aplicações e migração de sistemas legados, onde a IA tem
acelerado processos historicamente demorados.
Essa transformação
ocorre em um contexto de forte crescimento dos investimentos em tecnologia.
Segundo um levantamento, os bancos brasileiros projetaram aumento de
61% nos investimentos em IA, analytics e Big Data, com mais de 80% das
instituições já utilizando essa tecnologia em suas operações. Ao mesmo tempo,
projetos conduzidos pela GFT indicam que a IA pode elevar a produtividade
bancária em até 40% e automatizar mais de 60% das tarefas rotineiras, liberando
profissionais para atividades mais estratégicas. Esse movimento reforça uma
conclusão importante: o valor não está mais apenas em construir aplicações, mas
sim na gestão inteligente das tecnologias disponíveis.
O uso da IA para
modernização de sistemas legados é um dos principais motores dessa mudança.
Bancos convivem há décadas com aplicações críticas construídas por múltiplas
equipes ao longo do tempo, o que torna a reengenharia de arquitetura um desafio
técnico e cultural. Ferramentas de IA têm permitido compreender sistemas
antigos, reconstruir arquiteturas e migrar bases de dados com velocidade
inédita. Em projetos recentes de modernização, tarefas que tradicionalmente
levariam meses passaram a ser executadas em poucos dias, ilustrando como essa
tecnologia está encurtando ciclos de desenvolvimento e reduzindo custos
operacionais.
Esse impacto já
aparece também em estudos globais sobre engenharia de software. Pesquisas indicam que desenvolvedores podem completar
tarefas até duas vezes mais rápido com ferramentas de IA Generativa,
especialmente em atividades como documentação, geração de código e refatoração.
Em empresas de tecnologia, esse cenário já é realidade – parte significativa do
código já é escrita por sistemas automatizados, tendência que tende a se
espalhar para o setor financeiro.
O efeito mais
visível dessa evolução é a mudança no perfil dos profissionais de tecnologia.
Em vez de especialistas focados em sintaxe e implementação detalhada, cresce a
necessidade de profissionais capazes de definir produtos, arquiteturas e
integrações. Especialistas já falam em uma era de engenharia “AI-first”,
na qual engenheiros se concentrarão em orientar agentes inteligentes com
contexto e objetivos de negócios claros, em vez de escrever código manualmente.
Na prática, isso significa uma evolução no papel dos desenvolvedores: em vez de
se concentrarem apenas na escrita manual de código, esses profissionais passam
a atuar cada vez mais na orquestração de soluções baseadas em IA.
O mesmo raciocínio
vale para a gestão tecnológica dentro das instituições financeiras. Os líderes
de tecnologia tendem a deixar de administrar apenas equipes humanas e passar a
coordenar ambientes híbridos, compostos por pessoas e agentes de IA. Essa
evolução já aparece nos debates estratégicos do setor bancário, no qual estudos
apontam agentes autônomos como um dos principais pilares da próxima geração de
serviços financeiros, ao lado de identidade digital e computação avançada. No
futuro próximo, será comum que gestores monitorem a performance de agentes,
ajustem parâmetros e avaliem resultados com o mesmo rigor aplicado hoje à
gestão de equipes humanas.
Naturalmente, essa
transição exigirá mais do que tecnologia. A experiência mostra que ganhos reais
só aparecem quando processos e pessoas evoluem junto com as ferramentas.
Organizações que apenas introduzem soluções de IA sem rever fluxos de trabalho
tendem a obter resultados limitados, enquanto aquelas que redesenham processos
conseguem ganhos expressivos de produtividade e qualidade. Esse é um lembrete
importante em um momento em que o entusiasmo tecnológico pode levar a
expectativas irreais sobre o papel dos agentes de IA.
Nos próximos três
a cinco anos, a área de tecnologia dos bancos deverá se transformar em um
ambiente essencialmente orientado por agentes. Equipes menores e mais
especializadas irão coordenar ecossistemas tecnológicos complexos, com ciclos
de desenvolvimento cada vez mais curtos e foco crescente no produto final.
Nesse cenário, a vantagem competitiva não estará em quem escreve mais código,
mas em quem consegue orquestrar melhor as tecnologias disponíveis – e
transformar agentes de IA em resultados concretos de negócio.
Telesforo
Caceres Junior - Business Director no
Brasil da GFT Technologies
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