Mesmo liderando as estatísticas de mortalidade no país, as doenças cardiovasculares seguem invisibilizadas no público feminino. Sintomas atípicos, sobrecarga emocional e lacunas históricas na ciência contribuem para diagnósticos tardios e maior risco de complicações
No imaginário coletivo, o câncer ainda é visto como o
maior vilão da saúde feminina. No entanto, são as doenças cardiovasculares que
ocupam o primeiro lugar entre as causas de morte no Brasil, respondendo por
cerca de 30% a 32% dos óbitos. Ainda assim, o risco cardíaco das mulheres
continua subestimado tanto socialmente quanto, em alguns casos, clinicamente.
O alerta ganha força neste Dia Internacional da Mulher, quando
a discussão sobre saúde integral precisa incluir, com urgência, o coração feminino.
“O sistema cardiovascular da mulher é diferente do homem, e a ciência só
recentemente começou a dar mais atenção a essas diferenças”, explica a Dra.
Bianca Prezepiorski, médica cardiologista do Hospital Cardiológico Costantini.
“Os grandes estudos e diretrizes da cardiologia foram baseados majoritariamente
em homens. Ainda não temos estudos tão robustos quanto deveríamos sobre as
especificidades do coração feminino.”
Segundo a especialista, há diferenças anatômicas e
hormonais relevantes. “Anatomicamente, o coração da mulher é menor do que o do
homem, mesmo quando ambos têm o mesmo peso e altura. As artérias também são
mais finas. Isso significa que o coração feminino pode se sobrecarregar mais ao
longo da vida”, detalha.
Além disso, o endotélio — camada interna dos vasos
sanguíneos — responde de maneira distinta aos hormônios femininos, apresentando
características inflamatórias e imunológicas próprias. “São várias nuances que
ainda estão sendo compreendidas”, acrescenta.
Sintomas menos clássicos, diagnóstico mais
tardio
Um dos principais fatores que contribuem para o
subdiagnóstico está na forma como o infarto se manifesta nas mulheres.
“Existe diferença, e isso é um dos grandes problemas”,
afirma a cardiologista. “Nos homens, os sintomas costumam ser clássicos: dor
intensa no peito, em aperto, que pode irradiar para o braço ou mandíbula,
acompanhada de sensação iminente de morte. Esses sinais fazem com que o homem
procure atendimento rapidamente.”
Já no público feminino, o quadro pode ser mais silencioso
e inespecífico. Cansaço extremo, falta de ar, dor no estômago, náuseas,
mal-estar generalizado e desconforto leve no peito estão entre os sintomas mais
comuns.
“Muitas vezes a mulher interpreta como algo que comeu,
nervosismo ou ansiedade. E infelizmente, em alguns casos, até o próprio
atendimento médico pode demorar a valorizar esses sintomas como infarto”,
alerta. “Essa diferença faz com que o diagnóstico seja mais tardio.”
Fatores femininos ainda fora das tabelas de
risco
O subdiagnóstico não se explica por um único motivo. Para
a especialista, trata-se de um conjunto de fatores históricos e estruturais.
“Durante décadas, os estudos clínicos incluíram mais
homens do que mulheres. Isso criou uma percepção equivocada de que o infarto
era mais masculino”, observa. “Hoje a ciência está começando a corrigir isso,
mas ainda faltam ajustes importantes.”
Entre eles, a inclusão de fatores específicos da saúde
feminina nas avaliações de risco cardiovascular. Histórico de pré-eclâmpsia,
diabetes gestacional, parto prematuro, menopausa precoce, uso de
anticoncepcionais e histórico hormonal são variáveis que impactam diretamente o
coração da mulher, mas que nem sempre aparecem nas tabelas tradicionais.
“Esses fatores impactam o risco cardiovascular, mas nem
sempre entram nos escores utilizados na prática clínica”, ressalta.
Estresse crônico e tripla jornada: um “leão”
diário
A realidade social também pesa. A dupla ou tripla
jornada, trabalho, filhos, cuidados com a casa e com familiares, tem impacto
biológico mensurável.
“O estresse crônico é como viver com um ‘leão imaginário’
atrás de você o tempo todo. O organismo libera constantemente cortisol e
adrenalina”, explica a médica. “Na prática, esse ‘leão’ pode ser trabalho,
filhos, casa, cuidado com pais idosos e pressões emocionais.”
O impacto, segundo ela, pode ser ainda maior nas
mulheres. “O endotélio feminino é mais sensível aos hormônios do estresse. Por
isso, biologicamente, o impacto cardiovascular pode ser maior na mulher do que
no homem sob o mesmo nível de estresse.”
Menopausa: ponto de virada no risco cardíaco
A menopausa marca uma mudança significativa no
comportamento cardiovascular feminino. Até essa fase, o estrogênio exerce
efeito protetor sobre o sistema cardiovascular. “A menopausa não é uma doença,
mas representa uma mudança importante. Quando a mulher entra nessa fase, ela
perde essa proteção hormonal”, afirma.
Após esse período, são comuns o aumento da pressão
arterial, maior acúmulo de gordura abdominal, elevação do LDL (colesterol ruim),
redução do HDL (colesterol bom) e maior sensibilidade ao estresse. “Por isso, o
risco cardiovascular passa a se igualar ou até superar o dos homens. É
fundamental que, nessa fase, a mulher faça acompanhamento cardiológico
regular.”
Mudança de mentalidade e prevenção
Para enfrentar o cenário, é necessária uma mudança em
múltiplos níveis. “Precisamos de mais pesquisas específicas em mulheres, maior
atenção aos sintomas atípicos, valorização das queixas femininas nas
emergências e conscientização da sociedade de que doença cardiovascular é a
principal causa de morte feminina”, pontua.
A cardiologista reforça que o cuidado preventivo não deve
se limitar à saúde ginecológica. “Assim como o exame ginecológico preventivo
faz parte da rotina, a avaliação cardiológica também deve fazer. A mulher
precisa procurar cardiologista para prevenção, não apenas ginecologista.”
No Dia Internacional da Mulher, o alerta é claro:
reconhecer os sinais, compreender as diferenças e investir em prevenção são
atitudes que salvam vidas.
“Prevenção salva vidas”, conclui a Dra. Bianca
Prezepiorski.
Hospital Cardiológico Costantini
https://hospitalcostantini.com.br/

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