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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Descobertas arqueológicas desafiam logística de obras no Centro de SP

SP Obras/prefeitura de SP
Foram encontrados trilhos da Light e vestígios de cemitérios antigos. Reforma dos calçadões é monitorada por arqueólogos. Prazos estão mantidos

 

As obras de requalificação dos calçadões do chamado Triângulo Histórico, no Centro da cidade de São Paulo, estão perto de uma nova fase de descobertas arqueológicas. Assim como nos achados anunciados pela Prefeitura em outubro de 2024, que revelaram novos sítios e trechos preservados da antiga malha de bondes, de meados de 1900, a equipe técnica aguarda um novo trecho ser explorado, na Praça Antônio Prado, onde já existiu a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Embora ainda tenha ao menos três sítios arqueológicos abertos e novas descobertas a serem feitas, o cronograma de entrega dos calçadões está mantido para o primeiro semestre deste ano, segundo Marcos Monteiro, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras.

Monteiro destaca que, diferentemente de objetos isolados, que são coletados e encaminhados ao Centro de Arqueologia de São Paulo (CASP) sem interromper o fluxo das máquinas, três locais específicos exigiram a parada total para o chamado resgate arqueológico: Sítio Piratininga (Rua Senador Paulo Egídio); Sítio Piratininga 2 (Rua Quintino Bocaiúva); e Sítio Palacete Carvalho (Rua Direita).

Nestes pontos, as equipes encontraram fundações antigas preservadas sob camadas de aterro. "Nesses casos, os órgãos de patrimônio exigem o resgate, que significa ampliar a área de escavação para ver qual a extensão real do achado. Algumas novas áreas têm muito potencial para arqueologia."

Um dos locais em questão, citado por Monteiro, é a Praça Antônio Prado. Ela é a próxima área a ter seu calçadão revitalizado. O prédio onde hoje funciona a B3 era o antigo Largo do Rosário e sediava uma pequena capela, que funcionou por 300 anos no mesmo local até ser demolida e mudada para o Largo do Paissandu por conta do processo de reurbanização que aconteceu no início do século XX. Na época, aconteciam muitos cortejos religiosos que juntavam multidões e, no entorno da igreja, funcionava também um cemitério. Por essa razão, a expectativa por parte da arqueologia é bem alta.

Sob a supervisão do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), desde o início da reforma, em janeiro de 2023, foram encontrados uma série de vestígios antigos da cidade. Uma das mais emblemáticas, de acordo com Monteiro, foi um trilho do antigo bonde da Light, de 1900, na Praça Manoel da Nóbrega, passando pela rua José Bonifácio, XV de Novembro e a Ladeira General Carneiro.

Em vez de serem removidos ou enterrados novamente, parte desses trilhos será musealizada. Ou seja, todo esse trajeto ficará aparente para ser conhecido pela população com uma placa de sinalização e projeto de paisagismo, diz o secretário, que também indicou que parte do projeto das novas calçadas foi modificado para deixar à mostra dois trechos das antigas linhas da Light. 

O secretário admite que este é o maior desafio logístico da obra, pois a partir do resgate, não se tem muito parâmetro de tempo, pois não se sabe o quanto será preciso ampliar nem se haverá um processo de musealização. Para viabilizar todo esse processo, no entanto, ele explica que a Prefeitura trabalha com contratos específicos para arqueologia, garantindo que profissionais da área acompanhem as frentes de obra 24 horas por dia.

Trilhos dos antigos bondes da Light, de 1900, escavados na
 Praça Manoel da Nóbrega e que se estendem pelas ruas José Bonifácio,
 XV de Novembro e pela Ladeira General Carneiro  
SP Obras/prefeitura de SP

A gestão do cronograma é o ponto de maior tensão. De um lado, arqueólogos buscam preservar cada detalhe; do outro, comerciantes e pedestres pedem o fim dos transtornos. Na região da Praça Antônio Prado, onde ocorreu a transferência da estátua de Zumbi dos Palmares, o cuidado tem sido redobrado. "Temos feito frentes menores para liberar o mais rápido possível e manter o acesso aos comércios", explica Monteiro.

O objetivo é concluir as áreas de trilhos em um "espaço de tempo pequeno", enquanto os três sítios principais (Piratininga e Palacete Carvalho) seguem dependendo das análises finais dos órgãos de patrimônio.

A cada nova descoberta, no entanto, Fabio Guaraldo Almeida, do centro de arqueologia do DPH, diz ser necessário paralisar a obra por um período indeterminado para a avaliação técnica. Ele explica que os itens resgatados são enviados para instituições de salvaguarda, garantindo a preservação do patrimônio móvel da capital.

Normalmente, o protocolo envolve um trabalho minucioso de pesquisa. Por essa razão, um profissional acompanha cada frente de obra, especificamente onde há remoção e exposição do solo. O objetivo, segundo o arqueológo, é criar uma "rota de sítios arqueólogicos", semelhante à rota de prédios históricos que já existe no Centro.

"O arqueólogo fica próximo para identificar qualquer achado. Se algo é encontrado, a obra é delimitada e suspensa naquele ponto para o resgate do material, antes de ser liberada para seguir", diz Almeida.

Além dos trilhos, a equipe planeja expor outras estruturas raras, como janelas inglesas (estruturas usadas antigamente para arejar porões de edifícios históricos) e valas de pedra (sistemas de canalização exposta, anteriores ao uso de canos modernos, que mostram como a cidade lidava com o escoamento de água), também encontrados sob o calçadão.

A descoberta dos antigos trilhos ocorre em um momento simbólico, enquanto a Prefeitura planeja a instalação de um novo VLT (Bonde São Paulo) na região central. Para o arqueólogo, essa conexão entre passado e futuro permite uma reflexão sobre a evolução urbana e a sustentabilidade. Almeida destaca que os antigos bondes já eram modais de baixa emissão, um tema urgente no cenário atual de aquecimento global.

Contudo, o especialista faz uma ressalva sobre o planejamento da cidade: "Apesar de termos registros arqueológicos que podem chegar a 7 mil anos em solo paulistano, o Centro de Arqueologia ainda não é consultado no Plano Diretor ou no planejamento urbano inicial, o que, segundo ele, faria muita diferença para as obras da cidade."

Para os comerciantes e transeuntes preocupados com prazos, Almeida garante que a atuação da arqueologia não deve atrasar a entrega do calçadão. Como o acompanhamento é concomitante à execução, ele explica que a musealização de estruturas como os trilhos é um processo ágil, que agrega valor histórico e turístico sem paralisar o cronograma municipal. "A reforma dos calçadões, portanto, deixa de ser apenas uma obra de engenharia. É um processo de redescoberta da identidade paulistana, em que a história insiste em emergir."

A revitalização - A reforma dos calçadões, além da substituição do piso, envolve a instalação de valas técnicas, nova iluminação e mobiliário urbano. Em alguns trechos já é possível ver resultados da revitalização, que teve o tradicional mosaico português substituído por placas de concreto em tons de cinza — uma mudança que, segundo a Prefeitura, prioriza a funcionalidade e acessibilidade. Essa mesma padronização será estendida a Praça da República.

 

Mariana Missiaggia
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/descobertas-arqueologicas-desafiam-logistica-de-obras-no-centro-de-sp



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