À medida que a tecnologia avança na
saúde, cresce também um paradoxo de que nunca foi tão fácil adotar IA, e nunca
foi tão perigoso fazê-lo sem controle. Profissionais já utilizam ferramentas
generativas no dia a dia, muitas vezes fora dos sistemas institucionais,
criando um cenário de shadow AI que expõe dados sensíveis e amplia
riscos legais.
Governança deixou de ser um tema
teórico. Hoje, a maioria das organizações ainda não possui frameworks claros
para uso responsável de IA, monitoramento de modelos ou planos de resposta a
incidentes. Isso é especialmente crítico em um setor onde decisões
automatizadas podem afetar diretamente a vida das pessoas.
O risco não está apenas em falhas
técnicas, mas em vieses algorítmicos, falta de transparência e
violações de privacidade. Já houve casos em que sistemas de
apoio clínico reproduziram desigualdades históricas ao priorizar determinados
perfis de pessoas. Outros falharam ao explicar decisões automatizadas,
comprometendo a confiança de médicos e pacientes.
É nesse contexto que o papel do Chief AI Officer
(CAIO) se torna central. Cabe a ele estruturar políticas claras
de uso de IA, garantir supervisão humana em decisões críticas e alinhar
tecnologia às exigências regulatórias — como LGPD, HIPAA e normas emergentes de
IA em saúde.
Segurança também ganha uma nova
dimensão. Agentes de IA ampliam a superfície de ataque cibernético, exigindo
controles específicos, como isolamento de ambientes, monitoramento contínuo e
restrições de acesso. Ao mesmo tempo, privacidade precisa ser pensada desde o
design dos projetos, evitando o uso excessivo ou indevido de dados pessoais.
Outro pilar essencial é a transparência.
Pacientes e profissionais têm o direito de saber quando a IA está envolvida em
diagnósticos, recomendações ou decisões administrativas. Curiosamente,
experiências mostram que a comunicação clara sobre o uso de IA tende a aumentar
— e não reduzir — a confiança, desde que haja opção de revisão humana.
Na América Latina, esse debate é
ainda mais urgente. Enquanto profissionais já adotam IA de forma individual,
poucas instituições possuem estratégias estruturadas. Isso cria riscos, mas
também uma oportunidade: aprender com experiências globais e implementar IA de
forma responsável desde o início, evitando erros já conhecidos.
A IA é irreversível na saúde.
A diferença entre gerar valor ou criar problemas está na forma como ela é
governada. Mais do que tecnologia, o setor precisa de liderança capaz de equilibrar
inovação, ética e segurança. Sem isso, a promessa da IA pode rapidamente se
transformar em um passivo difícil de administrar.
Emir
Vilalba Moreira - Head of Health da Semantix
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