Paisagens não são cenários a serem observados.
Tampouco meros suportes físicos inertes sobre os quais
existimos. Paisagens são vivas, têm cheiro, som, tato, gosto, emoção,
memória – e nos afetam muito mais do que costumamos supor.
Somos seres situados, ou seja, existimos em algum
lugar: nossa existência física é, necessariamente, atrelada a um espaço
geográfico, a uma paisagem. Deste fato decorrem diversas implicações, uma vez
que somos influenciados pelos lugares que habitamos, pelas paisagens que
habitamos. Não se trata de determinismo com causa e efeito
diretos, gerais e previstos, uma vez que cada ser é único,
apresentando particularidades de comportamentos e fisiologia que
diversificam as respostas às experiências semelhantes. Trata-se
de influências que se tornam íntimas e próprias
daquelas existências, o que fica bastante evidente se ilustrarmos
a questão com casos de povos que habitam geografias extremas no
que diz respeito ao clima, por
exemplo. Pensemos nos esquimós que habitam
o Círculo Polar Ártico e seu mundo-vivido. Os tipos e
ritmos das atividades desenvolvidas em um dia e ao longo de um ano,
a alimentação, os costumes, a natureza
das relações sociais, as edificações, o transporte –
todo um modo de vida e
uma existência diretamente relacionados com aquela geografia, em
resposta a ela, construídos a partir dela.
Ou ainda, mais perto de nós, considere as
seguintes paisagens: urbanas metropolitanas, litorâneas, rurais de montanha. Quais
as dinâmicas do cotidiano das pessoas que habitam cada uma
delas? Qual a natureza das possibilidades para ações triviais como
deslocar-se todos os dias para o trabalho ou para comprar algo? Onde e
como se dão os encontros e os desencontros? Onde e como acontece
o relacionar-se com o espaço vivido, com a paisagem,
com o outro – as relações sociais? Que elementos visuais,
olfativos, sonoros, táteis, afetivos, fazem parte do dia a dia
dessas pessoas? De que são permeadas suas experiências,
e, portanto, suas existências? As possibilidades de interação a que somos
convidados são distintas entre si conforme onde nos situemos.
Assim, nossas ações, comportamentos, modos de nos
relacionarmos, hábitos, afetos e, portanto, nossa identidade, são afetados
e construídos a partir do que nos oferece
a paisagem que habitamos. Ampliando para um grupo social que
habita o mesmo cenário, temos elementos que compõem a cultura local,
a identidade de grupos sociais, o senso de pertencimento.
Proponho, aqui, uma reflexão para o leitor: como as
paisagens que você habita te constroem?
Nenhum comentário:
Postar um comentário