Testes realizados em cultura
celular e em roedores sugerem que nova molécula atua em todas as fases do ciclo
da doença, sendo eficaz contra o Plasmodium vivax e o P.
falciparum
Verificações
no sangue de pacientes infectados mostram que a molécula
inibe a formação do
parasita em estágios que ocorrem dentro do
mosquito vetor; dessa forma, mesmo
que o inseto pique um
humano infectado mas tratado com o composto, ele não
consegue transmitir o parasita para outra pessoa
(imagem: Steven Glenn-CDC/Wikimedia Commons
Pesquisadores brasileiros
desenvolveram um composto sintético com potencial para tratar e também bloquear
a transmissão da malária. A nova molécula atua em três fases do ciclo da
doença, eliminando a forma assexuada do parasita do sangue e do fígado humano,
além de impedir sua transmissão para o mosquito. A abordagem multiestágio
consiste em uma estratégia mais completa para o combate à doença.
“Um diferencial importante
desse composto é sua eficácia contra o Plasmodium vivax, espécie
predominante no Brasil e que não é possível cultivar de forma contínua em
laboratório. A descoberta foi possível graças a testes realizados na Fiocruz de
Rondônia, com sangue de pacientes infectados. A molécula também atua contra
o P. falciparum, espécie mais agressiva da doença”,
afirma Anna Caroline Aguiar, professora da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp) e autora do estudo.
O trabalho, realizado na
Unifesp, teve a colaboração de integrantes do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), um Centro de
Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado no Instituto de Física de São
Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).
A pesquisa também contou com o
apoio da FAPESP por meio de Projetos Temáticos (21/12394-0 e 24/04805-8) e Bolsa Jovem Pesquisador, além da parceria da Fundação
Oswaldo Cruz em Rondônia, do Centro de Medicina Tropical em Rondônia, da
Universidade Nova de Lisboa em Portugal e da Universidade Federal de São
Carlos.
No artigo publicado na
revista ACS Omega, os pesquisadores descrevem o efeito triplo do
composto, derivado de 4-quinolonas naturais, que bloqueia a infecção assexuada
hepática, combate os estágios sanguíneos da doença (responsáveis pelos sintomas)
e impede a transmissão ao mosquito.
“Estudamos esse composto há
cinco anos e, ao longo desse tempo, comprovamos seu efeito contra o parasita
nas fases hepática e sanguínea, em que ele está no hospedeiro. Neste novo
artigo, é a primeira vez que demonstramos de modo experimental sua ação em
bloquear a transmissão da doença”, explica Aguiar à Agência FAPESP.
Os testes realizados em cultura
celular com sangue de pacientes infectados mostraram que a molécula inibe a
formação do parasita em estágios que ocorrem dentro do mosquito vetor (quando
está nas fases denominadas oocinetos, oocistos e esporozoítos). Dessa forma,
mesmo que o inseto pique uma pessoa infectada tratada com o composto, ele não
consegue transmitir o protozoário para outra pessoa.
A análise foi confirmada em
estudos realizados em camundongos na Universidade Nova de Lisboa. Os animais
foram tratados com o composto e infectados com o Plasmodium berghei,
espécie que infecta roedores.
“O que torna essa molécula
especialmente interessante é que ela atua nas três fases do ciclo da malária:
hepática, sanguínea e de transmissão. Em geral, o paciente com malária precisa
de diferentes medicamentos para cobrir essas etapas e esse composto reúne
potencial de tratamento e de bloqueio da transmissão, com possível uso para
prevenção”, afirma Aguiar.
Muitas
fases
A malária é uma doença complexa
causada por protozoários do gênero Plasmodium, cujo ciclo de vida
envolve dois hospedeiros: o ser humano e as fêmeas do mosquito Anopheles. No
hospedeiro humano, esse ciclo se divide em três fases principais, conhecidas
como hepática, sanguínea e de transmissão.
A doença começa nos humanos
quando um mosquito infectado pica uma pessoa e injeta os parasitas, em forma
denominada esporozoítos. Estes alcançam a corrente sanguínea e vão até o fígado
da pessoa infectada, onde invadem as células hepáticas e se multiplicam.
Depois de se multiplicarem na
fase hepática, os parasitas retornam à corrente sanguínea para invadir as
hemácias (glóbulos vermelhos), destruindo-as. É nessa fase (denominada
sanguínea) que surgem os sintomas típicos da malária, como febre, calafrios e
anemia.
Já a fase de transmissão ocorre
quando outro mosquito pica uma pessoa infectada e ingere os parasitas presentes
no sangue desse indivíduo. Dentro do mosquito, eles se desenvolvem até
atingirem a forma capaz de infectar outros humanos, reiniciando assim um novo
ciclo.
Aguiar explica que a nova
molécula atua na mitocôndria do parasita, inibindo um complexo enzimático
denominado citocromo bc1, essencial para a produção de pirimidinas, blocos
fundamentais do DNA. Sem a capacidade de formar DNA, o Plasmodium não
consegue se replicar nem completar seu ciclo de vida.
“Outro aspecto importante é que
essa molécula é altamente seletiva. Atua nas mitocôndrias do parasita, mas não
nas dos humanos”, celebra Aguiar.
Os pesquisadores ressaltam que
ainda existe um longo caminho até que a nova molécula se torne um fármaco capaz
de combater a malária. Atualmente a doença mata cerca de 600 mil pessoas por
ano, sendo a grande maioria no continente africano.
“A molécula é uma excelente
candidata. Os indícios [de eficácia] justificam o investimento para o
desenvolvimento futuro de um medicamento. Isso porque, embora exista tratamento
para a doença, trata-se de um parasita muito bem adaptado e capaz de
desenvolver resistência aos medicamentos existentes”, afirma Rafael Guido, professor do IFSC-USP e coautor do estudo.
O artigo Evaluation of
the activity of 4-quinolones against multi-life stages of Plasmodium spp. pode
ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c08663.
Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/composto-sintetico-tem-potencial-de-tratar-malaria-e-evitar-sua-transmissao/57028
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