Especialista da
Fundação José Luiz Setúbal alerta para impacto das bets no comportamento de
jovens e orienta pais sobre prevenção e diálogo
A rápida expansão das apostas esportivas online tem ampliado de
forma significativa a exposição de crianças e adolescentes ao jogo de azar,
antes claramente delimitado como uma prática exclusiva de adultos. Plataformas
digitais, conhecidas como bets, passaram a integrar o cotidiano de jovens por
meio de publicidade constante em redes sociais, transmissões esportivas e
ambientes digitais voltados ao entretenimento.
Para o médico pediatra José Luiz Setúbal, presidente da Fundação
José Luiz Setúbal, o mais completo polo de saúde infantil do Brasil que tem o
propósito de pensar, cuidar e defender a infância saudável, esse novo cenário
representa um risco concreto à saúde mental de adolescentes. “O jogo online
rompeu a barreira que protegia crianças e jovens de um comportamento claramente
adulto. Hoje, eles são impactados de forma contínua por mensagens que normalizam
apostas como diversão e promessa de ganho fácil”, alerta.
Em janeiro de 2026, um grupo bipartidário de senadores dos Estados
Unidos solicitou mais pesquisas sobre os efeitos do crescimento das apostas
esportivas em crianças e adolescentes — um sinal de alerta que também deveria
mobilizar o debate no Brasil, segundo Setúbal.
Amanda Gregorio, analista de Projetos do Infinis, frente de
Filantropia e Advocacy da Fundação José Luiz Setúbal, reflete sobre os impactos
para toda a sociedade. "As apostas online já não podem ser tratadas como
entretenimento ou escolha individual, estamos diante de um problema de saúde
pública. Estudos internacionais recentes demonstram associação direta entre o
transtorno gerado pela experiência do jogo e agravamento de quadros de
ansiedade, depressão e risco de suicídio, com consequências que recaem de forma
desproporcional sobre jovens e populações vulneráveis. A conta desse
agravamento acaba sendo paga pela sociedade e os sistemas de saúde, enquanto a
destinação de recursos para estratégias de prevenção e cuidado efetivos ainda é
mínima".
Publicidade
agressiva e acesso facilitado
Eventos esportivos e conteúdos digitais frequentemente incluem
anúncios e patrocínios de empresas de apostas, criando uma associação direta
entre esporte, lazer e jogo de azar. Nas redes sociais, adolescentes que seguem
times, atletas ou campeonatos passam a receber publicidade direcionada dessas
plataformas, reforçando essa conexão.
“O problema é que essas mensagens enfatizam grandes vitórias e
silenciam completamente os riscos. Para um cérebro em desenvolvimento, essa
lógica é especialmente sedutora”, afirma o presidente da Fundação.
Apesar de o jogo ser proibido para menores de idade no Brasil, o
acesso é facilitado por plataformas ilegais que não exigem mecanismos eficazes
de verificação, expondo adolescentes a perdas financeiras e riscos emocionais.
Riscos das plataformas ilegais
Apostar em sites não regulamentados amplia ainda mais a
vulnerabilidade dos jovens. Entre os principais riscos estão golpes e fraudes,
bloqueio de saques, perda do dinheiro depositado, publicidade enganosa e
ausência total de proteção ao consumidor.
“Nessas plataformas, não há transparência, não se sabe quem opera
o sistema, se os jogos são justos ou se os pagamentos serão feitos. Em muitos
casos, o site simplesmente sai do ar e o dinheiro desaparece”, explica o
médico.
O que os pais podem fazer
Segundo a Fundação José Luiz Setúbal, a prevenção começa dentro de
casa, com diálogo aberto e postura ativa dos responsáveis. A orientação é
tratar o adolescente com respeito, evitando tanto o tom punitivo quanto a
omissão.
Entre as principais recomendações estão:
- conversar sobre o que o adolescente já sabe a respeito
de apostas e jogos online;
- usar anúncios e transmissões esportivas como ponto de
partida para estimular senso crítico;
- discutir o impacto real da perda de dinheiro e os
riscos do jogo compulsivo;
- explicar que algumas pessoas têm maior predisposição à
dependência, de forma semelhante ao álcool e às drogas;
- estabelecer limites claros e combinados familiares
sobre quando o jogo se torna perigoso;
- monitorar contas digitais e utilizar ferramentas de
controle parental;
- criar um ambiente seguro para que o adolescente possa
pedir ajuda sem medo de julgamento.
“Mais do que vigiar, os pais precisam acompanhar. A adolescência é
uma fase de maior impulsividade e menor percepção de risco. A presença ativa da
família é um fator de proteção”, reforça Setúbal.
Tema de saúde pública
Para a Fundação José Luiz Setúbal, o avanço das apostas online
entre jovens extrapola o comportamento individual e se consolida como um
desafio de saúde pública. A combinação entre publicidade agressiva, facilidade
de acesso e vulnerabilidade emocional da adolescência exige resposta articulada
de famílias, educadores, profissionais de saúde e formuladores de políticas
públicas.
“Esses anúncios destacam grandes
vitórias e silenciam os riscos. Para um cérebro ainda em desenvolvimento, essa
combinação é extremamente sedutora”, explica o presidente da Fundação.
Fundação José Luiz Setúbal (FJLS)
Fontes:
Conselho de Comunicação e Mídia da Academia Americana de
Pediatria
Por que o
jogo responsável é importante?
IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde),
2025. Dossiê: A saúde dos brasileiros em jogo. Link
Etxaburu et al, 2025. The Mediating Role of Mental Health in the Relationship Between Gambling Severity and Suicidal Ideation: A Study with Clinical and General Population - International Journal of Mental and Addiction. Link
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