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| No Brasil, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), ocorrem cerca de 13 mil mortes por ano decorrentes desse tipo de tumor (imagem: Scientific Animations/Wikimedia Commons) |
Pesquisa brasileira mostra que células pancreáticas estreladas, ao produzir periostina, remodelam o tecido e facilitam a infiltração tumoral, mecanismo-chave para a agressividade e alta mortalidade da doença
Um novo estudo
brasileiro, publicado na revista científica Molecular and
Cellular Endocrinology, desvendou o papel-chave da proteína periostina e de
células pancreáticas estreladas no processo que permite ao câncer de pâncreas
infiltrar nervos e se disseminar precocemente, aumentando o risco de
metástases. A pesquisa demonstra como o tumor reprograma parte do tecido
saudável ao redor para adquirir alta capacidade de invasão, em um mecanismo
associado à agressividade da doença e à dificuldade de tratamento, apontando
possíveis alvos para terapias mais precisas e tratamentos mais personalizados.
O câncer de pâncreas mais comum
é do tipo adenocarcinoma (que se origina no tecido glandular, que produz o suco
pancreático), correspondendo a 90% dos casos diagnosticados. É considerado um
tumor com comportamento agressivo e bastante letal: embora não figure entre os
mais frequentes, apresenta mortalidade quase equivalente à incidência. No
mundo, são cerca de 510 mil novos casos e praticamente o mesmo número de mortes
por ano.
No Brasil, segundo estimativas
do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são aproximadamente 11 mil casos e 13
mil mortes todos os anos. “É um câncer agressivo e difícil de tratar. Ao redor
de 10% dos pacientes apresentam chance de sobrevida a longo prazo, como cinco
anos após o diagnóstico”, afirma o oncologista Pedro Luiz Serrano Uson Junior, um dos autores do estudo.
A agressividade desse tumor
está ligada, entre outros fatores, à chamada invasão perineural, processo que
acontece quando células cancerosas passam a infiltrar e avançar ao longo dos
nervos. Isso não apenas pode causar dores intensas, como também facilita a
disseminação do tumor para outras regiões. “A invasão perineural é um marco de
agressividade do câncer”, diz Uson.
O trabalho foi realizado
no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um dos Centros
de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP e teve como primeiro autor o
pesquisador Carlos Alberto de Carvalho Fraga. O grupo buscou entender
os mecanismos moleculares e celulares que sustentam essa invasão e para isso
usou tecnologias que permitem analisar a atividade de milhares de genes em cada
célula e mapear sua posição exata no tecido. “Conseguimos integrar dados de
dezenas de amostras com uma resolução extremamente potente”, afirma Helder Nakaya, pesquisador principal do CRID que liderou o
estudo. Nakaya também é pesquisador sênior do Einstein Hospital Israelita e
professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.
Ao analisar esse conjunto de
informações em 24 amostras de câncer de pâncreas, os pesquisadores observaram
que o estroma (tecido que sustenta o tumor) desempenha papel ativo na sua
progressão. Entre os achados mais importantes está o comportamento das células
pancreáticas estreladas, que expressam altos níveis de uma proteína chamada
periostina – molécula capaz de remodelar a matriz extracelular, a estrutura que
organiza e mantém o tecido saudável.
O estudo aponta que, para
conseguir avançar pelo tecido e alcançar os nervos, as células tumorais
dependem de processos de remodelação intensa da matriz extracelular, num
processo complexo que envolve enzimas específicas e desorganização do tecido.
“A periostina participa dessa remodelação, abrindo caminho para que as células
tumorais invadam”, explica Nakaya. O nervo, por sua vez, funciona como uma
espécie de “estrada” para essa expansão.
Esse ambiente alterado gera
ainda uma reação desmoplásica, um tipo de fibrose intensa ao redor do tumor,
formada por células e proteínas que deixam o tecido mais rígido e inflamado, o
que dificulta a chegada de quimioterápicos e imunoterapias, pois as drogas têm
mais dificuldade de penetrar nesse tecido endurecido, criando um “microambiente”
que favorece a sobrevivência e disseminação do tumor. “Por isso o câncer de
pâncreas ainda é tão difícil de tratar”, afirma Uson.
O oncologista reforça que essa
capacidade de infiltração é decisiva para o mau prognóstico dos pacientes com
câncer de pâncreas. “A invasão perineural é um sinal de que as células
cancerígenas adquiriram mobilidade. Elas escapam da massa tumoral, caminham
pelo tecido saudável e alcançam os feixes nervosos e linfáticos, que as levam a
outras regiões do corpo, facilitando o desenvolvimento de metástases.”
Segundo ele, mais da metade dos
casos de câncer de pâncreas já apresenta invasão perineural nos estágios
iniciais e isso só é descoberto durante a cirurgia. “Infelizmente, a gente
descobre essa invasão perineural quando ela já aconteceu. Isso é visto somente
na peça cirúrgica, quando vai para biópsia.”
Alvo
promissor
Diante desse cenário complexo,
os pesquisadores afirmam que a periostina surge como um possível alvo
terapêutico promissor. Bloquear sua ação ou eliminar as células estreladas que
a produzem pode ser uma estratégia a ser investigada para reduzir a invasão
perineural e, possivelmente, limitar a capacidade metastática do tumor. “Esse
trabalho aponta caminhos que podem orientar abordagens futuras no tratamento do
câncer de pâncreas”, avalia Nakaya. Ensaios clínicos em outros tumores já
testam anticorpos contra a periostina, o que, segundo ele, ajuda a explorar se essa
via também pode ser relevante no pâncreas.
Uson destaca que essa
estratégia se insere no avanço rumo à medicina de precisão. “Se conseguirmos
desenvolver anticorpos ou medicamentos que bloqueiem essas células estreladas,
teremos ferramentas para impedir que o tumor adquira essa capacidade invasiva
tão cedo.” Ele lembra que não existe hoje nenhuma terapia direcionada
especificamente à invasão perineural e ressalta que um medicamento desse tipo
poderia ser útil em vários outros cânceres que compartilham o mesmo mecanismo,
entre eles o de intestino e de mama.
Além de revelar novos alvos
terapêuticos, o trabalho demonstra a força de análises complexas realizadas a
partir de bancos de dados públicos. “Conseguimos fazer e responder novas
perguntas que os autores originais não tinham percebido”, diz Nakaya. O próximo
passo, afirmam os pesquisadores, é transformar esse conhecimento em estratégias
e medicamentos que ajam de forma preditiva, antes que a invasão aconteça. “A
medicina de precisão está caminhando. No futuro, vamos tratar o paciente pelas
alterações genômicas e moleculares e não especificamente pelo tipo de tumor.
Esse é o grande avanço da oncologia”, conclui Uson.
O artigo Periostin-positive
stellate cells associated with perineural invasion in pancreatic adenocarcinoma pode
ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0303720725002291.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estudo-revela-proteina-ligada-ao-avanco-do-cancer-de-pancreas-pelos-nervos/56883

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