Pesquisar no Blog

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Esperança realista: o balanço de final do ano não precisa cair no otimismo banal

Todo fim de ano ativa o mesmo roteiro: retrospectivas brilhantes, promessas grandiosas, discursos motivacionais embalados por luzes de Natal (e alguém escrevendo sobre isso de novo). A sensação é de que a simples troca de calendário transforma qualquer pessoa em alguém totalmente renovado, mas basta Janeiro chegar para percebermos que boa parte desse entusiasmo não se sustenta na vida real.

É aqui que precisamos separar duas coisas que muita gente mistura: esperança e otimismo. Para começar, é importante entender a diferença – sim! Há diferença. Otimismo é uma tendência de acreditar que as coisas vão dar certo, uma expectativa emocional positiva sobre o que está por vir. Já a esperança, ao contrário do que o senso comum poeticamente sugere, passa longe de esperar. Na ciência psicológica que estuda aspectos positivos da existência humana, esperança funciona como um sistema de navegação mental que imagina caminhos possíveis e direciona a nossa própria capacidade de percorrê-los. A esperança não prevê o futuro, ela o constrói. O otimismo apenas o imagina como bom.

Esse detalhe importa porque, no final de todo ano, o que vemos nas redes e nas empresas não é esperança: é otimismo performativo. Mensagens de “vai ser incrível” voam por todos os lados sem qualquer apoio em planos, escolhas ou estratégias (e é difícil desviar disso). É o equivalente psicológico a desejar boa sorte sem saber nem qual jogo está sendo jogado.

O ambiente social reforça isso. As pessoas compartilham versões cuidadosamente editadas de seus anos, e o cérebro ativa comparações automáticas. A vida dos outros parece um filme premiado enquanto a nossa vira uma montagem sem trilha sonora. Para compensar essa sensação, muita gente adota um discurso grandioso, cheio de brilho, mas sem substância. Vamos combinar: é uma fantasia confortável, mas frágil... Expectativas infladas sem caminhos definidos aumentam frustração, não motivação.

Na vida profissional, o fenômeno é ainda mais evidente. Empresas enviam mensagens de agradecimento ao mesmo tempo em que pressionam equipes com demandas acumuladas. O tom é positivo, mas a experiência concreta é exaustiva. O funcionário percebe essa incoerência e sente que precisa parecer confiante mesmo estando esgotado. Isso não é esperança! É pressão emocional disfarçada.



A esperança nasce de outra lógica.

Ela não pede que você acredite que tudo ficará bem, mas que identifique o que você pode fazer, como pode fazer, e por que vale a pena tentar. É ação antes de estética. É caminho antes de brilho. É menos “2026-será-incrível” e mais “há-duas-mudanças-possíveis-que-cabem-na-minha-vida-agora”.

Exemplos cotidianos mostram isso com clareza: alguém promete “ser saudável” no próximo ano, mas não define nem o horário em que pretende caminhar. Outro diz que quer “ler mais”, mas mantém a rotina que o impedia de ler. Essas metas pertencem ao reino do otimismo irrealista (o mesmo que faz com que hipertensos continuem com sobrepeso e mantendo fritura no cardápio: uma lente positiva super embaçada). A esperança exige construção de rotas concretas. É o detalhe operacional que transforma desejo em possibilidade.

Também inclui lidar com o cansaço sem culpa. A cultura de alta performance tenta transformar esperança em produtividade obrigatória, como se alguém cansado estivesse “pensando errado”. É o avesso do conceito. A esperança só funciona quando reconhece limites.

Um limite que o calendário estabelece, mas que nossas decisões não acompanham com facilidade. A virada do ano não muda ninguém por si só, mas ela oferece um enquadramento novo possível. O que preenche esse enquadramento não é expectativa, mas escolha deliberada e consciente.

Se existe uma mensagem útil para este dezembro, talvez seja esta: Não anuncie revoluções. Escolha um próximo passo. A esperança começa onde está também um otimismo realista e saudável: no pedaço da vida em que você pode agir. 

 

Sibele Aquino - Doutora em Psicologia Social pela PUC Rio, Professora na Mackenzie Rio, Pesquisadora em Psicologia Positiva


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados