Todo fim de ano ativa o mesmo roteiro: retrospectivas brilhantes, promessas grandiosas, discursos motivacionais embalados por luzes de Natal (e alguém escrevendo sobre isso de novo). A sensação é de que a simples troca de calendário transforma qualquer pessoa em alguém totalmente renovado, mas basta Janeiro chegar para percebermos que boa parte desse entusiasmo não se sustenta na vida real.
É aqui que precisamos separar duas coisas que muita gente mistura: esperança e
otimismo. Para começar, é importante entender a diferença – sim! Há diferença.
Otimismo é uma tendência de acreditar que as coisas vão dar certo, uma
expectativa emocional positiva sobre o que está por vir. Já a esperança, ao
contrário do que o senso comum poeticamente sugere, passa longe de esperar. Na
ciência psicológica que estuda aspectos positivos da existência humana,
esperança funciona como um sistema de navegação mental que imagina caminhos
possíveis e direciona a nossa própria capacidade de percorrê-los. A esperança
não prevê o futuro, ela o constrói. O otimismo apenas o imagina como bom.
Esse detalhe importa porque, no final de todo ano, o que vemos nas redes e nas
empresas não é esperança: é otimismo performativo. Mensagens de “vai ser
incrível” voam por todos os lados sem qualquer apoio em planos, escolhas ou
estratégias (e é difícil desviar disso). É o equivalente psicológico a desejar
boa sorte sem saber nem qual jogo está sendo jogado.
O ambiente social reforça isso. As pessoas compartilham versões cuidadosamente
editadas de seus anos, e o cérebro ativa comparações automáticas. A vida dos
outros parece um filme premiado enquanto a nossa vira uma montagem sem trilha
sonora. Para compensar essa sensação, muita gente adota um discurso grandioso,
cheio de brilho, mas sem substância. Vamos combinar: é uma fantasia
confortável, mas frágil... Expectativas infladas sem caminhos definidos
aumentam frustração, não motivação.
Na vida profissional, o fenômeno é ainda mais evidente. Empresas enviam
mensagens de agradecimento ao mesmo tempo em que pressionam equipes com
demandas acumuladas. O tom é positivo, mas a experiência concreta é exaustiva.
O funcionário percebe essa incoerência e sente que precisa parecer confiante
mesmo estando esgotado. Isso não é esperança! É pressão emocional disfarçada.
A esperança nasce de outra lógica.
Ela não pede que você acredite que tudo ficará bem, mas que identifique o que
você pode fazer, como pode fazer, e por que vale a pena tentar. É ação antes de
estética. É caminho antes de brilho. É menos “2026-será-incrível” e mais
“há-duas-mudanças-possíveis-que-cabem-na-minha-vida-agora”.
Exemplos cotidianos mostram isso com clareza: alguém promete “ser saudável” no
próximo ano, mas não define nem o horário em que pretende caminhar. Outro diz
que quer “ler mais”, mas mantém a rotina que o impedia de ler. Essas metas
pertencem ao reino do otimismo irrealista (o mesmo que faz com que hipertensos
continuem com sobrepeso e mantendo fritura no cardápio: uma lente positiva
super embaçada). A esperança exige construção de rotas concretas. É o detalhe
operacional que transforma desejo em possibilidade.
Também inclui lidar com o cansaço sem culpa. A cultura de alta performance
tenta transformar esperança em produtividade obrigatória, como se alguém
cansado estivesse “pensando errado”. É o avesso do conceito. A esperança só
funciona quando reconhece limites.
Um limite que o calendário estabelece, mas que nossas decisões não acompanham
com facilidade. A virada do ano não muda ninguém por si só, mas ela oferece um
enquadramento novo possível. O que preenche esse enquadramento não é
expectativa, mas escolha deliberada e consciente.
Se existe uma mensagem útil para este dezembro, talvez seja esta: Não anuncie
revoluções. Escolha um próximo passo. A esperança começa onde está também um
otimismo realista e saudável: no pedaço da vida em que você pode agir.
Sibele Aquino -
Doutora em Psicologia Social pela PUC Rio, Professora na Mackenzie Rio,
Pesquisadora em Psicologia Positiva
Nenhum comentário:
Postar um comentário