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Enquanto Reino
Unido e Nova Zelândia abandonam a exportação de animais vivos para abate, o
Brasil debate se deve continuar embarcando milhares de animais — junto com os
riscos sanitários, ambientais e econômicos que acompanham cada carga.
Há uma pergunta que o Congresso brasileiro precisa
responder antes de decidir o futuro da exportação de animais vivos: o que
exatamente estamos exportando quando colocamos milhares de animais dentro de um
navio?
A resposta, no entanto, esbarra em uma das forças
políticas mais organizadas do Congresso Nacional: o lobby do agronegócio.
O debate voltou ao centro da agenda legislativa com
o Projeto de Lei 4.795/2026, apresentado pela deputada Gleisi Hoffmann, que
propõe vedar a exportação de animais vivos destinados ao abate ou à engorda
para posterior abate no exterior. A proposta abrange bovinos, bubalinos,
ovinos, caprinos, suínos e equídeos, mantendo exceções para finalidades como reprodução,
melhoramento genético, pesquisa e conservação.
Mas Gleisi não está sozinha nessa tentativa de
mudar a política brasileira.
O PL 2.627/2025, da deputada Duda Salabert, propõe
uma redução progressiva das exportações de animais vivos até sua eliminação em
um prazo de até cinco anos. O texto prevê uma transição justamente para evitar
rupturas econômicas, enquanto estabelece padrões mais rigorosos de bem-estar
durante o período de adaptação. Hoje, a proposta aguarda parecer na Comissão de
Viação e Transportes da Câmara.
Quando exportamos animais vivos, exportamos também
risco sanitário, movimentação de doenças, resíduos biológicos, impactos
ambientais e risco econômico. E, naturalmente, animais submetidos a uma cadeia
logística que pode atravessar países e oceanos antes de terminar em um
abatedouro.
Ainda assim, a discussão em Brasília frequentemente
é reduzida a uma pergunta muito mais simples: quanto dinheiro essa atividade
movimenta? É uma forma conveniente de encerrar o debate antes que ele comece.
O Brasil exportou mais de 1 milhão de bovinos vivos
em 2025. A atividade movimenta centenas de milhões de dólares e interessa a
produtores e empresas de uma cadeia específica. Mas o fato de uma atividade
gerar receita não deveria ser suficiente para torná-la imune à discussão sobre
seus custos e riscos.
Principalmente quando esses riscos não são uma
invenção de organizações de proteção animal. Eles estão escritos na própria
regulamentação sanitária brasileira.
O Manual do Ministério da Agricultura estabelece
procedimentos específicos para exportação de bovinos, bubalinos, ovinos e
caprinos vivos que incluem monitoramento de contusões, quedas, fraturas,
prostração e mortalidade. Também prevê protocolos para animais mortos na zona
portuária, necropsias, animais que não possam embarcar, queda de animais no rio
ou no mar, controle de pragas, efluentes, resíduos sólidos e qualidade da
água.
Isso diz algo importante: se não
houvesse risco, não seria necessário um protocolo para administrá-lo.
Um animal vivo não é uma
commodity inerte
O Brasil já é uma potência global na exportação de
carne. O país possui frigoríficos, tecnologia, logística, capacidade sanitária
e mercados internacionais consolidados. A discussão, portanto, não deveria ser
apresentada como uma escolha entre “exportar ou não exportar”. É uma
escolha entre exportar matéria-prima viva ou exportar produto processado.
A diferença entre exportar carne e exportar o
animal que dará origem a essa carne é maior do que parece. Quando uma tonelada
de carne atravessa uma fronteira, ela não carrega consigo um animal capaz de
adoecer, excretar, transmitir agentes infecciosos, sofrer lesões ou morrer
durante o percurso.
Um animal vivo, sim.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação
e a Agricultura (FAO) reconhece que a movimentação de animais infectados dentro
e entre países está entre os fatores associados à disseminação de doenças
transfronteiriças de alto impacto. A organização trata a biossegurança ao longo
de toda a cadeia, inclusive durante o transporte, como elemento essencial para
reduzir riscos à saúde animal, humana e ambiental.
A literatura científica sobre comércio
internacional de animais também encontrou evidências de que, após mudanças
regulatórias implementadas em 2001, o comércio passou a representar uma fonte
de risco maior para a ocorrência de focos de febre aftosa, mesmo quando
consideradas medidas de biossegurança.
Isso não significa que cada animal exportado esteja
doente. Significa algo muito mais simples: quanto mais animais vivos atravessam
fronteiras, mais complexa se torna a gestão do risco epidemiológico.
E doenças animais não respeitam contratos
comerciais.
Um surto pode gerar restrições de importação,
suspensão de mercados, custos de contenção e impactos que ultrapassam — e muito
— os agentes econômicos diretamente envolvidos na operação.
O risco não fica dentro do
navio
A cadeia começa antes do embarque.
Animais são selecionados, reunidos, transportados,
passam por períodos de isolamento e chegam a instalações portuárias antes de
entrar no navio. Depois, permanecem confinados durante a viagem e seguem para
instalações e abatedouros no país de destino.
Um estudo sobre a rede brasileira de exportação de
gado vivo analisou 27.517 Guias de Trânsito Animal e 579 certificados veterinários
internacionais para mapear municípios de origem, corredores terrestres, portos
e destinos. A maior parte dos animais analisados tinha como finalidade o abate
imediato no país importador.
Cada etapa é mais uma oportunidade de manejo,
contato, deslocamento, produção de resíduos e exposição a agentes infecciosos.
Não é por acaso que o próprio MAPA define a
biossegurança como parte da estratégia para reduzir a transmissão de doenças
durante o transporte de animais.
E existe uma questão sanitária
que raramente chega ao debate político
Milhares de animais confinados produzem grandes
volumes de fezes e urina.
Isso significa resíduos sólidos, efluentes, água
contaminada e necessidade de manejo de pragas. Mais uma vez, não é uma
hipótese.
O protocolo oficial brasileiro para exportação de
animais vivos exige que os estabelecimentos tenham procedimentos para controle
de efluentes e resíduos sólidos, além de monitoramento da água, medicamentos,
desinfetantes e pragas.
É uma cadeia sanitária complexa porque o objeto
transportado é biologicamente ativo.
Não estamos transportando
apenas carga. Estamos transportando animais, microrganismos e todo um
ecossistema biológico.
É precisamente por isso que o risco precisa ser
levado a sério.
Outros países já fizeram a pergunta
— e responderam não
O Brasil não seria pioneiro ao decidir abandonar
essa prática.
Em maio de 2024, o Reino Unido aprovou uma lei que
proibiu a exportação de gado vivo para abate e engorda a partir da
Grã-Bretanha. A legislação abrange bovinos, ovinos, suínos e caprinos, entre
outros animais. O governo britânico justificou a medida afirmando que ela evita
estresse, exaustão e lesões associados a viagens longas e desnecessárias.
A Nova Zelândia também proíbe o transporte marítimo
de bovinos, ovinos, cervos e caprinos vivos e proíbe a exportação de animais
vivos para abate. E, em março de 2026, o governo confirmou que não avançaria
nesta legislatura com planos para reintroduzir a exportação marítima.
A Austrália aprovou em 2024 o fim da exportação
marítima de ovinos, com entrada em vigor prevista para 1º de maio de 2028 — um
modelo que prevê tempo para adaptação do setor.
Há uma lição importante nesses exemplos.
Proibir a exportação de
animais vivos para abate não significa proibir o comércio de proteína animal.
O Reino Unido continua exportando carne, a Nova
Zelândia continua sendo uma potência agropecuária e a Austrália continua sendo
uma das maiores produtoras e exportadoras de proteína animal do mundo.
O que esses países estão fazendo é outra coisa: separando o
comércio de proteína da necessidade de transportar o animal vivo até o local do
abate.
Então por que o Brasil não
pode fazer o mesmo?
Essa é a pergunta que o Congresso precisa
enfrentar.
A resposta não pode ser simplesmente: “porque o
agro é importante”. Justamente por isso, precisamos discutir qual agro queremos
para as próximas décadas.
Um agro que depende da manutenção de cada prática
existente? Ou um agro capaz de migrar para modelos que agreguem mais valor,
reduzam riscos e respondam às novas exigências sanitárias, ambientais e sociais
do comércio internacional?
O debate sobre exportação de animais vivos não
deveria ser tratado como uma guerra entre “ambientalistas” e “produtores
rurais”.
É uma discussão sobre gestão de
risco, política comercial, saúde animal, biossegurança, valor agregado e
responsabilidade pública.
E também sobre ética.
Porque existe um último elemento que nenhuma
análise econômica consegue eliminar: o animal.
O Congresso precisa escolher
se quer administrar o problema ou eliminá-lo
É possível criar mais protocolos.
Mas existe uma pergunta incômoda: se a carne
pode ser transportada sem transportar o animal, por que manter todas essas
etapas de risco?
Essa é a lógica por trás das mudanças adotadas por
outros países e é também a lógica que precisa entrar no debate brasileiro.
O PL 4.795/2026, apresentado pela deputada Gleisi
Hoffmann, e o PL 2.627/2025, da deputada Duda Salabert, colocam diferentes
modelos de transição e restrição sobre a mesa.
Agora cabe ao Congresso discutir.
Não basta apenas ouvir quem ganha dinheiro com a
atividade. Mas também considerar quem paga quando o risco se transforma em
problema.
2026 deveria ser o ano da
pergunta que ninguém quer responder
Até onde o poder econômico de
um setor consegue definir os limites da política pública?
O agronegócio brasileiro tem força suficiente para
participar dessa discussão. O que não deveria ter é o poder de encerrá-la antes
que ela aconteça.
O Brasil não precisa escolher entre agro e proteção
animal. Precisa escolher entre continuar administrando riscos desnecessários ou
começar a construir uma cadeia de produção mais segura, mais eficiente e mais
preparada para o futuro.
A própria agenda legislativa mostra que esse debate
não é marginal. Há diferentes projetos tratando do tema, com modelos que vão da
proibição direta à redução progressiva da atividade.
O que falta agora não é informação. Falta
vontade política.
E talvez seja exatamente isso que as eleições de
2026 possam ajudar a revelar. Porque, no fim, a pergunta não é apenas se o
Brasil vai continuar exportando animais vivos.
A pergunta é: quando tiverem de escolher
entre a pressão de um setor organizado e a construção de uma política pública
mais moderna, qual lado os nossos representantes escolherão?
O eleitor tem o direito de saber. E os candidatos
têm o dever de responder.
Cristina Diniz - diretora-geral da Sinergia Animal
no Brasil