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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Do cartão às BETs: por que o dinheiro está acabando antes do fim do mês?

Economista Presley Vasconcellos analisa como parcelamentos, crédito, consumo digital e apostas online podem comprometer a renda antes mesmo de o salário chegar à conta
 

O Brasil chegou a 83,9 milhões de consumidores inadimplentes em agosto, o maior número registrado na série histórica do Serasa. O cenário acompanha uma dificuldade que já aparece no cotidiano: a pesquisa do Serasa, em parceria com a Opinion Box, apontou que 50% dos brasileiros gastaram mais do que planejavam no primeiro semestre de 2026. 

O aumento da inadimplência ajuda a colocar luz sobre uma mudança na relação dos brasileiros com o dinheiro. Compras parceladas, crédito facilitado, aplicativos, redes sociais e apostas online tornaram mais simples gastar e, ao mesmo tempo, mais difícil perceber quanto da renda presente e futura já está comprometida. 

“O problema não é gastar. É perder a percepção de quanto da sua renda já foi comprometida. Hoje, você compra com poucos cliques, parcela sem sentir o valor total naquele momento e pode até apostar pelo celular. Quando cada decisão parece pequena, fica mais difícil enxergar o impacto que todas elas terão juntas no orçamento”, explica o economista e criador de conteúdo Presley Vasconcellos. 

O crédito é um dos exemplos dessa relação. Uma pesquisa do Serasa com 1.511 consumidores, realizada neste ano, mostrou que 57% utilizam crédito com frequência e 49% recorrem a ele como apoio mensal para pagar despesas do dia a dia. No cartão, a possibilidade de dividir uma compra ao longo de vários meses pode criar uma distância entre o momento do consumo e o impacto real daquela decisão na renda. 

“O limite do cartão de crédito não é uma extensão do salário. O cartão de crédito pode ser um aliado, quando utilizado para suavizar grandes impactos na renda. Parcelar não é uma sentença, mas pode ser parte de uma estratégia, principalmente na compra de bens duráveis Mas é preciso ter cuidado pois, quando diferentes parcelas começam a se acumular, estamos usando uma renda que ainda nem recebemos para pagar decisões tomadas no passado”, pontua Presley. 

A digitalização adicionou uma nova camada a esse comportamento. Pix, cartões cadastrados em aplicativos e compras com poucos cliques diminuíram o intervalo entre a vontade de consumir e a concretização da compra. Nas redes sociais, produtos e promoções ainda aparecem misturados ao entretenimento, criando estímulos constantes para o consumo. O avanço desse comportamento já se traduz em resultados: as vendas no TikTok Shop cresceram mais de 100 vezes, de acordo com dados divulgados pela própria plataforma. 

“Você pode estar vendo um vídeo e, minutos depois, ter comprado alguma coisa. A facilidade não é o problema por si só. Ela trouxe inúmeros benefícios para o consumidor, mas exige mais consciência porque praticamente eliminou o tempo entre querer, decidir e gastar”, analisa. 

As BETs entram nesse cenário com uma particularidade: além da facilidade de acesso, existe a expectativa de retorno financeiro. Segundo dados mais recentes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, em 2025, as bets autorizadas receberam R$220,6 bilhões em depósitos. Desse total, R$36,9 bilhões viraram saldo negativo para os apostadores e receita para as casas de apostas. Ao longo do ano, cerca de 25 milhões de brasileiros registraram apostas nessas plataformas, com média de 9,25 milhões de apostadores por mês. 

Para Presley, a possibilidade de recuperar ou multiplicar o valor apostado pode alterar a percepção sobre aquele gasto e criar um risco adicional para quem já possui um orçamento comprometido. “A aposta não pode ser tratada como investimento, estratégia para complementar renda ou recuperar dinheiro perdido. Quando alguém perde e aposta novamente tentando buscar aquele valor, o ciclo vicioso começa a drenar a renda da família roubando o espaço de despesas básicas e outros compromissos financeiros”, alerta. 

Guardadas as diferenças entre uma compra parcelada e uma aposta online, as duas situações ajudam a revelar uma mesma questão: ter acesso ao dinheiro ou ao crédito não significa necessariamente ter renda disponível para gastar. Segundo o economista, um dos sinais de alerta aparece quando o salário já chega com boa parte de seu destino definido. Faturas, parcelas antigas, empréstimos e outros compromissos podem fazer com que a renda dos próximos meses seja consumida por decisões anteriores, reduzindo cada vez mais a margem para despesas do cotidiano e imprevistos. 

“Assim como limite no cartão não é renda, uma possibilidade de ganho em uma aposta também não é dinheiro disponível. A pergunta não deve ser apenas ‘quanto eu posso gastar hoje?’, mas ‘quanto da minha renda futura já está comprometida e quanto da renda atual está investida?’. Quando você começa a depender de um novo crédito para pagar o anterior ou de um possível ganho para equilibrar as contas, existe um sinal de que aquela estrutura precisa ser revista”, orienta. 

O ponto central para equilíbrio financeiro está na capacidade de ponderar essas escolhas com a renda disponível e compreender o custo das decisões tomadas no presente, visualizando a necessidade de reservar uma parte da renda que se ganha hoje para o que se precisará gastar amanhã. 

“Não se trata de demonizar o crédito, o consumo ou dizer que qualquer gasto é ruim. Crédito é uma ferramenta importante e consumir de maneira consciente faz parte da estabilidade financeira. O problema aparece quando os compromissos crescem mais rápido do que a capacidade de os pagar. No fim, toda escolha financeira compete pelo mesmo dinheiro e precisa caber não apenas no mês de hoje, mas também nos próximos”, conclui Presley.

  

Presley Vasconcellos - Economista e mestre em Economia pela Universidade Estadual de Maringá, Presley Vasconcellos produz conteúdos sobre economia e educação financeira voltados ao cotidiano dos brasileiros. Com uma abordagem acessível e bem-humorada, traduz temas econômicos complexos para uma linguagem simples nas redes sociais, onde reúne mais de 800 mil seguidores. Seus projetos de educação financeira - que incluem cursos, palestras e mentorias - já alcançaram milhares de alunos no Brasil e no exterior.
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