Economista Presley Vasconcellos analisa
como parcelamentos, crédito, consumo digital e apostas online podem comprometer
a renda antes mesmo de o salário chegar à conta
O Brasil chegou a 83,9 milhões de consumidores inadimplentes em
agosto, o maior número registrado na série histórica do Serasa. O cenário
acompanha uma dificuldade que já aparece no cotidiano: a pesquisa do Serasa, em
parceria com a Opinion Box, apontou que 50% dos brasileiros gastaram mais do
que planejavam no primeiro semestre de 2026.
O aumento da inadimplência ajuda a colocar luz sobre uma mudança
na relação dos brasileiros com o dinheiro. Compras parceladas, crédito
facilitado, aplicativos, redes sociais e apostas online tornaram mais simples
gastar e, ao mesmo tempo, mais difícil perceber quanto da renda presente e
futura já está comprometida.
“O problema não é gastar. É perder a percepção de quanto da sua
renda já foi comprometida. Hoje, você compra com poucos cliques, parcela sem
sentir o valor total naquele momento e pode até apostar pelo celular. Quando
cada decisão parece pequena, fica mais difícil enxergar o impacto que todas
elas terão juntas no orçamento”, explica o economista e criador de conteúdo
Presley Vasconcellos.
O crédito é um dos exemplos dessa relação. Uma pesquisa do Serasa
com 1.511 consumidores, realizada neste ano, mostrou que 57% utilizam crédito
com frequência e 49% recorrem a ele como apoio mensal para pagar despesas do
dia a dia. No cartão, a possibilidade de dividir uma compra ao longo de vários
meses pode criar uma distância entre o momento do consumo e o impacto real
daquela decisão na renda.
“O limite do cartão de crédito não é uma extensão do salário. O
cartão de crédito pode ser um aliado, quando utilizado para suavizar grandes
impactos na renda. Parcelar não é uma sentença, mas pode ser parte de uma
estratégia, principalmente na compra de bens duráveis Mas é preciso ter cuidado
pois, quando diferentes parcelas começam a se acumular, estamos usando uma
renda que ainda nem recebemos para pagar decisões tomadas no passado”, pontua
Presley.
A digitalização adicionou uma nova camada a esse comportamento.
Pix, cartões cadastrados em aplicativos e compras com poucos cliques diminuíram
o intervalo entre a vontade de consumir e a concretização da compra. Nas redes
sociais, produtos e promoções ainda aparecem misturados ao entretenimento,
criando estímulos constantes para o consumo. O avanço desse comportamento já se
traduz em resultados: as vendas no TikTok Shop cresceram mais de 100 vezes, de
acordo com dados divulgados pela própria plataforma.
“Você pode estar vendo um vídeo e, minutos depois, ter comprado
alguma coisa. A facilidade não é o problema por si só. Ela trouxe inúmeros
benefícios para o consumidor, mas exige mais consciência porque praticamente
eliminou o tempo entre querer, decidir e gastar”, analisa.
As BETs entram nesse cenário com uma particularidade: além da
facilidade de acesso, existe a expectativa de retorno financeiro. Segundo dados
mais recentes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, em
2025, as bets autorizadas receberam R$220,6 bilhões em depósitos. Desse total,
R$36,9 bilhões viraram saldo negativo para os apostadores e receita para as
casas de apostas. Ao longo do ano, cerca de 25 milhões de brasileiros
registraram apostas nessas plataformas, com média de 9,25 milhões de
apostadores por mês.
Para Presley, a possibilidade de recuperar ou multiplicar o valor
apostado pode alterar a percepção sobre aquele gasto e criar um risco adicional
para quem já possui um orçamento comprometido. “A aposta não pode ser tratada
como investimento, estratégia para complementar renda ou recuperar dinheiro
perdido. Quando alguém perde e aposta novamente tentando buscar aquele valor, o
ciclo vicioso começa a drenar a renda da família roubando o espaço de despesas
básicas e outros compromissos financeiros”, alerta.
Guardadas as diferenças entre uma compra parcelada e uma aposta
online, as duas situações ajudam a revelar uma mesma questão: ter acesso ao
dinheiro ou ao crédito não significa necessariamente ter renda disponível para
gastar. Segundo o economista, um dos sinais de alerta aparece quando o salário
já chega com boa parte de seu destino definido. Faturas, parcelas antigas,
empréstimos e outros compromissos podem fazer com que a renda dos próximos
meses seja consumida por decisões anteriores, reduzindo cada vez mais a margem
para despesas do cotidiano e imprevistos.
“Assim como limite no cartão não é renda, uma possibilidade de
ganho em uma aposta também não é dinheiro disponível. A pergunta não deve ser
apenas ‘quanto eu posso gastar hoje?’, mas ‘quanto da minha renda futura já
está comprometida e quanto da renda atual está investida?’. Quando você começa
a depender de um novo crédito para pagar o anterior ou de um possível ganho
para equilibrar as contas, existe um sinal de que aquela estrutura precisa ser
revista”, orienta.
O ponto central para equilíbrio financeiro está na capacidade de
ponderar essas escolhas com a renda disponível e compreender o custo das
decisões tomadas no presente, visualizando a necessidade de reservar uma parte
da renda que se ganha hoje para o que se precisará gastar amanhã.
“Não se trata de demonizar o crédito, o consumo ou dizer que qualquer gasto é ruim. Crédito é uma ferramenta importante e consumir de maneira consciente faz parte da estabilidade financeira. O problema aparece quando os compromissos crescem mais rápido do que a capacidade de os pagar. No fim, toda escolha financeira compete pelo mesmo dinheiro e precisa caber não apenas no mês de hoje, mas também nos próximos”, conclui Presley.
Presley Vasconcellos - Economista e mestre em Economia pela Universidade Estadual de Maringá, Presley Vasconcellos produz conteúdos sobre economia e educação financeira voltados ao cotidiano dos brasileiros. Com uma abordagem acessível e bem-humorada, traduz temas econômicos complexos para uma linguagem simples nas redes sociais, onde reúne mais de 800 mil seguidores. Seus projetos de educação financeira - que incluem cursos, palestras e mentorias - já alcançaram milhares de alunos no Brasil e no exterior.
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