Especialista alerta que o acúmulo de plataformas, automações e soluções de IA pode aumentar a complexidade operacional, gerar retrabalho e prejudicar a tomada de decisões
A
tecnologia deveria tornar o trabalho mais simples, mas a rotina corporativa
parece estar caminhando na direção oposta. Segundo o Work Trend Index 2025,
da Microsoft, 80% da força de trabalho global afirma não ter tempo ou
energia suficientes para realizar seu trabalho, enquanto os profissionais
são interrompidos, em média, a cada dois minutos por reuniões, e-mails ou
notificações. O cenário ajuda a explicar um paradoxo da transformação
digital: quanto mais ferramentas entram na operação em nome da produtividade,
maior pode ser a fragmentação da atenção.
O
sinal de alerta não está necessariamente na quantidade de plataformas, mas no
trabalho que elas geram. Quando colaboradores precisam acessar diferentes sistemas
para encontrar uma informação, registrar o mesmo dado mais de uma vez ou
descobrir qual versão de um documento é a correta, parte do ganho prometido
pela digitalização se perde.
Para Igor
Baliberdin, designer estratégico e fundador da LOOOP, com mais de 20 anos
de experiência na interseção entre design, negócios e tecnologia, o principal
indicador é perceber quando a tecnologia começa a exigir mais decisões em vez
de reduzi-las. “Uma empresa pode ter muitas tecnologias e ainda assim ser
extremamente eficiente. O problema começa quando o ecossistema tecnológico
deixa de servir à operação e a operação passa a servir ao ecossistema”, afirma.
Segundo
o especialista, alguns sinais ajudam a identificar quando a empresa pode estar
sofrendo de uma espécie de sobrecarga digital:
1. A
informação existe, mas ninguém sabe onde está
Quando
um dado está em uma plataforma, o histórico em outra e a atualização mais
recente em uma terceira, o colaborador passa a gastar energia tentando
localizar informações em vez de utilizá-las.
“O
colaborador precisa lembrar onde determinada informação está, qual sistema deve
usar, qual processo seguir e qual versão dos dados é confiável. Isso cria uma
espécie de fragmentação da atenção. A pessoa não está necessariamente
trabalhando mais, mas está gastando mais energia para conseguir trabalhar”,
explica.
2. O
mesmo dado é alimentado em vários sistemas
Retrabalho
é outro sinal evidente. Se uma informação precisa ser cadastrada várias vezes
ou existem diferentes versões de uma mesma informação, a tecnologia pode estar
adicionando etapas em vez de eliminá-las.
“Quando
alguém precisa consultar cinco plataformas para responder uma pergunta simples,
a tecnologia já deixou de ser infraestrutura e passou a ser parte do problema.
Além do tempo perdido, a fragmentação aumenta o risco de inconsistências e
dificulta a construção de uma visão única da operação”, diz Igor.
3.
Todo problema parece exigir uma nova ferramenta
A
lógica de solucionar cada dificuldade com uma nova plataforma pode esconder um
problema anterior: a empresa talvez não esteja investigando a causa da questão.
“Existe
uma tendência de tratar tecnologia como resposta antes de entender qual é a
pergunta. Quando surge um problema, é muito mais fácil comprar uma ferramenta
do que investigar a causa daquele problema. Com a IA, esse comportamento se intensificou.
A pressão para “ter IA” pode levar organizações a adotar soluções antes de
definir qual decisão precisam melhorar ou qual trabalho efetivamente desejam
eliminar”, afirma.
4. É
mais fácil encontrar a ferramenta do que a informação
O
excesso de sistemas também pode impactar a qualidade das decisões. Quando dados
relevantes estão espalhados, torna-se mais difícil construir uma visão comum
sobre o problema.
“Quando
a informação está espalhada, a tomada de decisão passa a depender de quem sabe
navegar pelo sistema, e não necessariamente de quem possui o melhor
conhecimento sobre o problema. Nesse cenário, a complexidade tecnológica deixa
de ser apenas uma questão de produtividade e passa a interferir diretamente na
gestão”, alerta.
5. A
empresa tem mais tecnologia, mas não mais clareza
O
sinal mais importante aparece quando a organização acumula plataformas,
automações e IA, mas não consegue demonstrar se a operação realmente melhorou.
“Para
mim, a avaliação deveria partir de três perguntas simples: depois da
implementação, o trabalho ficou mais simples? A informação ficou mais
acessível? A decisão ficou melhor? Se a resposta for não, provavelmente estamos
apenas adicionando complexidade”, afirma.
O
problema não é ter tecnologia demais, mas clareza de menos
Reduzir
a sobrecarga digital não significa abandonar ferramentas ou frear a inovação. O
primeiro passo é revisar a operação antes de acrescentar novas camadas
tecnológicas.
“Eu
começaria não pela tecnologia, mas pela decisão que a empresa precisa melhorar.
Precisamos entender qual problema estamos tentando resolver, quem toma essa
decisão, quais informações essa pessoa precisa e onde elas estão hoje”, explica
Igor.
O
mesmo raciocínio vale para a inteligência artificial. Em vez de perguntar onde
é possível colocar IA, a empresa deveria identificar qual decisão pode ser
melhorada com IA. A maturidade digital, portanto, não está em ter mais
plataformas, automações ou recursos de inteligência artificial, mas em
conseguir transformar informação em decisão com menos fricção.
“Uma
empresa usa tecnologia para simplificar decisões; a outra usa tecnologia para
adicionar capacidade sem necessariamente adicionar clareza. Essa é a diferença
fundamental entre ser verdadeiramente digital e ser apenas uma empresa cheia de
tecnologia”, conclui.
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