Existe uma falha silenciosa no planejamento de expansão internacional das multinacionais. Meses de trabalho e milhões em orçamento são destinados a estudos de mercado, viabilidade de aportes e adaptação a regras comerciais. No entanto, a equipe responsável por concretizar o empreendimento, o elemento humano, costuma ser relegada ao fim do processo, como mero trâmite burocrático a ser resolvido pouco antes do lançamento.
Essa miopia corporativa se torna ainda mais arriscada em um cenário
de volatilidade geopolítica. Com o avanço do protecionismo, de barreiras
tarifárias e do rigor migratório nos Estados Unidos e em países europeus,
empresas concentram esforços na matemática financeira das tarifas. Pouco se
discute, porém, a contrapartida invisível: a imprevisibilidade dos fluxos
migratórios e a dificuldade de alocar executivos e técnicos no momento certo.
A lógica dominante ainda é simplista: primeiro fecha-se o negócio;
depois, cuida-se da imigração. É esse desalinhamento que custa caro.
A implantação da fábrica da BYD, em Camaçari, na Bahia, expôs esse
risco. Centenas de trabalhadores foram deslocados da China para as obras, mas a
operação passou a ser investigada por irregularidades migratórias e graves
violações trabalhistas atribuídas também a empresas contratadas. Houve
interrupção de parte das obras, retorno de trabalhadores à China, suspensão de
novos vistos temporários e revisão do cronograma. O episódio mostrou que
mobilidade global exige compatibilizar previamente vistos, autorizações de
trabalho, contratos, condições laborais, fornecedores e regras locais.
Mobilidade global, portanto, não se resume a formulários, carimbos
ou exigências cartorárias. É estratégia de competitividade. Deve integrar,
desde o início, planejamento migratório, tributário, trabalhista,
previdenciário e societário, além de remuneração internacional, proteção de
dados e necessidades familiares do profissional transferido. Cada dimensão
interfere no custo, no prazo, na segurança jurídica e na sustentabilidade da
operação.
A mobilidade começa quando a diretoria desenha o mapa de expansão
e decide onde investir. De nada serve identificar o mercado ideal se, às
vésperas do lançamento, profissionais essenciais descobrem que não podem atuar
no país de destino. A ausência de um único executivo pode atrasar uma fábrica,
comprometer a transferência de tecnologia e abrir espaço para a concorrência.
Em um ambiente internacional instável, deslocar talentos com
agilidade e segurança jurídica tornou-se um ativo central. Organizações maduras
tratam a legislação migratória como variável de risco operacional: antecipam
cenários, compreendem os fluxos regulatórios e decidem onde crescer sabendo
como e quando suas equipes poderão atuar.
A mobilidade global não deve entrar no projeto depois da decisão
de investimento; precisa participar da própria decisão. Enquanto a circulação
de profissionais for vista apenas como custo burocrático, empresas continuarão
queimando tempo e capital. O mercado não espera: a execução da estratégia
depende de posicionar as pessoas certas, nos lugares certos, no momento certo.
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