A história costuma começar com entusiasmo. Depois de anos alternando dietas, restrições e recuperação de peso, o paciente inicia um tratamento medicamentoso, sente menos fome, controla melhor as porções e finalmente vê a balança descer.
Os exames melhoram. As roupas voltam a servir. O cansaço diminui. A pessoa sente que, enfim, venceu a obesidade.
Então surge a pergunta que se tornou uma das mais frequentes nos consultórios desde a popularização das canetas emagrecedoras: “Quando eu poderei parar o remédio?”
Muitas pessoas imaginam que a medicação funciona como um antibiótico: toma-se por alguns meses, o problema desaparece e o tratamento termina. Por isso, quando o medicamento é suspenso e a fome volta, o peso começa a subir ou os antigos hábitos reaparecem, a conclusão costuma ser cruel: “Eu estraguei tudo novamente.”
Mas será que houve realmente falta de força de vontade? Ou o tratamento de uma doença crônica foi interrompido enquanto a doença ainda permanecia ativa? Essa diferença muda completamente a forma como enxergamos a recuperação de peso.
Emagrecer
não significa necessariamente estar curado
A obesidade não acontece apenas porque alguém “come demais”. Ela envolve genética, metabolismo, hormônios, sono, ambiente, comportamento, saúde emocional e diversos mecanismos que regulam fome e saciedade.
Durante o emagrecimento, o corpo também reage. Ele pode aumentar a fome, reduzir a sensação de saciedade e tentar recuperar a energia que perdeu. É como se o organismo interpretasse a redução de peso como uma ameaça e começasse a lutar para voltar ao ponto anterior.
Para quem observa de fora, parece que a pessoa simplesmente deixou de se controlar. Para quem vive o processo, a experiência pode ser muito diferente, a comida volta a ocupar os pensamentos, as porções deixam de satisfazer e resistir passa a exigir um esforço cada vez maior.
“As pessoas acreditam que, depois de emagrecer, deveriam conseguir manter o mesmo controle sem qualquer ajuda. Mas, quando a medicação é retirada, as condições biológicas mudam. A fome pode aumentar, a saciedade pode diminuir e todos os fatores que contribuíram para o ganho de peso podem continuar presentes”, explica o Dr. Arthur Victor de Carvalho, médico especialista em menopausa, lipedema e hormônios.
As medicações para obesidade atuam justamente sobre parte desses mecanismos. Elas ajudam o paciente a sentir menos fome e mais saciedade. Quando são suspensas, esse efeito deixa de existir.
Isso não significa que o remédio tenha causado o problema. Pode significar apenas que ele estava mantendo o problema sob controle
Recuperar peso não é
o mesmo que ficar “dependente”
A palavra dependência aparece com frequência quando alguém volta a engordar depois de parar uma caneta emagrecedora. O raciocínio parece lógico: se o peso voltou após a suspensão, então o corpo teria ficado dependente da medicação. Mas não é assim que uma doença crônica funciona.
Quando uma pessoa interrompe um remédio para hipertensão e a
pressão volta a subir, ninguém conclui automaticamente que ela ficou viciada no
tratamento. Entende-se que a medicação estava controlando uma condição que
ainda existe.
O mesmo pode acontecer com a obesidade.
Estudos realizados com medicamentos como semaglutida e
tirzepatida mostram que muitos pacientes recuperam parte importante do peso
após a interrupção. Além da balança, benefícios como melhora da glicose, da
pressão arterial e da circunferência abdominal também podem diminuir.
Isso não quer dizer que todas as pessoas voltarão ao peso anterior. Também não significa que todos precisarão usar a mesma medicação pelo resto da vida. Mas mostra que retirar o tratamento e simplesmente mandar o paciente “se controlar” pode ser insuficiente.
“O retorno do peso não deve ser tratado automaticamente como
fracasso. É preciso entender o que reapareceu: fome intensa, compulsão,
resistência à insulina, sedentarismo, falta de sono, alterações hormonais ou
vários desses fatores ao mesmo tempo”, afirma o médico.
Afinal, é preciso
usar para sempre?
Não existe uma única resposta.
Para alguns pacientes, a medicação poderá ser usada por um período e retirada com acompanhamento. Para outros, será necessário reduzir a dose aos poucos, trocar a estratégia ou manter o tratamento por mais tempo.
Há ainda pessoas para quem o uso prolongado poderá oferecer mais benefícios do que riscos, especialmente quando existem doenças associadas, histórico de grande recuperação de peso ou dificuldade intensa para controlar a fome sem tratamento.
O erro está em transformar qualquer uma dessas possibilidades em regra. Manter um medicamento sem reavaliar sua necessidade não é uma conduta responsável. Mas retirá-lo apenas porque o paciente atingiu determinado peso também pode não ser.
“Não existe mérito em suspender uma medicação necessária
apenas para provar que o paciente consegue viver sem ela. Também não faz
sentido mantê-la de forma automática. O tratamento deve continuar enquanto
houver indicação, benefício e segurança”, esclarece o Dr. Arthur.
Mudança de hábitos
continua sendo fundamental
Reconhecer que algumas pessoas podem precisar de medicamentos por mais tempo não torna alimentação e atividade física menos importantes. As medicações não escolhem alimentos, não garantem consumo adequado de proteínas, não constroem massa muscular e não resolvem sozinhas a relação emocional com a comida.
Por outro lado, mudanças de hábitos também não anulam
automaticamente os mecanismos biológicos da obesidade.
Colocar remédio e estilo de vida como inimigos cria uma disputa que não ajuda o paciente. Em muitos casos, a medicação reduz a fome o suficiente para que a pessoa finalmente consiga organizar a alimentação, começar a se exercitar, dormir melhor e sair do ciclo de culpa.
Também é preciso lembrar que esses medicamentos podem causar
efeitos adversos e não devem ser usados sem avaliação médica. Náuseas, vômitos,
constipação e diarreia estão entre as reações mais comuns, e cada paciente
precisa ter seus riscos analisados individualmente.
O peso chegou à
meta. E agora?
Durante muito tempo, o emagrecimento foi tratado como uma corrida com linha de chegada. O paciente perdia os quilos, recebia os parabéns e saía do consultório com uma orientação vaga: “Agora é só manter”. Mas a manutenção não é o que acontece depois do tratamento. Ela é uma das partes mais delicadas dele.
É nessa fase que o apetite pode aumentar, a rotina muda, o entusiasmo diminui e o organismo tenta recuperar o peso. Por isso, manter resultados pode exigir acompanhamento da alimentação, do sono, da massa muscular, dos hormônios, da glicose e da saúde emocional.
Para alguns, a retirada será possível. Para outros, a redução de dose será mais adequada. E haverá pacientes que precisarão continuar a medicação por mais tempo. Nenhuma dessas situações deve ser interpretada como derrota.
“O objetivo não é manter alguém preso a um remédio. É evitar que o paciente continue preso ao ciclo de emagrecer, recuperar tudo, sentir culpa e começar novamente. O que pode precisar ser permanente é o cuidado, não obrigatoriamente a mesma prescrição”, resume o Dr. Arthur Victor de Carvalho.


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