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domingo, 27 de setembro de 2026

Por que duas pessoas da mesma idade podem envelhecer de formas diferentes?

Estudos dos telômeros ajudam a compreender o envelhecimento celular e mostram por que a idade cronológica não é suficiente para explicar como o organismo envelhece


A idade que aparece no documento de identidade nem sempre conta toda a história sobre como o organismo está envelhecendo. Duas pessoas com os mesmos anos de vida podem apresentar diferenças nesse processo, e os telômeros estão entre as estruturas estudadas pela ciência para entender por que isso acontece.

Localizados nas extremidades dos cromossomos, eles ajudam a proteger o material genético e tendem a se encurtar naturalmente à medida que as células se dividem ao longo da vida, um processo necessário para a renovação e a manutenção dos tecidos. Com o passar do tempo e após sucessivas divisões celulares, esse encurtamento pode fazer com que as células percam parte de sua capacidade de se dividir e funcionar adequadamente, sendo um dos mecanismos associados ao processo de envelhecimentoNos últimos anos, o comprimento dos telômeros passou a chamar a atenção dos pesquisadores como um possível indicador do envelhecimento celular.

A revisão sistemática Understanding physical aging in relation to biological aging, telomere length: A systematic review¹, analisou 40 estudos sobre a relação entre os telômeros e diferentes aspectos do envelhecimento físico. Os resultados apontaram associações entre o comprimento dos telômeros e medidas de capacidade e desempenho físico, embora os achados variassem de acordo com o aspecto do envelhecimento avaliado.“Os telômeros podem acrescentar uma informação sobre o envelhecimento celular, mas não devem ser interpretados isoladamente como a idade definitiva de uma pessoa ou como uma previsão de quanto ela vai viver”, explica Ricardo Di Lazzaro, médico, doutor em Genética, fundador da Genera e responsável pela área de Longevidade e Genômica Pessoal da Dasa Genômica.

Segundo o especialista, o interesse por esse tipo de investigação acompanha uma mudança importante na população brasileira. Segundo o IBGE³, o número de pessoas com 60 anos ou mais passou de 22 milhões, em 2012, para 34,1 milhões, em 2024 um crescimento de 53,3%. O avanço da longevidade aumenta também a necessidade de compreender melhor as diferentes formas como o organismo envelhece e de buscar estratégias cada vez mais individualizadas para acompanhar esse processo.

O Brasil já conta com um exame pioneiro para esse tipo de avaliação, feito a partir de uma amostra de sangue. O procedimento observa o comprimento dessas estruturas e a presença de telômeros muito curtos. Os resultados são comparados com referências para pessoas da mesma faixa etária, permitindo identificar se o perfil encontrado está dentro do esperado ou apresenta características associadas a um envelhecimento celular mais acelerado.“Isso não significa, porém, que seja possível transformar o resultado em uma espécie de ‘idade real’ do organismo. O envelhecimento é um processo complexo, influenciado por diferentes fatores, e não pode ser explicado por um único indicador”, reforça Di Lazzaro.

Uma revisão publicada em 2025², Methods for the assessment of biological age: a systematic review, analisou 56 estudos sobre diferentes formas de avaliar a idade biológica e concluiu que ainda não existe uma única medida capaz de representar todo o processo de envelhecimento.Outra abordagem mais recente para estimar a idade biológica são os chamados relógios biológicos, que utilizam diferentes marcadores para avaliar o processo de envelhecimento do organismo.

Entre essas estratégias, estão metodologias que combinam informações obtidas a partir de exames de rotina e outros indicadores clínicos. É nesse contexto que se insere o Bortz Age, que utiliza dados de exames de rotina para oferecer uma avaliação individualizada da idade biológica, ampliando a compreensão sobre o envelhecimento para além da idade cronológica.“Estamos começando a entender que não existe necessariamente um único relógio capaz de traduzir toda a complexidade do envelhecimento.

Diferentes biomarcadores podem capturar diferentes dimensões desse processo. O desafio é entender quais informações são realmente relevantes e como elas podem ser utilizadas de maneira adequada na prática clínica”, afirma Di Lazzaro.Para Maria Helane Gurgel Castelo, endocrinologista e diretora médica de Análises Clínicas da Dasa, o resultado deve ser analisado dentro do contexto de cada pessoa. “O envelhecimento é multifatorial e acontece de maneira diferente entre os indivíduos.

A interpretação deve considerar o conjunto de informações clínicas e biológicas de cada pessoa, permitindo uma avaliação mais individualizada e adequada ao contexto de saúde de cada paciente. Por isso, o acompanhamento ao longo do tempo pode ajudar a observar como esses parâmetros se comportam”, explica.


Referências:

  1. Understanding physical aging in relation to biological aging, telomere length: A systematic review (2025)
    PubMed
  2. Methods for the assessment of biological age – A systematic review (2025)
    PubMed
  3. IBGE — dados populacionais por idade - IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2025

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