Data da ONU em 29 de setembro chama atenção para perdas na operação enquanto nova lei amplia caminhos para doação de excedentes próprios para consumo
O mundo desperdiçou 1,05 bilhão de toneladas de
alimentos em 2022, o equivalente a 19% de tudo o que estava disponível aos
consumidores, segundo o relatório mais recente do Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente. Desse total, 290 milhões de toneladas vieram dos serviços
de alimentação.
O dado volta ao centro da discussão em 29 de
setembro, Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de
Alimentos, e ganha um componente particular no Brasil: no dia seguinte,
completa um ano a política nacional criada para enfrentar o problema.
Para Marcelo Marani,
fundador e CEO da Donos de Restaurantes, escola para empresários do food
service, a discussão precisa começar antes de a sobra chegar à lixeira. Na
avaliação dele, desperdício também é um indicador de gestão, porque cada
alimento descartado carrega custos de compra, armazenamento, energia, mão de
obra e produção.
“Quando um restaurante joga comida fora, não está
descartando apenas o ingrediente. Existe dinheiro investido em toda aquela
cadeia. Antes de discutir o destino da sobra, o empresário precisa entender por
que ela aconteceu e se poderia ter sido evitada”, afirma Marani.
A Política Nacional de Combate à Perda e ao
Desperdício de Alimentos foi instituída pela Lei 15.224, de 30 de setembro de
2025. Entre as medidas previstas estão o fortalecimento dos bancos de
alimentos, o incentivo a microcoletas, campanhas educativas e a criação do Selo
Doador de Alimentos. A legislação também permite a doação de produtos embalados
dentro da validade, alimentos in natura e preparações prontas, desde que
permaneçam seguros para consumo e sejam respeitadas as normas sanitárias.
Para Marani, a possibilidade de doar não deve
servir para normalizar uma operação que produz além da demanda. O primeiro
objetivo continua sendo reduzir o excedente. Compras mal dimensionadas, fichas
técnicas ignoradas, porções maiores do que o necessário e um cardápio com
ingredientes de pouco giro podem transformar alimento em custo antes mesmo de o
cliente fazer o pedido.
“A doação tem um papel social importante, mas não
deve esconder falhas recorrentes. Se o mesmo produto sobra todos os dias,
existe uma informação que precisa ser investigada. O ideal é produzir melhor e,
quando ainda houver excedente próprio para consumo, encontrar um destino
responsável”, explica.
Até o prato que volta para a cozinha pode ajudar
nessa análise. Quando a mesma guarnição é deixada repetidamente pelos
consumidores ou uma preparação retorna em grande quantidade, o estabelecimento
recebe uma informação sobre tamanho de porção, preferência do público ou
composição da receita.
“A sobra do prato também é dado. O cliente pode
estar dizendo, sem preencher nenhuma pesquisa, que a quantidade está exagerada
ou que determinada preparação não funciona como o restaurante imaginava. O
empresário precisa aprender a observar esses sinais”, aponta Marani.
Do excedente à mesa de quem
precisa
O Brasil já possui estruturas que conectam empresas
com alimentos disponíveis a organizações sociais. Uma das maiores é o Sesc Mesa
Brasil, que atua desde 1994 recebendo excedentes de produção e itens fora do
padrão comercial, desde que estejam seguros para consumo. Em 2025, o programa
distribuiu mais de 57,6 milhões de quilos de alimentos e outros produtos,
contou com mais de 3,4 mil empresas parceiras e atendeu mensalmente 2,7 milhões
de pessoas em 874 municípios.
Outra frente é a Rede Brasileira de Bancos de
Alimentos, instituída por decreto em junho de 2025. Coordenada pelo Ministério
do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, a rede reúne
atualmente 208 bancos públicos, organizações da sociedade civil, estruturas
vinculadas ao Sesc e equipamentos localizados em centrais de abastecimento. O
próprio sistema permite consultar unidades por estado e município.
Em São Paulo, o Banco de Alimentos municipal
informou ter transformado mais de 391 toneladas em doações entre janeiro e
agosto de 2026. Os produtos recebidos passam por triagem antes de serem
destinados às organizações atendidas.
Para Marani, trabalhar com instituições que já
possuem processos de coleta, armazenamento e distribuição pode facilitar a
entrada de bares e restaurantes nesse tipo de iniciativa. A lei estabelece
critérios sanitários específicos para as doações e prevê profissional
legalmente habilitado para atestar a qualidade nutricional e sanitária em
determinadas modalidades, inclusive quando o próprio estabelecimento entrega
diretamente aos beneficiários.
“Boa intenção não substitui segurança alimentar. O restaurante precisa saber com quem está trabalhando, como aquele alimento será armazenado e em quanto tempo chegará ao consumidor. Uma parceria organizada permite que a doação faça parte da operação, e não seja uma decisão improvisada no fim do expediente”, ressalta.
Cinco passos para começar
1.Medir o que está sendo
descartado
Durante alguns dias, o estabelecimento pode separar
e registrar perdas de estoque, erros de preparo, excedentes da produção e
retorno dos pratos. O objetivo é descobrir não apenas quanto vai para o lixo,
mas por que isso acontece.
2.Rever compras e estoque
Histórico de vendas, sazonalidade, validade dos
produtos e frequência de reposição ajudam a aproximar a compra da demanda real.
Estoque excessivo imobiliza dinheiro e aumenta o risco de perda.
3.Padronizar receitas e
porções
Fichas técnicas reduzem diferenças entre
funcionários e turnos, facilitam o controle dos custos e evitam que quantidades
maiores sejam utilizadas sem necessidade.
4.Procurar parceiros para o
excedente seguro
Bancos de alimentos, programas como o Sesc Mesa
Brasil e organizações locais podem criar uma rota para produtos que não serão
comercializados, mas permanecem adequados ao consumo. O estabelecimento deve
verificar previamente as exigências sanitárias e logísticas para participar.
5.Usar a sobra como informação
Se determinado item é descartado frequentemente, a
resposta pode estar no cardápio, na previsão de demanda, no tamanho da porção
ou na aceitação do público. Registrar essas ocorrências permite corrigir a
causa em vez de apenas lidar com a consequência.
A própria Lei 15.224 estabelece como prioridade o
consumo humano dos alimentos doados. Quando eles já não apresentam condições
adequadas para isso, a norma também prevê alternativas como compostagem
agrícola e produção de biomassa, conforme regulamentação.
Para Marani, o aniversário da política nacional
pode ajudar a ampliar uma mudança de mentalidade dentro das operações. “O
melhor resultado é impedir que a comida vire excedente sem necessidade. Mas,
quando existe um alimento seguro que não será utilizado, o restaurante precisa
conhecer as alternativas antes de simplesmente descartá-lo. Reduzir perdas,
melhorar a gestão e criar uma rota para doação são decisões que podem caminhar
juntas”, conclui.
Marcelo Marani - fundador e CEO da Donos de Restaurantes, uma das principais escolas para donos de restaurantes da América Latina. Professor formado em Ciência da Computação, com mestrado em Administração de Empresas, defendeu em 2007 uma tese que mostrava que 70% dos donos de restaurantes não trabalham com qualquer tipo de fidelização. Empresário, sócio de mais de 10 empresas do foodservice, com um faturamento de R$28MM em 2025, tem mais 27 anos de experiência no mercado de alimentação e é considerado um dos maiores especialistas em gestão e aumento de faturamento para restaurantes do Brasil. Marani é autor do livro Transforme o seu Restaurante em um Negócio Milionário, da editora Gente. É também host do podcast mais escutado no Brasil para donos de restaurantes. Foi apresentador de TV, no programa Café com Chef da Band domingo de manhã. Já treinou mais de 35 mil empresários, em 23 capitais do Brasil, e já fez trabalhos em Portugal e na Argentina. Para mais informações, visite o Instagram ou pelo site.
Abrasel
https://bonito.abrasel.com.br/noticias/noticias/bares-e-restaurantes-faturaram-mais-em-2025-diz-pesquisa-de-servicos260319114043/
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https://odp.abrasel.com.br/noticias/noticias/situacao-financeira-de-bares-e-restaurantes-volta-a-piorar-em-janeiro260306014352/
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https://rs.abrasel.com.br/noticias/noticias/como-a-inteligencia-artificial-esta-ajudando-donos-de-restaurantes-a-ganhar-tempo-e-tomar-melhores-decisoes/
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