Pacientes com câncer avançado podem ficar sem
acesso a tratamento
Possível encerramento de autorização regulatória
pode comprometer a continuidade da terapia com Lutécio-177 PSMA, utilizada em
casos avançados da doença
Entidades
ligadas à medicina nuclear e à saúde alertam para o risco de interrupção de
tratamentos oncológicos em curso no Brasil caso não haja uma solução
regulatória que assegure a continuidade do fornecimento do radiofármaco Lutécio-177
PSMA, utilizado no tratamento de pacientes com câncer de
próstata metastático resistente à castração.
A
preocupação envolve pacientes que já iniciaram o protocolo terapêutico e
dependem da realização de ciclos sequenciais em intervalos previamente
definidos para garantir a eficácia do tratamento. A interrupção do cronograma
pode comprometer os resultados clínicos já alcançados e reduzir
significativamente as chances de resposta terapêutica.
Atualmente,
o mercado brasileiro conta com apenas dois fornecedores do insumo. Um deles
opera sob autorização excepcional concedida pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), válida até 30 de setembro de 2026. Caso essa
autorização não seja renovada ou substituída por mecanismo regulatório
equivalente, o fornecimento do medicamento poderá ser interrompido a partir de 1º de
outubro, impactando diretamente pacientes em tratamento.
Além
do aspecto regulatório, especialistas apontam uma preocupação adicional
relacionada ao acesso. O produto atualmente disponibilizado sob autorização
excepcional possui custo significativamente inferior à alternativa existente no
mercado, fator que tem permitido sua cobertura por operadoras de saúde e
viabilizado o tratamento para um número maior de pacientes.
Com
uma eventual interrupção do fornecimento, clínicas, hospitais e operadoras
poderão enfrentar dificuldades para manter os tratamentos em andamento,
exigindo renegociações contratuais e, em alguns casos, judicializações. O
principal risco, no entanto, é o aumento do intervalo entre os ciclos
terapêuticos, comprometendo a efetividade clínica do protocolo.
Para
o presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades
Nucleares (ABDAN), Celso Cunha, a situação exige
atenção imediata.
"Estamos
falando de pacientes que já iniciaram um tratamento oncológico e que dependem
da continuidade dos ciclos para preservar os resultados clínicos alcançados. A
interrupção pode representar perda de eficácia terapêutica e redução das
alternativas disponíveis para pessoas em situação de grande
vulnerabilidade", afirma.
Segundo
ele, o avanço da medicina nuclear no Brasil trouxe novas perspectivas para
pacientes que, há poucos anos, tinham opções terapêuticas bastante limitadas.
"O
Brasil avançou significativamente no acesso a terapias inovadoras e de alta
precisão. Agora é fundamental garantir segurança regulatória para que pacientes
não sejam surpreendidos por uma interrupção de tratamento motivada por questões
administrativas e não por decisão médica", acrescenta Cunha.
A
terapia com Lutécio-177 PSMA é considerada uma das principais
inovações da medicina nuclear para o tratamento do câncer de próstata avançado.
O radiofármaco atua de forma direcionada sobre células tumorais que expressam o
antígeno PSMA, permitindo entregar radiação diretamente ao tumor e reduzindo
danos aos tecidos saudáveis.
Representantes
do setor defendem que sejam avaliadas alternativas regulatórias capazes de
garantir a continuidade do fornecimento e evitar prejuízos a pacientes que já
estão em tratamento ativo.
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