Tendência do scentscaping (tendência de design olfativo dos ambientes) usa aromas para mudar a percepção de cômodos e cenários e criar uma nova atmosfera de amplitude, natureza e frescor
É possível fazer um ambiente
parecer mais amplo sem derrubar paredes, trocar os móveis ou mudar a
iluminação? A resposta pode estar em um elemento que não ocupa nenhum
centímetro da casa: o aroma.
Assim como cores claras,
espelhos e iluminação são usados pela decoração para modificar a percepção dos
espaços, os aromas também podem interferir na maneira como experimentamos um
ambiente. É a proposta do scentscaping, tendência que transforma o cheiro em
uma espécie de “decoração invisível”, criando diferentes paisagens olfativas
para cada cômodo.
Entre os aromas que podem
contribuir para uma percepção de frescor e amplitude está o óleo essencial de
Cipreste. Verde, seco, fresco e amadeirado, seu perfil olfativo remete a
árvores altas, folhas, madeira e ao ar de uma floresta.
Segundo a aromaterapeuta,
perfumista, naturóloga e neurocientista Daiana
Petry, não significa que o cômodo fisicamente fique maior, mas
que determinados aromas podem modificar a experiência sensorial daquele espaço.
“Nós não percebemos um
ambiente apenas com os olhos. O cérebro reúne informações da visão, do olfato,
da audição e de outros sentidos para construir a experiência daquele lugar. O
Cipreste tem um perfil olfativo que remete à verticalidade das árvores, ao ar
livre e à natureza. Essa associação pode contribuir para uma sensação subjetiva
de abertura, frescor e amplitude”, explica Daiana.
O cheiro também pode
fazer parte da decoração
Na decoração tradicional, cada
escolha ajuda a construir uma sensação. Tons claros podem transmitir leveza,
enquanto madeira e tecidos naturais aproximam o ambiente da natureza. No
scentscaping, o mesmo raciocínio é aplicado ao olfato.
Em vez de escolher um único
perfume para toda a residência, a proposta é pensar em qual sensação cada
ambiente deve transmitir e construir uma identidade olfativa para ele.
“É uma decoração que você não
vê, mas percebe assim que entra no espaço. O aroma pode fazer um ambiente
parecer mais acolhedor, fresco, vibrante ou contemplativo. Ele passa a integrar
a identidade da casa da mesma maneira que a iluminação ou os objetos”, afirma
Daiana.
Por que o Cipreste
transmite essa sensação?
A composição aromática do óleo
essencial ajuda a explicar suas características. Entre seus principais
componentes está o α-pineno, responsável por parte de seu perfil fresco, verde
e resinoso. O δ-3-careno acrescenta uma característica seca e amadeirada,
enquanto o limoneno, presente em menor proporção, contribui com uma faceta
cítrica e luminosa.
O α-pineno também está
presente entre os compostos voláteis liberados pelas árvores e encontrados no
ar de ambientes florestais. Essa conexão ajuda a explicar por que o cheiro do
Cipreste pode evocar rapidamente referências de mata, árvores e espaços
abertos.
“Quando sentimos um aroma, o
cérebro não identifica apenas moléculas. Ele busca referências e memórias. Se
aquele perfil olfativo remete à floresta, podemos construir mentalmente uma
paisagem muito maior do que o espaço físico onde estamos”, explica a
especialista.
Uma “janela olfativa”
para apartamentos e ambientes pequenos
A estratégia pode ser especialmente
interessante em apartamentos, escritórios domésticos e cômodos menores, onde a
sensação de espaço faz diferença na experiência cotidiana.
O Cipreste pode ser utilizado
para construir uma atmosfera fresca e contemplativa em salas, espaços de leitura,
áreas de trabalho ou momentos de desaceleração.
Para reforçar diferentes
características do aroma, também é possível fazer combinações. Bergamota, Limão
e Laranja deixam a composição mais luminosa e fresca. Cedro-atlas, Sândalo e
Vetiver intensificam a característica amadeirada. Já Lavanda e Sálvia-esclareia
ajudam a construir uma paisagem aromática verde que lembra ambientes
mediterrâneos.
Mais do que fazer a casa
“cheirar bem”, a tendência propõe uma mudança de perspectiva sobre decoração.
“Às vezes, não precisamos
acrescentar mais objetos ao ambiente. Podemos trabalhar justamente com aquilo
que é invisível. O aroma não ocupa espaço físico, mas pode transformar
completamente a percepção que temos dele”, finaliza Daiana Petry.
Estudos
que comprovam:
Ikei H, Song C, Miyazaki Y.
Effects of olfactory stimulation by α-pinene on autonomic nervous activity. J
Wood Sci. 2016;62:568-574. doi:10.1007/s10086-016-1576-1.
Sumitomo K, Akutsu H, Fukuyama
S, Minoshima A, Kukita S, Yamamura Y, Sato Y, Hayasaka T, Osanai S, Funakoshi
H, Hasebe N, Nakamura M. Conifer-Derived Monoterpenes and Forest Walking. Mass
Spectrom (Tokyo). 2015;4(1):A0042. doi: 10.5702/massspectrometry.A0042. Epub
2015 Oct 14. PMID: 26819913; PMCID: PMC4642800.
Daiana Petry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência.
Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia.
Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial.
Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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@daianagpetry

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