Especialista da SBGG explica, no Dia Mundial da
Segurança do Paciente, por que o cuidado ao idoso deve preservar autonomia e
funcionalidade
Tratar
o problema que levou a pessoa idosa ao serviço de saúde não significa,
necessariamente, garantir um cuidado seguro. Uma internação pode resolver a
questão clínica pontual e, ao mesmo tempo, gerar novos riscos, com
consequências para cognição, mobilidade, funcionalidade e autonomia. Para o
geriatra Eduardo Cruz, diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e
Gerontologia (SBGG), a segurança do paciente idoso exige que esses diferentes
aspectos sejam considerados ao longo de todo o cuidado.
“O
olhar para o paciente idoso não pode ser linear. Não basta tratar a queixa que
levou à internação e considerar que o paciente está pronto para a alta. É
preciso avaliar se ele terá condições de retornar à rotina. Algumas medidas
adotadas para protegê-lo podem, inclusive, acabar produzindo outras
complicações, como acontece quando a pessoa permanece excessivamente restrita
ao leito para evitar quedas”, explica.
Para
o especialista, um cuidado seguro envolve um conjunto de ações voltadas à
prevenção e redução de riscos e danos evitáveis durante a assistência à saúde.
Esse compromisso não é responsabilidade apenas dos profissionais que realizam o
atendimento clínico, mas de todos os envolvidos, da recepção e farmácia às
equipes assistenciais e gestão. Entre as medidas estão a identificação correta
do paciente, a comunicação clara entre profissionais e na transição entre
setores, segurança na administração de medicamentos, realização de
procedimentos no paciente e local corretos, prevenção de infecções, redução do
risco de quedas e prevenção de lesões por pressão.
No
caso da pessoa idosa alguns riscos ganham características específicas. “Um
idoso não é um adulto mais velho. É um indivíduo diferente do ponto de vista do
funcionamento dos seus sistemas orgânicos e da resposta aos fármacos e outros
tratamentos. Além disso, a velhice é extremamente heterogênea. Portanto, o
critério idade não pode ser o primordial na eleição ou descontinuação de
tratamentos”, afirma Eduardo.
Cognição também faz parte da segurança
Um
dos desafios apontados pelo geriatra é o reconhecimento de alterações
cognitivas durante o atendimento. A dificuldade em identificar pessoas idosas
com déficit cognitivo pode comprometer a participação do paciente em decisões
sobre procedimentos e tratamentos. “Por vezes, acaba-se por obter consentimento
para procedimentos de alta complexidade e com grande risco à saúde a partir de
pacientes sem capacidade de julgamento de situações complexas”, alerta.
O
comprometimento cognitivo também pode aumentar a vulnerabilidade do idoso
durante uma internação, especialmente pela possibilidade de desenvolvimento do
estado confusional agudo, conhecido como delirium. O quadro pode ser
desencadeado por fatores como uso ou retirada de medicamentos, infecções,
alterações metabólicas, dor, alterações sensoriais e doenças diversas. O
próprio ambiente hospitalar, com excesso de ruído, desconforto térmico e
ausência de referências conhecidas, também pode favorecer a desorientação.
Em
alguns casos, o paciente apresenta agitação, alucinações e confusão. Quando o
quadro não é reconhecido adequadamente, essas manifestações podem ser
interpretadas como comportamento de uma pessoa impaciente, inquieta ou teimosa.
“Como consequência, usam-se altas doses de sedativos, que podem provocar sérias
implicações respiratórias, cardiovasculares e neurológicas e, em alguns casos,
chega-se a amarrar o paciente ao leito. Essa é uma conduta que pode provocar
sérias consequências físicas e mentais, além de representar uma violação da
dignidade”, afirma o especialista.
Cuidados Amigáveis à Pessoa Idosa
É
nesse contexto que os Cuidados Amigáveis à Pessoa Idosa propõem ampliar o olhar
sobre o paciente, considerando não apenas a doença, mas também aquilo que pode
preservar sua capacidade funcional e qualidade de vida. Uma das principais
referências dessa abordagem é a estrutura dos 4Ms: Mente, Mobilidade, Medicação
e “O que importa”.
“O
cuidado realmente seguro para a pessoa idosa deve acontecer em um serviço
amigável, no qual a prática profissional seja estruturada a partir de
evidências científicas, não cause danos e esteja alinhada àquilo que realmente
é importante para o idoso e seus familiares, evitando tratamentos fúteis”,
destaca o geriatra.
Nesse
processo, o geriatra pode contribuir para uma avaliação ampla do paciente e
para o equilíbrio entre os benefícios e os riscos das intervenções. “Uma das
funções do geriatra é avaliar os possíveis impactos do uso de medicamentos,
reconhecer alterações cognitivas, problemas de mobilidade e condições como
demência e fragilidade. Isso ajuda a calibrar a intensidade do tratamento de
acordo com as necessidades e características individuais”, explica Eduardo.
Segurança também significa preservar a capacidade funcional
“A
capacidade funcional, que representa a integração da mente com o corpo, é a
medida mais significativa sobre se estamos fazendo um bom cuidado ou não. Os
4Ms são, em linhas gerais, nossos eixos para garantir a manutenção ou melhoria
da capacidade funcional e da qualidade de vida da pessoa idosa”, afirma.
Um
exemplo é a prevenção de quedas. Restringir a movimentação da pessoa idosa para
evitar a queda pode parecer uma medida de proteção, mas a imobilidade
prolongada pode levar à perda de massa muscular e prejudicar ainda mais sua
capacidade de caminhar e realizar atividades cotidianas. O desafio é proteger
sem retirar do paciente a possibilidade de se movimentar com segurança.
“O
objetivo primordial é garantir a segurança na assistência à saúde, mas,
busca-se minimizar também o declínio funcional dos pacientes idosos após a
passagem pelos equipamentos de saúde. Esse redesenho passa por maior integração
dos geriatras à condução dos casos e pela participação ativa de equipes de
reabilitação e profissionais de Gerontologia, capazes de contribuir para a
preservação da funcionalidade ao longo do cuidado”, conclui Eduardo.
Sociedade Brasileira de
Geriatria e Gerontologia - SBGG
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