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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Segurança do paciente idoso: cuidar da doença não basta, alerta geriatra

 

Especialista da SBGG explica, no Dia Mundial da Segurança do Paciente, por que o cuidado ao idoso deve preservar autonomia e funcionalidade
 

Tratar o problema que levou a pessoa idosa ao serviço de saúde não significa, necessariamente, garantir um cuidado seguro. Uma internação pode resolver a questão clínica pontual e, ao mesmo tempo, gerar novos riscos, com consequências para cognição, mobilidade, funcionalidade e autonomia. Para o geriatra Eduardo Cruz, diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a segurança do paciente idoso exige que esses diferentes aspectos sejam considerados ao longo de todo o cuidado. 

“O olhar para o paciente idoso não pode ser linear. Não basta tratar a queixa que levou à internação e considerar que o paciente está pronto para a alta. É preciso avaliar se ele terá condições de retornar à rotina. Algumas medidas adotadas para protegê-lo podem, inclusive, acabar produzindo outras complicações, como acontece quando a pessoa permanece excessivamente restrita ao leito para evitar quedas”, explica. 

Para o especialista, um cuidado seguro envolve um conjunto de ações voltadas à prevenção e redução de riscos e danos evitáveis durante a assistência à saúde. Esse compromisso não é responsabilidade apenas dos profissionais que realizam o atendimento clínico, mas de todos os envolvidos, da recepção e farmácia às equipes assistenciais e gestão. Entre as medidas estão a identificação correta do paciente, a comunicação clara entre profissionais e na transição entre setores, segurança na administração de medicamentos, realização de procedimentos no paciente e local corretos, prevenção de infecções, redução do risco de quedas e prevenção de lesões por pressão. 

No caso da pessoa idosa alguns riscos ganham características específicas. “Um idoso não é um adulto mais velho. É um indivíduo diferente do ponto de vista do funcionamento dos seus sistemas orgânicos e da resposta aos fármacos e outros tratamentos. Além disso, a velhice é extremamente heterogênea. Portanto, o critério idade não pode ser o primordial na eleição ou descontinuação de tratamentos”, afirma Eduardo.
 

Cognição também faz parte da segurança 

Um dos desafios apontados pelo geriatra é o reconhecimento de alterações cognitivas durante o atendimento. A dificuldade em identificar pessoas idosas com déficit cognitivo pode comprometer a participação do paciente em decisões sobre procedimentos e tratamentos. “Por vezes, acaba-se por obter consentimento para procedimentos de alta complexidade e com grande risco à saúde a partir de pacientes sem capacidade de julgamento de situações complexas”, alerta. 

O comprometimento cognitivo também pode aumentar a vulnerabilidade do idoso durante uma internação, especialmente pela possibilidade de desenvolvimento do estado confusional agudo, conhecido como delirium. O quadro pode ser desencadeado por fatores como uso ou retirada de medicamentos, infecções, alterações metabólicas, dor, alterações sensoriais e doenças diversas. O próprio ambiente hospitalar, com excesso de ruído, desconforto térmico e ausência de referências conhecidas, também pode favorecer a desorientação. 

Em alguns casos, o paciente apresenta agitação, alucinações e confusão. Quando o quadro não é reconhecido adequadamente, essas manifestações podem ser interpretadas como comportamento de uma pessoa impaciente, inquieta ou teimosa. “Como consequência, usam-se altas doses de sedativos, que podem provocar sérias implicações respiratórias, cardiovasculares e neurológicas e, em alguns casos, chega-se a amarrar o paciente ao leito. Essa é uma conduta que pode provocar sérias consequências físicas e mentais, além de representar uma violação da dignidade”, afirma o especialista.
 

Cuidados Amigáveis à Pessoa Idosa 

É nesse contexto que os Cuidados Amigáveis à Pessoa Idosa propõem ampliar o olhar sobre o paciente, considerando não apenas a doença, mas também aquilo que pode preservar sua capacidade funcional e qualidade de vida. Uma das principais referências dessa abordagem é a estrutura dos 4Ms: Mente, Mobilidade, Medicação e “O que importa”. 

“O cuidado realmente seguro para a pessoa idosa deve acontecer em um serviço amigável, no qual a prática profissional seja estruturada a partir de evidências científicas, não cause danos e esteja alinhada àquilo que realmente é importante para o idoso e seus familiares, evitando tratamentos fúteis”, destaca o geriatra. 

Nesse processo, o geriatra pode contribuir para uma avaliação ampla do paciente e para o equilíbrio entre os benefícios e os riscos das intervenções. “Uma das funções do geriatra é avaliar os possíveis impactos do uso de medicamentos, reconhecer alterações cognitivas, problemas de mobilidade e condições como demência e fragilidade. Isso ajuda a calibrar a intensidade do tratamento de acordo com as necessidades e características individuais”, explica Eduardo.
 

Segurança também significa preservar a capacidade funcional 

“A capacidade funcional, que representa a integração da mente com o corpo, é a medida mais significativa sobre se estamos fazendo um bom cuidado ou não. Os 4Ms são, em linhas gerais, nossos eixos para garantir a manutenção ou melhoria da capacidade funcional e da qualidade de vida da pessoa idosa”, afirma. 

Um exemplo é a prevenção de quedas. Restringir a movimentação da pessoa idosa para evitar a queda pode parecer uma medida de proteção, mas a imobilidade prolongada pode levar à perda de massa muscular e prejudicar ainda mais sua capacidade de caminhar e realizar atividades cotidianas. O desafio é proteger sem retirar do paciente a possibilidade de se movimentar com segurança. 

“O objetivo primordial é garantir a segurança na assistência à saúde, mas, busca-se minimizar também o declínio funcional dos pacientes idosos após a passagem pelos equipamentos de saúde. Esse redesenho passa por maior integração dos geriatras à condução dos casos e pela participação ativa de equipes de reabilitação e profissionais de Gerontologia, capazes de contribuir para a preservação da funcionalidade ao longo do cuidado”, conclui Eduardo.
 

 

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG


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