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| Inclusão no mercado de trabalho vai além da contratação e envolve acessibilidade, desenvolvimento e oportunidades de carreira Divulgação Grupo Marista |
A contratação de
pessoas com deficiência avançou no mercado de trabalho brasileiro nas últimas
décadas, mas ainda há uma distância entre ocupar uma vaga e construir uma
carreira. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Socioeconômicos (Dieese), com base na Relação Anual de Informações Sociais
(RAIS), mostram que apenas 23% das empresas cumprem integralmente os
percentuais previstos pela Lei de Cotas. Além disso, somente uma em cada 29
pessoas com deficiência e emprego formal ocupa cargo de direção ou gerência.
Confira dez erros
que ainda podem limitar a inclusão de pessoas com deficiência nas empresas, com
base na experiência de profissionais da área:
1. Confundir contratação com inclusão
Contratar é só o
começo — o problema aparece quando a empresa para por aí. A analista de
Diversidade e Inclusão do Grupo Marista, Denise Dalmece, que também é pessoa
com deficiência, já viveu essa situação: em experiências profissionais
anteriores, ouviu de lideranças que era essencial para o time, mas, quando o
assunto era promoção ou aumento salarial, as oportunidades não se
concretizavam. “Muitas vezes, porque não queriam ter o trabalho de contratar e
desenvolver outra pessoa com deficiência para ocupar a minha vaga”, conta.
Para ela, ainda
existe a ideia de que, por ter uma deficiência, a pessoa já deveria se sentir
grata apenas por estar empregada — como se “querer crescer na carreira, ganhar
um salário melhor, assumir novos desafios ou ser reconhecida pelo seu trabalho
fosse ambição demais”.
2. Enxergar a Lei de Cotas apenas como obrigação
Quando a
legislação é tratada apenas como uma exigência a ser cumprida, a inclusão tende
a ficar restrita ao preenchimento de vagas. No Grupo Marista, 364 colaboradores
com deficiência representam atualmente 5,2% do quadro, e a instituição cumpre a
cota há três anos consecutivos. Para a coordenadora de Talentos e Diversidade
do Grupo Marista, Tania Mior Botemberger, porém, a inclusão efetiva vai além do
cumprimento da legislação e exige que o tema deixe de ser tratado como pauta
isolada e passe a fazer parte da estratégia de gestão de pessoas.
3. Não adaptar processos seletivos
Exigir que todos
os candidatos passem pelas mesmas etapas, sem considerar necessidades de
acessibilidade, cria barreiras antes mesmo da contratação. As empresas precisam
avaliar comunicação, entrevistas, testes, ambientes e recursos utilizados na
seleção, para garantir que a avaliação se concentre nas competências do
candidato.
Entre as práticas
adotadas pelo Grupo Marista estão adaptações nas diferentes etapas do processo
seletivo, definidas conforme as necessidades de cada candidato. A instituição
também disponibiliza recursos de acessibilidade para assegurar condições
adequadas de participação.
4. Deixar a inclusão restrita ao RH
A diversidade não
pode ser responsabilidade exclusiva da área de Recursos Humanos. Tania avalia
que, quando a organização não trabalha a inclusão de forma transversal, desde o
recrutamento até o desenvolvimento profissional, “o cumprimento da cota passa a
ser visto como um desafio isolado da área de RH, quando deveria ser uma
responsabilidade compartilhada por toda a empresa”.
5. Não preparar as lideranças
Gestores
influenciam diretamente a experiência dos profissionais com deficiência, do
acesso a oportunidades ao reconhecimento de talentos. “Líderes inclusivos
desafiam pressupostos, valorizam competências, eliminam barreiras e criam
ambientes em que todas as pessoas possam demonstrar seu potencial”, destaca
Tania.
Lideranças
precisam assumir responsabilidade pelos resultados em diversidade e equidade,
não apenas apoiar essas pautas à distância. Na prática, isso significa
participar ativamente da identificação de talentos, do desenvolvimento dos
profissionais e da criação de oportunidades de crescimento dentro das organizações.
6. Subestimar o impacto do capacitismo
O preconceito nem
sempre se manifesta de forma explícita. Pode estar na presunção de que uma
pessoa não está preparada para determinada função, na resistência em oferecer
novos desafios ou na ideia de que a deficiência limita seu potencial. “Muitas
vezes, há um olhar limitado sobre a capacidade profissional da pessoa com
deficiência, como se a deficiência definisse até onde ela pode chegar”, pontua
Denise.
7. Oferecer a vaga, mas não uma perspectiva de carreira
A inclusão não
termina na admissão. Capacitações, planos de desenvolvimento individual,
mobilidade interna e oportunidades de assumir novos desafios são importantes
para que o profissional possa construir sua trajetória na organização.
Um exemplo é o
Programa Incluir, do Grupo Marista, que contempla Planos de Desenvolvimento
Individual (PDIs), capacitações e oportunidades de movimentação interna para
colaboradores com deficiência. A iniciativa também prevê o acompanhamento de
profissionais e lideranças, com foco na inclusão, na permanência e no
desenvolvimento de carreira.
8. Ignorar necessidades individuais de acessibilidade
Pessoas com
deficiência têm necessidades específicas de acessibilidade, comunicação e
adaptação, e políticas padronizadas nem sempre dão conta disso. A inclusão
exige escuta individual e identificação das barreiras específicas que podem
impedir a participação plena de cada profissional — tanto no processo seletivo
quanto no dia a dia do trabalho.
9. Não ouvir os próprios profissionais com deficiência
Uma organização
pode criar políticas bem-intencionadas sem necessariamente identificar os
obstáculos vivenciados por quem está no dia a dia. Tania aponta esse problema
como recorrente: “também é comum a ausência de escuta ativa das próprias
pessoas com deficiência na construção das iniciativas de inclusão”.
Para Denise,
ocupar esse espaço de escuta tornou-se parte do próprio propósito profissional.
“Hoje tenho a oportunidade de ajudar pessoas com deficiência a se desenvolverem
e, ao mesmo tempo, conscientizar outras pessoas sobre o capacitismo”, conta.
10. Medir a inclusão apenas pelo número de contratações
O número de
admissões é um indicador importante, mas não mostra sozinho se a inclusão está
funcionando. Retenção, desenvolvimento, mobilidade interna, promoção e
participação em posições de liderança também revelam a evolução das políticas —
e o cenário nacional reforça esse ponto: apesar da ampliação do acesso ao
mercado formal, apenas uma em cada 29 pessoas com deficiência e emprego formal
ocupa cargo de direção ou gerência.
“A inclusão gera
valor quando as pessoas têm espaço para contribuir, crescer e liderar”, resume
Tania. Para Denise, o caminho começa por reconhecer a raiz do problema: “os
desafios não estão relacionados à falta de capacidade, mas às barreiras
sociais, estruturais e de acessibilidade que ainda existem”.

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