Infodemia é o excesso de notícias falsas ou distorcidas prejudicam a prevenção e desacreditam tratamentos científicos
Difícil diferenciar informação e desinformação
em tempos de contestação da ciência. As redes sociais propagam fatos e fakes em
velocidade superior à necessária para a comprovação da veracidade do que se
prega. De acordo com o National Cancer Institute, um em cada três artigos sobre
câncer que circulam nas redes carrega informações falsas. Na oncologia, a
chamada Infodemia tem potencial letal. Interfere na detecção precoce das
doenças e reduz as chances de cura. Compromete prognósticos de pacientes
lesados por falsas promessas de cura e impactados por mitos como, por exemplo,
o que atribui à radiação das mamografias o risco de desenvolvimento de tumores.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA)
resume a infodemia em câncer como “o excesso de informações falsas ou
distorcidas nas redes sociais que prejudicam a prevenção e desacreditam
tratamentos científicos”. Trata-se de uma epidemia de desinformação. O
oncologista Fernando Medina, do Centro de Oncologia Campinas (COC), observa que
a infodemia é especialmente direcionada a uma parcela vulnerável e suscetível
emocionalmente a acreditar no que a ciência contesta.
“Imagine receber um diagnóstico de
câncer. O mundo desaba. Na busca desesperada por respostas, você abre o
celular. Em poucos minutos, encontra dezenas de vídeos prometendo curas
simples, sem quimioterapia, sem efeitos colaterais. Alguém jurou que parou de
comer açúcar e o tumor desapareceu. Outro afirma que a indústria farmacêutica
esconde a cura para continuar vendendo tratamentos caros. Para quem está
assustado, vulnerável e precisando de esperança, essas mensagens soam como um
farol na escuridão”, descreve o médico.
Mas há algo ainda mais perturbador na
infodemia, segundo Medina: “os algoritmos das redes sociais, projetados para
maximizar engajamento, acabam por premiar a mentira. Conteúdo sensacionalista,
que provoca medo, raiva ou esperança falsa, recebe mais curtidas,
compartilhamentos e comentários do que informação factual e equilibrada.”
Mitos
sobre o câncer
Fernando Medina elenca alguns dos
principais mitos e inverdades que interferem na prevenção, nos cuidados,
prognósticos e no tratamento do câncer:
Açúcar,
o Inimigo Invisível
Um dos mitos mais persistentes é que o
açúcar "alimenta" o câncer. A lógica apelativa é simples: células
cancerígenas consomem mais glicose, portanto, eliminar o açúcar da dieta mata o
tumor. A realidade, no entanto, é bem mais complexa. Todas as células do corpo
— saudáveis ou não — utilizam glicose como fonte de energia. Não existe
evidência científica de que uma dieta sem açúcar cure ou impeça o câncer.
O que existe são estudos sobre
obesidade e estilo de vida como fatores de risco, não sobre "privação de
açúcar" como tratamento. Pacientes que abandonam tratamentos convencionais
para seguir dietas restritivas sem supervisão médica podem sofrer desnutrição
grave — e agravar, em vez de melhorar, seu prognóstico. Ainda assim, pesquisas
indicam que a maioria dos pacientes com câncer de mama já ouviu essa afirmação,
muitas vezes de fontes que parecem confiáveis.
A quimioterapia como vilã
Outro mito devastador é a apresentação
da quimioterapia como um "veneno" ineficaz, imposto por médicos para
lucrar. “Vídeos e posts nas redes frequentemente mostram pessoas que
"curaram o câncer naturalmente", sem quimioterapia, sem radioterapia,
sem cirurgia. Esses testemunhos emocionais viralizam com facilidade, enquanto a
ciência, que exige cautela e nuance, fica para trás”, detalha Medina.
A verdade é que a quimioterapia é um
tratamento comprovado por décadas de pesquisa clínica rigorosa. “Sim, tem efeitos
colaterais significativos. Sim, é um tratamento agressivo. Mas também salva
milhões de vidas. Estudos mostram que pacientes que optam por tratamentos
alternativos em vez de terapias convencionais têm risco significativamente
maior de morte”.
O problema, diz o oncologista, não está
em usar terapias complementares — como acupuntura, meditação ou nutrição
orientada — mas em substituir tratamentos com evidência por métodos sem
comprovação.
A cura
secreta que não existe
A teoria da conspiração mais viral de todas
sugere que a indústria farmacêutica possui a cura do câncer, mas a esconde para
continuar vendendo tratamentos caros. Esse mito foi um dos artigos de saúde
mais compartilhados em anos recentes, acumulando milhões de interações nas
redes sociais.
“A realidade, porém, é que o câncer não
é uma doença única. São centenas de doenças diferentes, cada uma com biologia,
prognóstico e resposta terapêutica únicos. Não existe ‘uma cura’ porque não
existe ‘um câncer’. Além disso, a ideia de que milhares de cientistas, médicos
e pesquisadores ao redor do mundo conspiram em silêncio é estatisticamente
impossível”, aponta Fernando Medina.
Ervas,
suplementos e "remédios naturais"
Artigos virais afirmam que substâncias
naturais — gengibre, óleo de cannabis, suco de folhas, bicarbonato de sódio, peróxido
de hidrogênio — curam o câncer. Alguns chegam a afirmar que determinada erva é
"dez mil vezes mais eficaz que a quimioterapia". “Embora algumas
substâncias naturais tenham propriedades anti-inflamatórias ou antioxidantes em
laboratório, nenhuma delas foi comprovada como cura para o câncer em estudos
clínicos robustos”, diz.
A
mamografia que "espalha" o câncer
Em vídeos populares, comentários
frequentemente afirmam que a mamografia "quebra o tumor e espalha o
câncer" ou que "a radiação do exame causa câncer de mama".
“Essas alegações são biologicamente
implausíveis. A mamografia utiliza doses mínimas de radiação e o benefício do
diagnóstico precoce supera em muito qualquer risco teórico. Não existe
mecanismo pelo qual o exame possa espalhar células cancerígenas. O rastreamento
mamográfico é uma das ferramentas mais eficazes de redução da mortalidade por
câncer de mama em populações elegíveis”, assegura.
Vacinas
que "causam" câncer
O mito de que vacinas — especialmente
as de tecnologia mais recente — modificam o DNA e causam câncer circula nas
redes sociais. A realidade é exatamente o oposto. “A vacina contra o HPV, por
exemplo, é uma das maiores ferramentas de prevenção de câncer já desenvolvidas,
protegendo contra câncer de colo de útero, orofaringe e outros tipos
relacionados ao vírus. A desinformação sobre vacinas não apenas prejudica a
saúde pública, mas priva pessoas de proteção real contra doenças”.
Por que
acreditamos?
Não se trata de ingenuidade, reafirma
Fernando Medina. Receber um diagnóstico de câncer é um dos momentos mais
vulneráveis da vida de uma pessoa. A ansiedade, o medo e a necessidade urgente
de controle fazem com que milhões de pacientes recorram às redes sociais em
busca de respostas — e de esperança.
As redes sociais oferecem exatamente o
que o paciente precisa emocionalmente:
• Esperança fácil: Promessas de curas
simples, sem efeitos colaterais, sem sofrimento
• Narrativas pessoais: Testemunhos
emocionais que parecem mais "reais" do que estatísticas frias
•
Comunidade: Grupos de apoio
que, às vezes, reforçam crenças erradas como forma de pertencimento
• Senso de controle: A ideia de que há
algo ativo que o paciente pode fazer — dieta, suplementos, terapias
alternativas — contra uma doença que parece aleatória e injusta
"Quando você está com medo,
qualquer promessa de controle soa como salvação. O problema é que o controle
ilusório pode custar a vida real", afirma
As
consequências reais
A desinformação não fica apenas na tela
do celular. Ela tem consequências mensuráveis — e graves — na vida real.
“Pacientes que optam por terapias
alternativas em vez de tratamentos convencionais apresentam risco
significativamente maior de morte. Em alguns tipos de câncer, o risco de morte
é mais que o dobro. Não se trata de uma diferença sutil: é a diferença entre
viver e morrer”, assegura.
Além da mortalidade, há o
arrependimento terapêutico. Pacientes que obtiveram informações primariamente
na internet — em vez de conversas aprofundadas com seus médicos — relatam significativamente
mais arrependimento sobre o tipo de tratamento escolhido.
“A exposição a conteúdo com informação
exagerada ou desequilibrada gera expectativas irreais, e quando a realidade não
corresponde, o sofrimento psicológico é imenso.”
Como se
proteger: um guia prático
Para Pacientes e Familiares
• Desconfie de curas milagrosas. Se algo
parece bom demais para ser verdade, provavelmente é. Câncer é complexo; não
existem soluções simples.
• Verifique a fonte. Sites de
instituições de saúde reconhecidas, hospitais de referência e sociedades
médicas são fontes confiáveis.
•
Converse com seu médico. Leve
as dúvidas que surgiram nas redes. Um bom profissional não ridiculariza —
esclarece.
• Cuidado com testemunhos. A experiência
de uma pessoa não é evidência científica. O que funcionou para alguém pode não
funcionar para você.
• Desconfie de quem vende. Se o
"especialista" está vendendo um produto, suplemento ou curso, o
interesse financeiro pode estar distorcendo a informação.
instagram.com/coc_oncologia
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