Pesquisar no Blog

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

“Epidemia” de desinformação compromete tratamento oncológico: veja alguns mitos e o que fazer

Infodemia é o excesso de notícias falsas ou distorcidas prejudicam a prevenção e desacreditam tratamentos científicos

 

Difícil diferenciar informação e desinformação em tempos de contestação da ciência. As redes sociais propagam fatos e fakes em velocidade superior à necessária para a comprovação da veracidade do que se prega. De acordo com o National Cancer Institute, um em cada três artigos sobre câncer que circulam nas redes carrega informações falsas. Na oncologia, a chamada Infodemia tem potencial letal. Interfere na detecção precoce das doenças e reduz as chances de cura. Compromete prognósticos de pacientes lesados por falsas promessas de cura e impactados por mitos como, por exemplo, o que atribui à radiação das mamografias o risco de desenvolvimento de tumores.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) resume a infodemia em câncer como “o excesso de informações falsas ou distorcidas nas redes sociais que prejudicam a prevenção e desacreditam tratamentos científicos”. Trata-se de uma epidemia de desinformação. O oncologista Fernando Medina, do Centro de Oncologia Campinas (COC), observa que a infodemia é especialmente direcionada a uma parcela vulnerável e suscetível emocionalmente a acreditar no que a ciência contesta.

“Imagine receber um diagnóstico de câncer. O mundo desaba. Na busca desesperada por respostas, você abre o celular. Em poucos minutos, encontra dezenas de vídeos prometendo curas simples, sem quimioterapia, sem efeitos colaterais. Alguém jurou que parou de comer açúcar e o tumor desapareceu. Outro afirma que a indústria farmacêutica esconde a cura para continuar vendendo tratamentos caros. Para quem está assustado, vulnerável e precisando de esperança, essas mensagens soam como um farol na escuridão”, descreve o médico.

Mas há algo ainda mais perturbador na infodemia, segundo Medina: “os algoritmos das redes sociais, projetados para maximizar engajamento, acabam por premiar a mentira. Conteúdo sensacionalista, que provoca medo, raiva ou esperança falsa, recebe mais curtidas, compartilhamentos e comentários do que informação factual e equilibrada.”


Mitos sobre o câncer

Fernando Medina elenca alguns dos principais mitos e inverdades que interferem na prevenção, nos cuidados, prognósticos e no tratamento do câncer:


Açúcar, o Inimigo Invisível

Um dos mitos mais persistentes é que o açúcar "alimenta" o câncer. A lógica apelativa é simples: células cancerígenas consomem mais glicose, portanto, eliminar o açúcar da dieta mata o tumor. A realidade, no entanto, é bem mais complexa. Todas as células do corpo — saudáveis ou não — utilizam glicose como fonte de energia. Não existe evidência científica de que uma dieta sem açúcar cure ou impeça o câncer.

O que existe são estudos sobre obesidade e estilo de vida como fatores de risco, não sobre "privação de açúcar" como tratamento. Pacientes que abandonam tratamentos convencionais para seguir dietas restritivas sem supervisão médica podem sofrer desnutrição grave — e agravar, em vez de melhorar, seu prognóstico. Ainda assim, pesquisas indicam que a maioria dos pacientes com câncer de mama já ouviu essa afirmação, muitas vezes de fontes que parecem confiáveis.


 A quimioterapia como vilã

Outro mito devastador é a apresentação da quimioterapia como um "veneno" ineficaz, imposto por médicos para lucrar. “Vídeos e posts nas redes frequentemente mostram pessoas que "curaram o câncer naturalmente", sem quimioterapia, sem radioterapia, sem cirurgia. Esses testemunhos emocionais viralizam com facilidade, enquanto a ciência, que exige cautela e nuance, fica para trás”, detalha Medina.

A verdade é que a quimioterapia é um tratamento comprovado por décadas de pesquisa clínica rigorosa. “Sim, tem efeitos colaterais significativos. Sim, é um tratamento agressivo. Mas também salva milhões de vidas. Estudos mostram que pacientes que optam por tratamentos alternativos em vez de terapias convencionais têm risco significativamente maior de morte”.

O problema, diz o oncologista, não está em usar terapias complementares — como acupuntura, meditação ou nutrição orientada — mas em substituir tratamentos com evidência por métodos sem comprovação.


A cura secreta que não existe

A teoria da conspiração mais viral de todas sugere que a indústria farmacêutica possui a cura do câncer, mas a esconde para continuar vendendo tratamentos caros. Esse mito foi um dos artigos de saúde mais compartilhados em anos recentes, acumulando milhões de interações nas redes sociais.

“A realidade, porém, é que o câncer não é uma doença única. São centenas de doenças diferentes, cada uma com biologia, prognóstico e resposta terapêutica únicos. Não existe ‘uma cura’ porque não existe ‘um câncer’. Além disso, a ideia de que milhares de cientistas, médicos e pesquisadores ao redor do mundo conspiram em silêncio é estatisticamente impossível”, aponta Fernando Medina.


Ervas, suplementos e "remédios naturais"

Artigos virais afirmam que substâncias naturais — gengibre, óleo de cannabis, suco de folhas, bicarbonato de sódio, peróxido de hidrogênio — curam o câncer. Alguns chegam a afirmar que determinada erva é "dez mil vezes mais eficaz que a quimioterapia". “Embora algumas substâncias naturais tenham propriedades anti-inflamatórias ou antioxidantes em laboratório, nenhuma delas foi comprovada como cura para o câncer em estudos clínicos robustos”, diz.


A mamografia que "espalha" o câncer

Em vídeos populares, comentários frequentemente afirmam que a mamografia "quebra o tumor e espalha o câncer" ou que "a radiação do exame causa câncer de mama".

“Essas alegações são biologicamente implausíveis. A mamografia utiliza doses mínimas de radiação e o benefício do diagnóstico precoce supera em muito qualquer risco teórico. Não existe mecanismo pelo qual o exame possa espalhar células cancerígenas. O rastreamento mamográfico é uma das ferramentas mais eficazes de redução da mortalidade por câncer de mama em populações elegíveis”, assegura.


Vacinas que "causam" câncer

O mito de que vacinas — especialmente as de tecnologia mais recente — modificam o DNA e causam câncer circula nas redes sociais. A realidade é exatamente o oposto. “A vacina contra o HPV, por exemplo, é uma das maiores ferramentas de prevenção de câncer já desenvolvidas, protegendo contra câncer de colo de útero, orofaringe e outros tipos relacionados ao vírus. A desinformação sobre vacinas não apenas prejudica a saúde pública, mas priva pessoas de proteção real contra doenças”.


Por que acreditamos?

Não se trata de ingenuidade, reafirma Fernando Medina. Receber um diagnóstico de câncer é um dos momentos mais vulneráveis da vida de uma pessoa. A ansiedade, o medo e a necessidade urgente de controle fazem com que milhões de pacientes recorram às redes sociais em busca de respostas — e de esperança.

As redes sociais oferecem exatamente o que o paciente precisa emocionalmente:

          Esperança fácil: Promessas de curas simples, sem efeitos colaterais, sem sofrimento

          Narrativas pessoais: Testemunhos emocionais que parecem mais "reais" do que estatísticas frias

          Comunidade: Grupos de apoio que, às vezes, reforçam crenças erradas como forma de pertencimento

          Senso de controle: A ideia de que há algo ativo que o paciente pode fazer — dieta, suplementos, terapias alternativas — contra uma doença que parece aleatória e injusta

"Quando você está com medo, qualquer promessa de controle soa como salvação. O problema é que o controle ilusório pode custar a vida real", afirma

As consequências reais

A desinformação não fica apenas na tela do celular. Ela tem consequências mensuráveis — e graves — na vida real.

“Pacientes que optam por terapias alternativas em vez de tratamentos convencionais apresentam risco significativamente maior de morte. Em alguns tipos de câncer, o risco de morte é mais que o dobro. Não se trata de uma diferença sutil: é a diferença entre viver e morrer”, assegura.

Além da mortalidade, há o arrependimento terapêutico. Pacientes que obtiveram informações primariamente na internet — em vez de conversas aprofundadas com seus médicos — relatam significativamente mais arrependimento sobre o tipo de tratamento escolhido.

“A exposição a conteúdo com informação exagerada ou desequilibrada gera expectativas irreais, e quando a realidade não corresponde, o sofrimento psicológico é imenso.”


Como se proteger: um guia prático

Para Pacientes e Familiares

          Desconfie de curas milagrosas. Se algo parece bom demais para ser verdade, provavelmente é. Câncer é complexo; não existem soluções simples.

          Verifique a fonte. Sites de instituições de saúde reconhecidas, hospitais de referência e sociedades médicas são fontes confiáveis.

          Converse com seu médico. Leve as dúvidas que surgiram nas redes. Um bom profissional não ridiculariza — esclarece.

          Cuidado com testemunhos. A experiência de uma pessoa não é evidência científica. O que funcionou para alguém pode não funcionar para você.

          Desconfie de quem vende. Se o "especialista" está vendendo um produto, suplemento ou curso, o interesse financeiro pode estar distorcendo a informação.

 

www.oncologia.com.br
instagram.com/coc_oncologia


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados