Aumento de registros nos grandes centros, ameaça ao certificado de erradicação da OPAS e o fenômeno da “amnésia imunológica” reforçam a urgência da imunização em bebês e adultos
A reemergência de casos confirmados de sarampo nos principais centros urbanos do país colocou as autoridades sanitárias em estado de vigilância contínua. Após fechar o ano de 2025 com 38 casos confirmados e mais de 3.500 notificações suspeitas, o Brasil chegou a 24 infecções confirmadas nos primeiros meses de 2026, com 23 casos somente no Estado de São Paulo. O cenário ameaça a recertificação obtida pelo país junto à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e acende um sinal vermelho para a queda contínua na cobertura vacinal.
Dra. Rebecca Saad, médica infectologista e coordenadora do Serviço de Controle
de Infecção Hospitalar do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João
Amorim”, alerta que a baixa adesão às campanhas de vacinação cria bolsões de
suscetibilidade ideais para a circulação contínua do vírus, impondo riscos
graves tanto a bebês quanto a adultos com doenças crônicas.
Contágio por aerossóis: o vírus que flutua no ar
Com
um número básico de reprodução (R₀) entre 12 e 18, o que significa que um único
infectado pode transmitir a doença para até 18 pessoas não imunizadas, o
Morbillivirus é um dos agentes patogênicos mais transmissíveis conhecidos pela
medicina.
Diferente de vírus que exigem contato próximo, o sarampo se espalha por aerossóis (microgotículas expelidas ao falar, tossir ou espirrar) capazes de permanecer suspensos e infectantes no ar de ambientes fechados por até duas horas após a passagem da pessoa com a doença. Transporte público, salas de aula e escritórios figuram como os principais vetores de disseminação em metrópoles.
Segundo a Dra. Rebecca, o tempo prolongado sem grandes surtos gerou uma
perigosa percepção de baixa gravidade na sociedade. “Existe uma falsa sensação
de que o sarampo é uma doença do passado ou apenas uma infecção infantil
benigna. Trata-se de uma patologia sistêmica grave e potencialmente fatal, cuja
única barreira eficaz é a vacinação”, pontua a médica.
Amnésia imunológica e riscos em populações vulneráveis
O
impacto da infecção varia conforme a resposta imune do paciente, apresentando
gravidade destacada em dois extremos populacionais:
Bebês menores de 1 ano:
com o sistema imunológico ainda imaturo e sem a cobertura completa do
calendário vacinal, o vírus progride rapidamente para complicações
respiratórias (pneumonia bacteriana secundária) e otites médias, que podem
resultar em perda auditiva permanente. Para conter a transmissão comunitária
nesses focos, o Ministério da Saúde mantém a indicação da “dose zero” da
tríplice viral para crianças de 6 a 11 meses.
Adultos imunocomprometidos: em pessoas com diabetes,
hipertensão arterial descompensada ou cardiopatias, bem como pacientes
oncológicos e em uso de imunossupressores, o sarampo manifesta-se com maior
severidade. Além do risco de encefalite (inflamação cerebral com sequelas
neurológicas irreversíveis), a infecção causa o fenômeno conhecido como amnésia
imunológica: o vírus destrói temporariamente as células de memória do sistema
imune, apagando a proteção adquirida contra outros patógenos e deixando o
organismo vulnerável a infecções graves por meses após a recuperação
Diagnóstico precoce e o papel da imunidade coletiva
Os
sintomas iniciais antecedem as clássicas manchas avermelhadas na pele (exantema)
e incluem febre alta, tosse seca, coriza e conjuntivite com fotofobia. É
justamente durante essa fase prodrômica (quando muitos confundem o sarampo com
uma gripe comum) que ocorre a maior taxa de transmissão do vírus.
“Manter
a carteirinha de vacinação atualizada em adultos de até 59 anos é uma medida de
responsabilidade coletiva. Ao se imunizar, o adulto impede que o vírus chegue
às crianças que ainda não têm idade para receber o esquema vacinal completo”,
reforça a infectologista.
A vacina tríplice
viral (proteção contra sarampo, caxumba e rubéola) está disponível
gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde geridas pelo CEJAM e em toda a rede
do Sistema Único de Saúde (SUS) para a população de 6 meses a 59 anos.
CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
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@institutocejam

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