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terça-feira, 18 de agosto de 2026

IA faz a lição de casa, mas quem está aprendendo?

Divulgação Colégio Objetivo DF
No Colégio Objetivo DF, que integra o Grupo Blue Educação, discussão sobre uso consciente da inteligência artificial busca preparar estudantes para utilizar a tecnologia sem deixar de lado autonomia, pensamento crítico e construção do conhecimento

 

A inteligência artificial já entrou na rotina de crianças e adolescentes. Está presente nas pesquisas para trabalhos escolares, na resolução de exercícios, na produção de textos e até na preparação para provas. Com respostas prontas em poucos segundos, a tecnologia oferece praticidade, mas também traz uma nova questão para dentro das escolas: se a inteligência artificial faz a tarefa, quem está aprendendo? 

Diante dessa realidade, instituições de ensino começam a substituir a lógica de proibição pelo desenvolvimento de uma cultura de uso consciente. A discussão sobre inteligência artificial tem feito parte das iniciativas voltadas à formação dos estudantes para um cenário em que a tecnologia estará cada vez mais presente no cotidiano. 

A proposta é mostrar que a IA pode ser uma aliada no processo educacional, desde que não substitua a participação ativa do aluno. Para o professor Jean Rafael, coordenador de Robótica Educacional do Instituto Blue Educação, em Brasília, impedir completamente o contato dos estudantes com essas ferramentas não é uma estratégia realista. 

“A IA veio para ficar. Não adianta dizer aos alunos que eles não podem utilizar a inteligência artificial durante os estudos ou para resolver as tarefas de casa. O que precisamos fazer é instruí-los para o uso correto dessa ferramenta.”
 

Entre o auxílio e o atalho

Um dos principais desafios está em diferenciar o uso da inteligência artificial como recurso de aprendizagem daquele em que a ferramenta simplesmente entrega a resposta pronta. Para os educadores, essa diferença é fundamental. 

Uma ferramenta de IA pode, por exemplo, ajudar o estudante a compreender um conceito, sugerir caminhos para uma pesquisa, apresentar diferentes formas de abordar determinado assunto ou auxiliar na organização das ideias. O problema aparece quando o aluno apenas copia o resultado e deixa de participar da construção do conhecimento. 

“A IA é uma poderosa ferramenta e, como ferramenta, deve ser parte do processo de aprendizado. Ela não pode ser a parte absoluta, não pode ser o todo. O aluno precisa interagir com aquela inteligência artificial e alternar seu uso com meios de pesquisa tradicionais para construir todo o processo cognitivo que aquela tarefa foi pensada para desenvolver”, explica Jean Rafael. 

A mudança também altera a relação do estudante com a própria pesquisa. Em vez de simplesmente procurar uma resposta, passa a ser necessário questionar a informação recebida, comparar fontes, identificar possíveis erros e compreender o conteúdo antes de utilizá-lo.
 

O que acontece quando a resposta vem pronta?

A preocupação das escolas não está apenas relacionada à possibilidade de cópia em trabalhos ou tarefas. O debate envolve uma questão mais profunda: o impacto que a dependência excessiva da tecnologia pode ter sobre o desenvolvimento das habilidades cognitivas. 

Isso porque uma atividade escolar não é pensada apenas para chegar a uma resposta correta. Resolver um problema, escrever um texto ou pesquisar determinado assunto também envolve interpretação, raciocínio, tentativa, erro, seleção de informações e construção de argumentos.  

“Quando passamos um dever de casa ou uma tarefa para os estudantes, não queremos simplesmente que eles resolvam por resolver. O mais importante é o que eles vão absorver e aprender durante o processo de resolução daquela tarefa.” 

Nesse sentido, utilizar a IA para eliminar justamente essa etapa pode fazer com que o estudante entregue uma atividade correta sem necessariamente ter aprendido o conteúdo. “Se a IA vem com a resposta pronta e o aluno simplesmente coloca a pergunta, copia a resposta e entrega, onde entra o processo de aprendizado? Esse processo é inexistente.”
 

Escola precisa ensinar também a usar a tecnologia

A presença da inteligência artificial amplia o papel da escola. Além de ensinar conteúdos tradicionais, educadores passam a ter o desafio de preparar os estudantes para utilizar tecnologias que já fazem parte de sua realidade. 

Isso significa discutir ética, responsabilidade, checagem de informações e limites de uso, mas também ensinar os alunos a fazer perguntas melhores, analisar respostas e utilizar a tecnologia para ampliar e não substituir sua capacidade de pensar. 

Para Jean, a ausência dessa orientação pode favorecer uma relação de dependência. “Se não tomarmos cuidado de instruir adequadamente nossos estudantes, eles vão se tornar cada vez mais dependentes desse tipo de ferramenta e seu desenvolvimento cognitivo pode ser prejudicado ao longo do processo educacional.” 

A questão, portanto, já não é mais se os estudantes terão contato com a inteligência artificial. Para as escolas, o desafio é prepará-los para conviver com ela de maneira crítica e responsável. Afinal, em uma realidade na qual uma resposta pode estar a poucos segundos de distância, aprender a pensar continua sendo uma habilidade que nenhuma tecnologia deveria substituir.


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