Saída de recursos da B3 é a maior desde janeiro de 2022, mas investimento estrangeiro direto continua elevado.
O investidor estrangeiro mudou de posição em
relação ao mercado brasileiro. Até 13 de agosto, o saldo líquido de
investidores internacionais na B3 estava negativo em R$ 15,63
bilhões, segundo levantamento da Elos Ayta com dados da bolsa.
Mesmo com o mês ainda em andamento, o volume já representa a maior saída mensal
da série acompanhada pela consultoria desde janeiro de 2022.
O movimento contrasta com o início do ano.
Somente entre janeiro e março, estrangeiros colocaram mais de R$ 53
bilhões no mercado acionário brasileiro. Em maio, no entanto,
houve retirada de aproximadamente R$ 14,9 bilhões, seguida por nova saída em
junho. Julho apresentou pequena recuperação, mas agosto voltou a registrar
forte retirada de recursos.
Apesar das manchetes sobre uma possível
“debandada” de investidores, a leitura exige cautela. Sair da
Bolsa não significa necessariamente sair do Brasil.
Para o professor universitário e mestre em
Negócios Internacionais André Charone, é preciso
diferenciar o investimento de portfólio, mais líquido e sensível às oscilações
do mercado, do investimento produtivo de longo prazo.
“O que os números mostram, até agora, não é uma
retirada generalizada do capital estrangeiro do Brasil. Estamos vendo uma
redução forte da exposição à Bolsa, mercado em que o investidor consegue reagir
rapidamente às mudanças na percepção de risco”, explica
Charone.
Investimento
direto continua forte
Os dados do Banco Central mostram um cenário
diferente quando se observa o Investimento Direto no País (IDP).
Em junho, o Brasil recebeu US$ 9,1
bilhões em investimentos diretos. No acumulado de 12 meses, o
volume chegou a US$ 89,3 bilhões, equivalente a 3,58% do PIB.
Para Charone, essa diferença é fundamental
para entender o momento.
“Existe uma distância enorme entre vender uma ação
e desistir de construir uma fábrica, adquirir uma empresa, ampliar uma operação
ou reinvestir lucros no país. Não podemos tratar esses movimentos como se
fossem a mesma coisa”, afirma.
Segundo o especialista, uma perda mais
estrutural de confiança seria percebida caso a saída da Bolsa fosse acompanhada
por redução persistente do investimento direto e cancelamento de projetos
empresariais.
“O sinal de alerta está aceso, mas ainda não
estamos diante de uma fuga estrutural do investimento estrangeiro. O que
existe, principalmente, é uma reprecificação do risco brasileiro no mercado
financeiro”, avalia.
Fiscal,
juros e eleições pesam na decisão
Entre os fatores que ajudam a explicar a
cautela dos investidores estão as preocupações com as contas públicas, a
permanência dos juros em níveis elevados, a desaceleração da economia e a
proximidade das eleições presidenciais.
Na última semana, o JPMorgan reduziu sua
recomendação para ações brasileiras de overweight para neutra, citando,
entre outros fatores, crescimento mais fraco, juros elevados e maior
volatilidade eleitoral.
Para Charone, o investidor não precisa necessariamente
prever uma crise para reduzir sua exposição.
“Basta perceber que a relação entre risco e
retorno piorou. Quando aumentam as dúvidas sobre dívida pública, política
fiscal, juros ou o cenário econômico do próximo governo, o investidor passa a exigir
um prêmio maior para manter recursos no país”, explica.
Os juros elevados também tornam a renda fixa
mais competitiva e aumentam a pressão sobre empresas dependentes do consumo e
do crédito.
“Preço baixo não significa necessariamente
oportunidade. Uma ação pode estar barata justamente porque o mercado passou a
atribuir um risco maior àquele ativo ou àquele país”, diz
Charone.
O que
observar daqui para frente
A principal dúvida agora é saber se a saída
observada em agosto representa apenas um ajuste de posições ou o início de uma tendência
mais prolongada.
Para avaliar esse cenário, será necessário
acompanhar simultaneamente o fluxo estrangeiro na B3, o comportamento do dólar
e dos juros, a evolução das contas públicas, o ambiente eleitoral e, principalmente,
os próximos dados de investimento direto divulgados pelo Banco Central.
“A Bolsa funciona como um termômetro quase
instantâneo da confiança. O investimento direto reage mais lentamente, mas
revela uma decisão muito mais profunda. Se os dois começarem a apontar
deterioração ao mesmo tempo, aí teremos um cenário realmente mais preocupante”,
conclui Charone.
Por enquanto, a mensagem do mercado parece ser menos a de que o estrangeiro está abandonando o Brasil e mais a de que está exigindo uma remuneração maior para aceitar os riscos de permanecer investido no país.
André Charone - contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida (EUA), com atuação nas áreas de contabilidade, finanças e consultoria empresarial. Possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV, em São Paulo, além de certificações internacionais pela Universidade de Harvard, em Massachusetts, e pelo Disney Institute, na Flórida. É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional. Seu mais recente trabalho é o livro "Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática", em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.
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