Estudo inédito revela que a epidemia de
apostas atinge as mulheres no coração do seu papel social e financeiro
A CLARICE, estúdio de pesquisa e
projetos criativos sobre mulheres e poder, em parceria com a Estratégia
Latina e o IDEIA, lançou, na segunda-feira
(17/8), a pesquisa inédita Mulheres & Bets: O impacto da epidemia de
apostas online para as brasileiras e suas famílias. Esse tipo de jogo já
foi usado por metade (49%) dos brasileiros; entre as mulheres, 42% já
apostaram ou apostam atualmente. Para 67%
das entrevistadas, as apostas estão acabando com as famílias
brasileiras (ante 59% dos homens). Também são elas que mais cobram uma solução:
62% defendem a proibição dos jogos online no país (versus
50% dos homens), posição que se mantém majoritária independente do
viés político.
Acesse
aqui os principais destaques e números da pesquisa
O estudo avaliou o impacto do jogo na vida das brasileiras sob
duas óticas: as que apostam e as impactadas por um familiar apostador(a). Os
dados revelam um cenário alarmante de desestruturação familiar, danos graves à
saúde mental, superendividamento, além de episódios de violência, com efeito
ainda mais severo nas classes D e E.
“As bets jogam com dois imaginários muito fortes. Elas seduzem
pela promessa de vida digna - a conta paga, a mesa farta, o presente para os
filhos - e também pelo lado cuidado, papel historicamente atribuído às
mulheres. A casa, o principal lugar em que a influência feminina é plenamente
exercida, acaba capturada pela armadilha", destaca Beatriz Della Costa,
fundadora e codiretora da CLARICE.
O relatório foi feito a partir de estudos qualitativos e
quantitativos. As entrevistas qualitativas, realizadas em junho e agosto,
ouviram 60 pessoas, sobretudo mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E,
no Sudeste e Nordeste. Na enquete quantitativa, foram ouvidos 2.008 mulheres e
homens em todo o Brasil, entre 8 e 9 de julho, de acordo com a distribuição da
população conforme o Censo 2022, PNAD 2025. A margem de erro é de 2 pontos
percentuais.
Quase a metade dos brasileiros (49%) aposta ou já apostou. Entre as
mulheres, esse número chega a 42%. “Quando o Brasil pensa em
bets, a imagem que sempre aparece é masculina, mas as mulheres têm um papel
fundamental diante deste fenômeno que as atinge, mesmo quando elas não jogam.
Onde tem aposta, tem uma mulher pagando a conta”, aponta Mariana Ribeiro,
cofundadora e codiretora da CLARICE.
Muito além do endividamento, a pesquisa mostra que a expansão das
apostas online está provocando um estrago bem mais difícil de se reparar ao
erodir as relações que sustentam a família por dentro. No centro dessa crise,
estão as mulheres. “A dívida é só a parte visível. Quem gerencia as contas da
casa e cuida das relações da família são as mulheres, e é nessas duas pontas, a
do dinheiro e a dos afetos, que o dano aparece por inteiro”, explica Della
Costa.
Num país onde tantos temas são polarizados, a rejeição ao jogo
supera as divergências ideológicas: 62% dos eleitores de Lula e 56% de Bolsonaro
são a favor do banimento das bets. Outro dado que chama atenção é que 23% dos
entrevistados conhecem ou presenciaram alguma situação em que as apostas
contribuíram para casos de violência dentro da família.
A pesquisa mapeou também as políticas e medidas que os brasileiros
apoiam para conter o avanço das bets. O apoio à proibição das casas de apostas
já é majoritário (56%) e é puxado pelas mulheres. Entre as medidas testadas,
45% aprovam o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais e
33% teriam interesse em um canal anônimo de apoio — índice que sobe para 57%
entre quem aposta com frequência. O estudo também revela um alerta para as
políticas já existentes: 70% dos brasileiros nunca ouviram falar do sistema de
autoexclusão criado pelo governo federal e o desconhecimento é maior entre as
mulheres das classes D e E.
“A perspectiva das mulheres é a única por meio da qual se vê a
crise inteira. Sem escutá-las, não é possível medir o tamanho real do problema.
Nenhuma estratégia de resposta será eficaz sem considerar as mulheres e seu
papel social”, conclui Ribeiro.
Beatriz Della Costa - cientista social, estrategista e especialista em mulheres e poder. É fundadora e codiretora da CLARICE, estúdio de inteligência e criação sobre o tema, e cofundadora do Instituto Update, que promove a presença de mulheres na política na América Latina. Une pesquisa e cultura para transformar a forma como o Brasil pensa, percebe e pratica a liderança das mulheres. Mestra em administração pública pela Harvard Kennedy School, é coautora de Feminismo em Disputa.
Mariana Ribeiro - executiva, comunicadora e estrategista de impacto. Co-fundadora e codiretora da CLARICE. Chefiou a Purpose Brasil, lançou a robô Beta Feminista, co-fundou o Mapa do Acolhimento e foi responsável pela campanha de impacto de projetos renomados, incluindo o documentário Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar. É conselheira em organizações sociais, fellow da Vital Voices e colunista da Fast Company Brasil.
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