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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Quatro em cada 10 brasileiras já apostaram em bets e 67% alertam que apostas online estão destruindo as famílias

Estudo inédito revela que a epidemia de apostas atinge as mulheres no coração do seu papel social e financeiro

 

A CLARICE, estúdio de pesquisa e projetos criativos sobre mulheres e poder, em parceria com a Estratégia Latina e o IDEIA, lançou, na segunda-feira (17/8), a pesquisa inédita Mulheres & Bets: O impacto da epidemia de apostas online para as brasileiras e suas famílias. Esse tipo de jogo já foi usado por metade (49%) dos brasileiros; entre as mulheres, 42% já apostaram ou apostam atualmente. Para 67% das entrevistadas, as apostas estão acabando com as famílias brasileiras (ante 59% dos homens). Também são elas que mais cobram uma solução: 62% defendem a proibição dos jogos online no país (versus 50% dos homens), posição que se mantém majoritária independente do viés político. 

Acesse aqui os principais destaques e números da pesquisa 

O estudo avaliou o impacto do jogo na vida das brasileiras sob duas óticas: as que apostam e as impactadas por um familiar apostador(a). Os dados revelam um cenário alarmante de desestruturação familiar, danos graves à saúde mental, superendividamento, além de episódios de violência, com efeito ainda mais severo nas classes D e E. 

“As bets jogam com dois imaginários muito fortes. Elas seduzem pela promessa de vida digna - a conta paga, a mesa farta, o presente para os filhos - e também pelo lado cuidado, papel historicamente atribuído às mulheres. A casa, o principal lugar em que a influência feminina é plenamente exercida, acaba capturada pela armadilha", destaca Beatriz Della Costa, fundadora e codiretora da CLARICE. 

O relatório foi feito a partir de estudos qualitativos e quantitativos. As entrevistas qualitativas, realizadas em junho e agosto, ouviram 60 pessoas, sobretudo mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, no Sudeste e Nordeste. Na enquete quantitativa, foram ouvidos 2.008 mulheres e homens em todo o Brasil, entre 8 e 9 de julho, de acordo com a distribuição da população conforme o Censo 2022, PNAD 2025. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. 

Quase a metade dos brasileiros (49%) aposta ou já apostou. Entre as mulheres, esse número chega a 42%. “Quando o Brasil pensa em bets, a imagem que sempre aparece é masculina, mas as mulheres têm um papel fundamental diante deste fenômeno que as atinge, mesmo quando elas não jogam. Onde tem aposta, tem uma mulher pagando a conta”, aponta Mariana Ribeiro, cofundadora e codiretora da CLARICE. 

Muito além do endividamento, a pesquisa mostra que a expansão das apostas online está provocando um estrago bem mais difícil de se reparar ao erodir as relações que sustentam a família por dentro. No centro dessa crise, estão as mulheres. “A dívida é só a parte visível. Quem gerencia as contas da casa e cuida das relações da família são as mulheres, e é nessas duas pontas, a do dinheiro e a dos afetos, que o dano aparece por inteiro”, explica Della Costa.

Num país onde tantos temas são polarizados, a rejeição ao jogo supera as divergências ideológicas: 62% dos eleitores de Lula e 56% de Bolsonaro são a favor do banimento das bets. Outro dado que chama atenção é que 23% dos entrevistados conhecem ou presenciaram alguma situação em que as apostas contribuíram para casos de violência dentro da família. 

A pesquisa mapeou também as políticas e medidas que os brasileiros apoiam para conter o avanço das bets. O apoio à proibição das casas de apostas já é majoritário (56%) e é puxado pelas mulheres. Entre as medidas testadas, 45% aprovam o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais e 33% teriam interesse em um canal anônimo de apoio — índice que sobe para 57% entre quem aposta com frequência. O estudo também revela um alerta para as políticas já existentes: 70% dos brasileiros nunca ouviram falar do sistema de autoexclusão criado pelo governo federal e o desconhecimento é maior entre as mulheres das classes D e E. 

“A perspectiva das mulheres é a única por meio da qual se vê a crise inteira. Sem escutá-las, não é possível medir o tamanho real do problema. Nenhuma estratégia de resposta será eficaz sem considerar as mulheres e seu papel social”, conclui Ribeiro.



Beatriz Della Costa - cientista social, estrategista e especialista em mulheres e poder. É fundadora e codiretora da CLARICE, estúdio de inteligência e criação sobre o tema, e cofundadora do Instituto Update, que promove a presença de mulheres na política na América Latina. Une pesquisa e cultura para transformar a forma como o Brasil pensa, percebe e pratica a liderança das mulheres. Mestra em administração pública pela Harvard Kennedy School, é coautora de Feminismo em Disputa.

Mariana Ribeiro - executiva, comunicadora e estrategista de impacto. Co-fundadora e codiretora da CLARICE. Chefiou a Purpose Brasil, lançou a robô Beta Feminista, co-fundou o Mapa do Acolhimento e foi responsável pela campanha de impacto de projetos renomados, incluindo o documentário Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar. É conselheira em organizações sociais, fellow da Vital Voices e colunista da Fast Company Brasil.

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