Você já reparou que em muitas padarias, restaurantes ou bares a equipe muda o tempo todo? O proprietário treina um atendente, um dia ele está no balcão, no outro já não está mais lá. A sensação é que o funcionário tem prazo de validade.
Todo mês visito um cliente em Jacarei para fazer
uma sessão de fotos e sempre paramos numa padaria ao lado para tomar café. E,
toda vez, a equipe é diferente. Os donos continuam os mesmos, batalhando. Mas
os funcionários vão e vêm. A cada três meses, 100% da equipe já mudou.
E a conversa com outros donos de comércio confirma
que não é só ali. É um problema geral.
Por que isso está aco
ntecendo?
Acho que a gente precisa olhar pra duas gerações
diferentes. Tenho 40 anos, sou da Geração Y. Fui criado com a ideia de que
trabalho é prioridade, que carreira é orgulho, que a gente cresce na empresa
com o tempo. Aprendi isso com meus pais, que aprenderam com meus avós. E era
assim que o mundo funcionava.
Hoje, a nova geração chegou com outros valores:
qualidade de vida, lazer e tempo livre. Não que isso seja errado – eu também
aprendi a gostar disso. A diferença é que, pra mim, trabalho e vida sempre
andaram juntos. Pra eles, parecem ser coisas distintas.
E isso não é só achismo. Pesquisas recentes mostram
que a Geração Z fica, em média, 2,8 anos na mesma empresa. No primeiro emprego,
esse número cai pra apenas 11 meses.
O que explica isso?
Muitos jovens têm objetivos bem específicos: pagar
uma conta, comprar um tênis, juntar dinheiro para viajar no carnaval. Quando o
objetivo é cumprido, o trabalho perde o sentido. Eles pedem demissão e partem
para o próximo.
Além disso, boa parte ainda mora com os pais e não
tem as mesmas despesas de alguém que sustenta uma casa. Não vê a compra de um
carro ou imóvel como prioridade, afinal, o Uber resolve o transporte e a casa
dos pais ainda é um porto seguro. O trabalho, para eles, é uma transação. Não
uma construção de futuro.
Outro fator que muita gente esquece são os reflexos
pós-pandemia. Os jovens que hoje têm entre 18 e 22 anos passaram parte da
adolescência trancados em casa. Perderam anos de convívio social, de
aprendizado prático e de construção de relações profissionais e pessoais. Isso
gerou uma geração que, em muitos casos, tem mais dificuldade de lidar com
frustrações e com o contato direto com o cliente.
E a solução? Pagar mais?
Não resolve. Já testamos. O problema não é só o
dinheiro, é o propósito. Se o jovem não vê sentido no que faz, ele vai embora,
mesmo ganhando bem.
Para tentar superar essa situação sugiro algumas
ações que podem ajudar os empresários, principalmente do setor de alimentação:
- Automatizar
o que for possível. Painéis, sistemas, reduzir a dependência de mão de
obra pra tarefas repetitivas.
- Contratar
com mais critério. Identificar quem realmente busca crescimento na área.
- Dar
espaço para profissionais mais maduros, que buscam recolocação e têm uma
visão a longo prazo.
- Treinar
sempre, mesmo sabendo que a rotatividade vai continuar.
O desafio é grande. Não tem resposta fácil. Mas
reconhecer que o problema existe – e que não é culpa de ninguém – já é o
primeiro passo para se preparar.
E você, já percebeu isso no seu negócio?
Luiz Fernando Pereira dos Santos - profissional de comunicação digital com mais de 15 anos de experiência. Já atuou como trade marketing em indústrias, trabalhou em agências e hoje é sócio da The Ocean Blue, empresa especializada em marketing e produção de conteúdo. É formado em Administração, com 3 MBAs pela ESPM (Gestão de Mercado, Ciências do Consumo e Marketing Digital) e Master em Marketing – também pela ESPM. Especialista em estratégia, fotografia de alimentos e inteligência de mercado, auxilia padarias, restaurantes e indústrias a se comunicarem melhor e a construírem marcas sólidas.
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