Minicurso mostra como compreender os impactos neurobiológicos e emocionais da doença, pode transformar o cuidado oncológico
Falar sobre sexualidade ainda é um desafio nos consultórios e
hospitais, principalmente quando o assunto envolve pacientes em tratamento ou
recuperação do câncer. Embora os avanços da medicina tenham ampliado as chances
de cura e sobrevida, aspectos como desejo, autoestima, intimidade e identidade
continuam recebendo pouca atenção durante a assistência.
É justamente essa lacuna que motivou a enfermeira, mestre e
doutora em Saúde da Mulher e Oncologia, Íris Bazílio, a desenvolver o minicurso
"A Neurociência da Sexualidade: Qualidade de Vida Após o Câncer",
voltado a profissionais da saúde interessados em compreender como fatores
neurobiológicos, emocionais e relacionais interferem na recuperação e na
qualidade de vida dos pacientes.
Com 28 anos de atuação na enfermagem, ela pesquisa os impactos da sexualidade
feminina no contexto oncológico, atua no Instituto Nacional do Câncer (INCA) e
na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de ter criado um
ambulatório pioneiro voltado à sexualidade de mulheres com câncer de mama.
"Quando fazemos essa pergunta, não estamos falando apenas de
sexo. Estamos dizendo ao paciente: 'Eu vejo você inteiro. Não apenas o seu
câncer'. É exatamente nesse momento que a ciência encontra a humanidade",
afirma Íris Bazílio.
Muito além dos efeitos físicos
Ao longo do curso, os participantes percorrem desde os fundamentos
da neurociência da sexualidade até os impactos que quimioterapia, cirurgia e
hormonioterapia provocam não apenas no organismo, mas também na autoestima, na
imagem corporal, no desejo e na forma como o paciente se relaciona consigo
mesmo e com o outro.
Outro ponto de destaque é a discussão sobre como experiências
traumáticas anteriores podem influenciar a resposta sexual após o diagnóstico
do câncer. A proposta é ampliar o olhar dos profissionais para além dos
sintomas físicos, reconhecendo que cada paciente traz consigo uma história que
também precisa ser considerada durante o tratamento.
A capacitação ainda apresenta estratégias baseadas em evidências
científicas, como práticas integrativas, mindfulness e outras intervenções
capazes de auxiliar na redução da ansiedade, do estresse e de sintomas que
comprometem a intimidade e a qualidade de vida, sempre como complemento ao
tratamento convencional.
Um novo olhar para a prática clínica
A enfermeira oncológica do Instituto Nacional de Câncer (INCA),
Natália Moreira, participou do minicurso e destaca que a abordagem apresentada
trouxe uma perspectiva inédita, mesmo para quem já estuda sexualidade no
contexto do câncer. "Minha área de estudo é a sexualidade humana e o
câncer, mas nunca havia estudado pela perspectiva da neurociência. Achei
inovador", afirma.
Segundo ela, compreender a influência dos traumas na forma como
cada paciente vivencia a sexualidade foi um dos conteúdos mais marcantes.
"Esse entendimento me fez estar mais atenta e sensível em como as mulheres
com câncer vivenciam sua sexualidade e ao que pode estar oculto nessa
experiência", relata.
Natália também acredita que o aprendizado deve refletir diretamente
nos atendimentos no dia a dia. "Não adianta o profissional mencionar o
tema apenas para dizer que foi mencionado. É preciso estudo, aprofundamento,
reflexão e capacitação. A neurociência traz uma nova perspectiva de
cuidado", destaca.
Um tema que precisa sair do silêncio
Apesar dos avanços da oncologia, a sexualidade ainda permanece
cercada por tabus dentro dos serviços de saúde. Para Natália, esse cenário está
diretamente ligado à escassez de formação específica durante a graduação e à
pouca discussão sobre o assunto nos ambientes de assistência.
"Nosso atendimento ainda está muito voltado para a doença,
para os efeitos colaterais e para a cura. Precisamos ir além e olhar o paciente
de forma integral", observa a enfermeira.
É justamente esse o propósito das capacitações desenvolvidas pela Dra. Íris Bazílio: incentivar profissionais da saúde a incorporarem a sexualidade como parte essencial do cuidado oncológico, reconhecendo que qualidade de vida também significa preservar identidade, vínculos afetivos e bem-estar após o câncer.
Esse e outros cursos fazem parte das ações do Instituto Íris
Bazílio, que reúne atividades de ensino, pesquisa e capacitação voltadas a
profissionais da saúde. Mais informações estão disponíveis no site irisbazilio.com, no
Instagram @iris.bazilio e
no canal da especialista no YouTube.

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