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quarta-feira, 18 de março de 2026

Tratamento do câncer do colo do útero exige olhar sensível para sexualidade e fertilidade das mulheres

Especialistas da Sociedade Brasileira de Patologia e da Sociedade Brasileira de Radioterapia discutem prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce, tratamento e os impactos do câncer do colo do útero na vida das pacientes.

 

O diagnóstico de câncer do colo do útero costuma trazer uma série de preocupações para as mulheres - e muitas delas vão além do próprio tratamento da doença. Questões ligadas à sexualidade e à fertilidade fazem parte da realidade de pacientes diagnosticadas com esse tipo de tumor, que ainda representa um importante problema de saúde pública no Brasil. Especialistas destacam que abordar esses aspectos de forma sensível e transparente é fundamental ao longo de todo o processo de cuidado.

“O câncer do colo do útero é uma doença que pode impactar diretamente a saúde sexual e reprodutiva da mulher. Por isso, é essencial discutir com a paciente as possibilidades de tratamento e os possíveis efeitos na vida sexual e na fertilidade”, explica a médica radio-oncologista Dra. Juliana Helito, do Hospital Israelita Albert Einstein e membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT).

Durante o tratamento, especialmente quando envolve radioterapia, quimioterapia ou cirurgias mais extensas, podem ocorrer alterações físicas que afetam a função sexual ou a capacidade reprodutiva. Por isso, o acompanhamento e o diálogo aberto com a equipe médica e multiprofissional são essenciais para orientar as pacientes sobre as opções terapêuticas e as estratégias disponíveis para preservar a qualidade de vida.

A discussão ganha ainda mais relevância durante o Março Lilás, campanha de conscientização dedicada à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer do colo do útero. A iniciativa busca ampliar o acesso à informação e incentivar medidas de prevenção, como a vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) e a realização de exames de rastreamento e diagnóstico precoce.

 

Câncer do colo do útero - O tumor maligno se desenvolve na parte inferior do útero, chamada colo uterino. Na maioria dos casos, está associado à infecção persistente pelo HPV, vírus transmitido principalmente por via sexual.

“O principal fator causal desse câncer é a infecção pelo HPV de alto risco. Quando o vírus infecta as células do colo do útero, ele pode se integrar ao DNA do hospedeiro e provocar alterações que fazem com que essas células passem a se multiplicar de forma descontrolada. Ao longo de vários anos, esse processo pode evoluir para um câncer”, explica a médica patologista Dra. Karla Kabbach, do Hospital Israelita Albert Einstein e membro da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).

Esse processo costuma ser lento e pode levar de 10 a 15 anos entre a infecção inicial e o desenvolvimento do tumor, o que abre uma importante janela para prevenção e diagnóstico precoce. Ainda assim, muitos diagnósticos ocorrem em estágios mais avançados da doença. “Infelizmente, muitas mulheres chegam ao diagnóstico quando o tumor já está mais avançado, atingindo estruturas próximas ao colo do útero”, afirma a Dra. Juliana.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer do colo do útero é o terceiro tumor maligno mais frequente entre as mulheres no Brasil, com cerca de 17 mil novos casos por ano. A doença provoca mais de 7 mil óbitos anuais no país e ocupa aproximadamente a quarta posição em mortalidade feminina por câncer, atrás de tumores como os de mama, pulmão e colorretal.

Segundo a Dra. Karla, o número ainda elevado de casos e mortes por câncer do colo do útero no país também reflete desigualdades estruturais e regionais no acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce. “Existe uma desigualdade muito grande em termos de acesso à informação, à vacinação contra o HPV e aos exames de rastreamento”, explica a especialista, que também é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

 

Diagnóstico precoce e tratamento - Apesar de ser uma doença altamente prevenível por meio da vacinação contra o HPV e do rastreamento com exames ginecológicos, o câncer do colo do útero ainda apresenta impacto significativo na saúde das mulheres brasileiras. Em algumas regiões do país, especialmente na Região Norte e em áreas com menor acesso aos serviços de saúde, a doença chega a ser a principal causa de morte por câncer entre mulheres. Esse cenário evidencia desigualdades no acesso à informação, à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.

Historicamente, o exame mais conhecido para rastreamento é o Papanicolaou, que permite identificar alterações celulares no colo do útero que podem indicar lesões precursoras do câncer. Desde 2025, no entanto, o Brasil também vem avançando na implementação de uma nova política de rastreamento, que prevê a adoção de testes capazes de detectar diretamente o DNA de tipos de HPV de alto risco, responsáveis pela maioria dos casos da doença.
De acordo com a Dra Karla, essa estratégia pode tornar o rastreamento ainda mais eficaz, pois permite identificar a presença do vírus antes mesmo do surgimento de alterações celulares. Além disso, quando há necessidade de confirmação diagnóstica, o trabalho do patologista é fundamental.

“O tecido coletado durante o exame ginecológico é encaminhado ao laboratório, onde o patologista analisa as células ao microscópio para identificar alterações que podem indicar a presença do HPV ou lesões precursoras do tumor”, detalha a Dra Karla.

Quando o câncer é diagnosticado, o tratamento depende do estágio da doença - avaliação que também conta com o trabalho do patologista - e pode envolver cirurgia, radioterapia e quimioterapia. A radioterapia, conduzida pelo radio-oncologista, é uma das estratégias fundamentais, principalmente em casos localmente avançados. “A radioterapia tem um papel central no tratamento do câncer do colo do útero e pode ser curativa em muitos casos. Frequentemente, ela é combinada à quimioterapia para aumentar a eficácia do tratamento”, explica a Dra. Juliana. 

Esses e outros temas - como prevenção, vacinação contra o HPV, diagnóstico e tratamento - foram discutidos em um episódio especial do podcast “O Patologista em Podcast”, da Sociedade Brasileira de Patologia, que contou com a participação das especialistas Dra Karla Kabbach e Dra. Juliana Helito. O conteúdo está disponível no Spotify e busca levar informação acessível à população sobre a saúde da mulher e o câncer do colo do útero.

Acesse o podcast clicando aqui:
https://open.spotify.com/episode/49iGxYtPfmlTuJZCS5nxwi?si=o7tZ_UEGTSeWcev604UDaQ

 

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