No dia a dia do consultório, essa frase é muito comum: “Doutor, por favor, peça
para o papai parar de dirigir. Ele é um perigo!” Ou então: “Como faço para
esconder as chaves do carro dele?” Isso ocorre quando os familiares demonstram
preocupação com o comportamento de seus pais no que diz respeito à condução de
veículos.
Mas
afinal: os idosos realmente devem parar de dirigir? Existe uma idade limite?
Caso seja necessário interromper a direção, em que circunstâncias isso deve
ocorrer? Essas são perguntas frequentes e, a seguir, tentarei respondê-las da
forma mais objetiva e plausível possível.
O
aumento da expectativa de vida no Brasil tem ampliado significativamente o
número de condutores idosos. A manutenção da capacidade de dirigir está
diretamente associada à autonomia, à independência funcional e à qualidade de
vida. Entretanto, o envelhecimento pode acarretar alterações sensoriais,
motoras e cognitivas que podem impactar a segurança no trânsito, exigindo
avaliação criteriosa e individualizada.
Assim,
a decisão sobre até quando uma pessoa idosa deve dirigir não depende apenas da
idade cronológica, mas principalmente de suas condições físicas, cognitivas e
emocionais. A resposta curta e direta é: não existe uma idade máxima para
dirigir no Brasil.
Diferentemente
do que alguns boatos sugerem, a legislação brasileira não proíbe ninguém de
dirigir apenas por ter envelhecido. O que se modifica com o passar dos anos não
é o direito de dirigir, mas sim a frequência com que o motorista precisa
comprovar que continua apto para a condução de veículos.
De
acordo com as normas vigentes do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os prazos
de renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) seguem os seguintes
intervalos:
Prazos de
renovação conforme a idade:
|
Essas regras demonstram que não há idade máxima legal para dirigir, desde que o
condutor seja considerado apto nos exames médicos obrigatórios e, quando
necessário, em avaliação psicológica.
Embora
não exista uma regra rígida, é importante reconhecer que, com o avanço da
idade, alguns fatores podem interferir na capacidade de dirigir. Entre os
principais pontos de atenção destacam-se:
1. Função
cognitiva
A condução de um
veículo exige atenção sustentada e dividida, rapidez no processamento de
informações, memória operacional, julgamento e tomada de decisão — capacidades
que podem sofrer alterações com o envelhecimento.
2. Visão
Pode ocorrer redução da acuidade visual, maior sensibilidade ao ofuscamento
(principalmente à noite, devido aos faróis) e diminuição da visão periférica.
3. Audição
Dificuldade para perceber sinais sonoros importantes, como sirenes, buzinas ou
ruídos do próprio veículo.
4. Reflexos
O tempo de reação — entre perceber um risco e agir, como acionar o freio —
tende a aumentar.
5.
Processamento de informações
Pode haver maior dificuldade para lidar simultaneamente com múltiplos
estímulos, como placas de trânsito, GPS, pedestres e veículos ao redor.
6. Condições
motoras
Redução da mobilidade cervical, diminuição da força muscular, alterações na
coordenação motora ou presença de dor crônica.
7. Uso de
medicamentos
Alguns fármacos, como sedativos, benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos
e situações de polifarmácia, podem reduzir a atenção, os reflexos e o estado de
alerta. Alguns sinais de alerta podem indicar a necessidade de reavaliar ou
interromper a direção:
- Pequenos
acidentes ou colisões repetidas
- Dificuldade
para manter o veículo na faixa de rolamento
- Confusão
entre os pedais do acelerador e do freio
- Perder-se
em trajetos que antes eram familiares
- Preocupação
manifestada por familiares ou amigos
- Ansiedade
ou medo excessivo ao dirigir
Por outro lado, se
a pessoa idosa ainda se sente apta a dirigir, algumas medidas podem tornar a
condução mais segura:
- Evitar
horários de pico: o trânsito intenso aumenta o estresse e o
risco de acidentes.
- Preferir
dirigir durante o dia: a visibilidade noturna
costuma ser mais difícil para olhos envelhecidos.
- Evitar
condições climáticas adversas, como chuva intensa ou
neblina.
- Conhecer
os próprios limites: evitar rodovias muito
movimentadas ou trajetos desconhecidos.
- Realizar
check-ups regulares: manter avaliações médicas
periódicas, consultas oftalmológicas e auditivas atualizadas. Muitas
vezes, um novo par de óculos ou o uso adequado de aparelho auditivo pode
melhorar significativamente a segurança ao volante.
- Avaliações
cognitivas, quando indicadas pelo médico.
A
decisão de parar de dirigir é frequentemente delicada, pois pode representar
perda de autonomia, sentimento de inutilidade e até isolamento social. É
importante lembrar que envelhecer não significa tornar-se incapaz, mas exige
atenção e adaptações individuais.
Por
isso, a decisão sobre quando interromper a condução deve ser individualizada,
baseada em critérios técnicos, bom senso, na avaliação médica e no diálogo com
a família. Idealmente, essa transição deve ocorrer com planejamento, buscando
alternativas de mobilidade que preservem a autonomia e o bem-estar do idoso,
sem comprometer a segurança dele e das demais pessoas no trânsito.
Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica
Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie
do Paraná (FEMPAR)
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