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quarta-feira, 25 de março de 2026

Quando o motorista idoso deve parar de dirigir?



No dia a dia do consultório, essa frase é muito comum: “Doutor, por favor, peça para o papai parar de dirigir. Ele é um perigo!” Ou então: “Como faço para esconder as chaves do carro dele?” Isso ocorre quando os familiares demonstram preocupação com o comportamento de seus pais no que diz respeito à condução de veículos.
 

Mas afinal: os idosos realmente devem parar de dirigir? Existe uma idade limite? Caso seja necessário interromper a direção, em que circunstâncias isso deve ocorrer? Essas são perguntas frequentes e, a seguir, tentarei respondê-las da forma mais objetiva e plausível possível. 

O aumento da expectativa de vida no Brasil tem ampliado significativamente o número de condutores idosos. A manutenção da capacidade de dirigir está diretamente associada à autonomia, à independência funcional e à qualidade de vida. Entretanto, o envelhecimento pode acarretar alterações sensoriais, motoras e cognitivas que podem impactar a segurança no trânsito, exigindo avaliação criteriosa e individualizada. 

Assim, a decisão sobre até quando uma pessoa idosa deve dirigir não depende apenas da idade cronológica, mas principalmente de suas condições físicas, cognitivas e emocionais. A resposta curta e direta é: não existe uma idade máxima para dirigir no Brasil. 

Diferentemente do que alguns boatos sugerem, a legislação brasileira não proíbe ninguém de dirigir apenas por ter envelhecido. O que se modifica com o passar dos anos não é o direito de dirigir, mas sim a frequência com que o motorista precisa comprovar que continua apto para a condução de veículos. 

De acordo com as normas vigentes do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os prazos de renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) seguem os seguintes intervalos:
 

Prazos de renovação conforme a idade:
 

Idade do motorista

Validade da CNH

Até 49 anos

10 anos

De 50 a 69 anos

5 anos

70 anos ou mais

3 anos


Essas regras demonstram que não há idade máxima legal para dirigir, desde que o condutor seja considerado apto nos exames médicos obrigatórios e, quando necessário, em avaliação psicológica. 

Embora não exista uma regra rígida, é importante reconhecer que, com o avanço da idade, alguns fatores podem interferir na capacidade de dirigir. Entre os principais pontos de atenção destacam-se:
 

1. Função cognitiva 

A condução de um veículo exige atenção sustentada e dividida, rapidez no processamento de informações, memória operacional, julgamento e tomada de decisão — capacidades que podem sofrer alterações com o envelhecimento.
 

2. Visão
Pode ocorrer redução da acuidade visual, maior sensibilidade ao ofuscamento (principalmente à noite, devido aos faróis) e diminuição da visão periférica.
 

3. Audição

Dificuldade para perceber sinais sonoros importantes, como sirenes, buzinas ou ruídos do próprio veículo.
 

4. Reflexos

O tempo de reação — entre perceber um risco e agir, como acionar o freio — tende a aumentar.
 

5. Processamento de informações

Pode haver maior dificuldade para lidar simultaneamente com múltiplos estímulos, como placas de trânsito, GPS, pedestres e veículos ao redor.
 

6. Condições motoras

Redução da mobilidade cervical, diminuição da força muscular, alterações na coordenação motora ou presença de dor crônica.
 

7. Uso de medicamentos

Alguns fármacos, como sedativos, benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos e situações de polifarmácia, podem reduzir a atenção, os reflexos e o estado de alerta. Alguns sinais de alerta podem indicar a necessidade de reavaliar ou interromper a direção:

  • Pequenos acidentes ou colisões repetidas
  • Dificuldade para manter o veículo na faixa de rolamento
  • Confusão entre os pedais do acelerador e do freio
  • Perder-se em trajetos que antes eram familiares
  • Preocupação manifestada por familiares ou amigos
  • Ansiedade ou medo excessivo ao dirigir

Por outro lado, se a pessoa idosa ainda se sente apta a dirigir, algumas medidas podem tornar a condução mais segura:

  • Evitar horários de pico: o trânsito intenso aumenta o estresse e o risco de acidentes.
  • Preferir dirigir durante o dia: a visibilidade noturna costuma ser mais difícil para olhos envelhecidos.
  • Evitar condições climáticas adversas, como chuva intensa ou neblina.
  • Conhecer os próprios limites: evitar rodovias muito movimentadas ou trajetos desconhecidos.
  • Realizar check-ups regulares: manter avaliações médicas periódicas, consultas oftalmológicas e auditivas atualizadas. Muitas vezes, um novo par de óculos ou o uso adequado de aparelho auditivo pode melhorar significativamente a segurança ao volante.
  • Avaliações cognitivas, quando indicadas pelo médico.

A decisão de parar de dirigir é frequentemente delicada, pois pode representar perda de autonomia, sentimento de inutilidade e até isolamento social. É importante lembrar que envelhecer não significa tornar-se incapaz, mas exige atenção e adaptações individuais. 

Por isso, a decisão sobre quando interromper a condução deve ser individualizada, baseada em critérios técnicos, bom senso, na avaliação médica e no diálogo com a família. Idealmente, essa transição deve ocorrer com planejamento, buscando alternativas de mobilidade que preservem a autonomia e o bem-estar do idoso, sem comprometer a segurança dele e das demais pessoas no trânsito.

  

Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR)

 

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