Estratégias de
registro na Anvisa e tipo de produção influenciam a chegada de novos produtos e
podem ampliar o acesso, mas não necessariamente garantir preços mais baixos de
forma imediata
O fim da patente de medicamentos à base de semaglutida, como o Ozempic, deve ampliar a oferta no mercado. Mas há um ponto importante: isso não garante preços mais baixos. De acordo com o farmacêutico homeopata Jamar Tejada, a forma como as empresas optam por registrar seus produtos junto à Anvisa pode impactar diretamente tanto a classificação regulatória quanto o preço final ao consumidor.
Medicamento novo ou biossimilar: qual a diferença?
Tradicionalmente, medicamentos biológicos — como a semaglutida —
não possuem genéricos no sentido clássico. O que existe são os chamados
biossimilares, produtos altamente semelhantes ao original, mas não idênticos.
No entanto, algumas farmacêuticas têm seguido um caminho
diferente.
“Em vez de registrar o produto como biossimilar, algumas empresas
optam por solicitar o registro como medicamento novo, apresentando um dossiê
próprio para avaliação. Isso é possível, principalmente quando há diferenças no
processo de produção ou na estratégia de desenvolvimento”, explica Jamar
Tejada.
Esse tipo de abordagem pode ocorrer, por exemplo, quando o medicamento é produzido por síntese química em vez de tecnologia biológica.
Quem define o enquadramento é a Anvisa
Apesar das estratégias adotadas pelas empresas, a palavra final é
da agência reguladora. “A Anvisa avalia os dados apresentados e define qual é o
enquadramento mais adequado — se o produto será considerado um medicamento
novo, um biológico ou um biossimilar”, destaca o farmacêutico.
Essa decisão é fundamental, pois impacta diretamente as exigências de comprovação de eficácia, segurança e equivalência com o medicamento de referência.
Novo preço nem sempre será mais baixo
Um dos pontos que mais chama atenção é a ideia de que novos
produtos sejam automaticamente mais acessíveis — o que nem sempre acontece.
“Existe uma percepção de que qualquer alternativa ao medicamento
original será mais barata, mas isso não é uma regra”, alerta Jamar Tejada.
No caso dos biossimilares, é comum que cheguem ao mercado com
preços menores, mas isso não é uma exigência regulatória da Anvisa.
Trata-se, na prática, de uma consequência das políticas de mercado
e precificação e não há obrigatoriedade legal de redução de preço. Já no caso
de medicamentos registrados como novos, essa lógica pode ser ainda menos
previsível.
“Um medicamento aprovado como novo não precisa seguir a mesma
lógica de preço dos biossimilares. O valor vai depender de diversos fatores,
incluindo estratégia comercial e posicionamento no mercado”, explica.
O que muda para o consumidor
“O cenário tende a ficar mais competitivo, o que pode favorecer o
consumidor no médio prazo. Mas é importante entender que preço não é definido
apenas pela existência de alternativas”, reforça o especialista.
O avanço tecnológico, as diferentes formas de produção e as
estratégias regulatórias das farmacêuticas estão redesenhando o mercado de
medicamentos.
“Mais do que esperar preços menores, o importante é acompanhar
como esses produtos serão avaliados e disponibilizados. A regulação e o mercado
caminham juntos — e isso impacta diretamente o acesso à saúde”, conclui Jamar
Tejada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário