Durante muito tempo, mesmo sendo filha e neta de sobreviventes do Holocausto, o assunto parecia morar num cômodo mais silencioso da casa da memória. Não era segredo. Mas também não era conversa de mesa de jantar.
Eu estudei em escola judaica, sabia o
essencial, conhecia as datas, os números, os fatos. Mas história de família não
se aprende em livro. Ela se sente no jeito de falar, no olhar que desvia, no
silêncio que pesa mais do que qualquer palavra.
Meus familiares, como tantos
sobreviventes, quase não falavam sobre o que viveram. Não por esquecimento. O
silêncio era um tipo de abrigo. Uma forma de continuar respirando, de construir
amor onde antes só havia medo.
Só recentemente minha mãe começou a abrir pequenas
janelas para essas lembranças. Nada de discursos longos ou dramáticos.
Fragmentos. Um detalhe aqui, uma recordação ali. Sempre com cuidado, como quem
toca numa ferida antiga.
E então vieram os objetos. Cartas.
Documentos. Desenhos. Pequenos pedaços de uma infância interrompida pela
violência, pelo preconceito, pelo absurdo. Coisas simples, mas carregadas de um
peso impossível de medir. Foi nesse momento que a história deixou de ser
passado distante e virou presença. Memória viva.
A trajetória da minha mãe durante os
horrores nazistas, que transformei em livro, não é só um registro histórico. É
a prova de que a vida insiste. Que mesmo depois da escuridão mais profunda,
ainda existe caminho de volta para a luz.
Existem histórias que precisam de
tempo. Elas não aceitam pressa. Pedem silêncio, maturidade e escuta. O
Holocausto deixou milhões dessas histórias espalhadas pelo mundo. Para alguns,
virou capítulo de livro. Para outros, continua sendo uma dor que mora dentro do
corpo.
E, para o mundo inteiro, deveria ser
um alerta permanente. O assassinato de seis milhões de judeus não foi um
acidente da história. Não foi um surto coletivo, nem um erro de cálculo. Foi um
projeto frio, planejado, executado com método e eficiência. Uma máquina de
morte construída para eliminar pessoas por sua origem, sua fé, seu sobrenome.
Como disse o secretário geral da ONU,
António Guterres, junto com essas vidas, foram enterrados sonhos, famílias
inteiras, futuros que nunca aconteceram.
Mas o Holocausto não começou nas
câmaras de gás. Ele começou muito antes. Nas palavras de ódio. Nas mentiras
repetidas. Na desinformação. No silêncio de quem viu e preferiu não se
envolver. E é por isso que ele não pode ser tratado como algo distante. Porque,
quando a mentira volta a circular, quando a intolerância vira opinião
aceitável, quando o preconceito ganha espaço nas conversas e nas redes, os
sinais estão ali outra vez. Talvez com outras roupas. Mas com o mesmo perigo.
Falar sobre o Holocausto não é viver
preso ao passado. É garantir que o futuro não repita os mesmos erros. É honrar
quem sofreu, mas também quem reconstruiu. Quem chegou sem nada e, ainda assim,
escolheu acreditar.
Minha família é fruto dessa escolha.
Da esperança teimosa dos que sobreviveram. Da coragem silenciosa de quem
decidiu recomeçar em um país novo, com uma língua nova, com um mundo inteiro
pela frente.
Contar histórias é um gesto de
empatia. Quando partilhamos memórias, construímos juntos os valores que nos
orientam e tecemos os sentimentos que nos ligam como sociedade. Um elo moral
entre o que foi, o que é, e o que nunca mais pode ser.
Silvia
Wolosker Levi - filha e neta de sobreviventes do Holocausto e autora de “La
Petite Charlotte”, obra que será lançada em abril.
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