Durante muito tempo, a separação foi socialmente condenada. Muitos casais permaneceram juntos até o fim da vida, mesmo em relações infelizes, por medo do julgamento. Com as transformações culturais e jurídicas, o divórcio passou a ser mais aceito e, em muitos casos, compreendido como uma decisão legítima diante de relações que já não fazem sentido. Trata-se de um avanço importante: ninguém deveria permanecer preso a um relacionamento que produz sofrimento.
No entanto, em meio a essa mudança, emerge um
fenômeno curioso, e no mínimo inquietante. O que antes era vivido como dor,
luto e reflexão começa a ser convertido em espetáculo. Surge uma nova
“indústria do divórcio”, com festas de separação, ensaios fotográficos, bolos
temáticos, playlists e eventos cuidadosamente organizados para celebrar
o fim de um relacionamento, quase como um espelho do casamento, mas dedicado ao
rompimento.
Esse mercado já movimenta cifras expressivas no
mundo, estimado em US$ 952 bilhões em 2024. No Brasil, embora ainda sem dados
consolidados, o crescimento é visível: apenas em 2025, a empresária Meg Souza
realizou 102 festas de divórcio e projeta dobrar esse número.
À primeira vista, pode parecer apenas uma forma
leve e moderna de marcar o encerramento de um ciclo. Afinal, fechar etapas
também faz parte da vida. Entretanto, quando a lógica do mercado se apropria
até mesmo das rupturas afetivas, é preciso refletir. Há algo de paradoxal em
transformar o fim de um projeto de vida compartilhado em um produto a ser
consumido, embalado e exibido nas redes sociais.
Em uma sociedade regida pelo capital, momentos
importantes, alegres e marcantes para a vida e para a coletividade são
transformados em eventos que merecem ser festejados e brindados. Isso se repete
ano após ano: na virada, no Natal, na Páscoa. No âmbito pessoal, celebramos o
chá de revelação, o nascimento de um filho, a formatura, aniversários e,
sobretudo, o casamento.
Esses rituais existem para celebrar a felicidade. O
casamento, em especial, simboliza o amor e a decisão de duas pessoas que
escolhem caminhar juntas, construir uma história e, muitas vezes, formar uma
família. Em geral, casa-se para ser feliz, sob a promessa do “até que a morte
os separe”. Independentemente do poder aquisitivo, as celebrações para festar a
união podem variar em tamanho e custo, mas o essencial permanece: a alegria de
estar juntos e a esperança de um futuro compartilhado.
Enquanto alguns choram, outros vendem lenços, diz o
velho ditado. No caso do divórcio festivo, talvez possamos acrescentar:
enquanto alguns elaboram suas dores, outros vendem a estética da superação.
Afinal, não podemos esquecer que, na maioria das vezes, aquelas duas pessoas um
dia se uniram por amor, por sonhos e por expectativas de felicidade.
Talvez valha lembrar algo simples: as pessoas não
se unem para se separar. Elas se unem para serem felizes. Quando um casamento
termina, o que existe, antes de tudo, é o encerramento de um projeto que um dia
foi sonhado a dois. Transformar isso automaticamente em festa pode dizer mais
sobre a lógica do consumo do que sobre a realidade das relações humanas.
No fim das contas, o capitalismo mostra novamente
sua capacidade de transformar qualquer experiência, inclusive as mais íntimas,
em oportunidade de mercado. Até mesmo o amor, e agora o fim dele, passa a ser
embalado, fotografado e vendido.
E assim seguimos: numa sociedade em que até os
sentimentos parecem precisar de um roteiro, de um evento e, claro, de um pacote
de serviços. Talvez o verdadeiro desafio seja lembrar que nem tudo precisa
virar espetáculo, especialmente aquilo que diz respeito às nossas dores e aos
nossos afetos mais profundos.
O amor merece respeito, inclusive quando termina.
Aline Mara Gumz Eberspacher - Doutora em Sociologia pela Université Paul Valéry (Montpellier III – França) e Coordenadora dos cursos de Pós-graduação do Centro Universitário Internacional Uninter.
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