
Reconstituição artística do novo dinossauro maranhense:
20 metros de comprimento e parente europeu
(paleoarte: Jorge Blanco)
Dasosaurus tocantinensis tinha cerca de 20 metros de comprimento e viveu aproximadamente há 120 milhões de anos; espécie mais próxima viveu na atual Espanha
Estudo recém-publicado no Journal
of Systematic Palaeontology descreve uma nova espécie de dinossauro
descoberta no Maranhão durante as obras de um terminal rodoferroviário na
cidade de Davinópolis. Nomeado Dasosaurus tocantinensis, o animal
tinha aproximadamente 20 metros e viveu cerca de 120 milhões de anos atrás.
Do ponto de vista evolutivo, a
espécie conhecida mais próxima viveu na atual Espanha. O achado, além de apontar
a presença de um novo grupo de dinossauros para a região brasileira, mostra a
antiga ligação do então arquipélago europeu com a atual América do Sul.
Os pesquisadores afirmam que os
ancestrais da espécie maranhense provavelmente se dispersaram para o atual
continente sul-americano passando pelo atual norte da África, entre 140 milhões
e 120 milhões de anos atrás, quando os territórios ainda estavam ligados num
supercontinente, o Gondwana.
“É o maior dinossauro conhecido
para o Maranhão, que tem outras espécies, mas não saurópodes como esse, e sim
outras menores, como o diplodoco Amazonsaurus maranhensis, que
tinha cerca de 10 metros de comprimento”, afirma Elver Luiz Mayer,
professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), na Bahia.
Especialista em mamíferos do
período Quaternário, bem mais recentes, o pesquisador foi contatado em 2021
quando era professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará
(Unifesspa), em São Félix do Xingu.
Uma equipe de arqueólogos fazia
o monitoramento da obra em Davinópolis, como parte das condicionantes para o
licenciamento ambiental do empreendimento, quando encontrou os fósseis,
pensando se tratar de mamíferos da megafauna, que poderiam ter convivido com
humanos antigos.
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| Elver Mayer e membro da equipe escavam em torno dos fósseis (imagem: Amai Fotografia) |
“Pela profundidade, cerca de
oito metros, percebi que aquilo era muito mais antigo. A idade da formação
geológica já era conhecida por causa de pesquisas anteriores e nos indicou que
se tratava de um material da transição do Cretáceo Inferior para o Superior,
cerca de 120 milhões de anos atrás”, conta Mayer, que então contatou diferentes
especialistas e formou um grupo multidisciplinar para estudar o espécime.
Após uma extensa etapa de
preparação dos fósseis, as análises foram realizadas no Pará. Depois delas o
exemplar voltou para o Maranhão e atualmente está depositado no Centro de
Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Estado, em São Luís, que também
participou do estudo.
“Por incluir algumas vértebras
da cauda, um fêmur de 1,5 metro, costelas, partes do pé, ossos do braço, da
bacia e da perna, este é considerado um exemplar relativamente completo.
Acreditamos que haja mais fósseis desse mesmo exemplar ainda por serem
escavados no local”, diz Max Langer, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão
Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), que participou do estudo.
Langer coordena o projeto “Explorando a diversidade dos
dinossauros do Cretáceo sul-americano e suas faunas associadas”, apoiado pela FAPESP.
Dinossauro
da floresta
O nome da nova espécie faz
referência ao Estado do Maranhão. “Daso” significa algo como “floresta”, que
remete às matas da região, que, segundo os primeiros colonizadores portugueses,
formavam um grande emaranhado, ou maranhão. “Tocantinensis”, por sua vez, diz
respeito ao rio Tocantins, uma vez que o local fica próximo à sua margem
oriental.
Análises realizadas na
microestrutura dos ossos, capitaneadas pelos pesquisadores Tito Aureliano e
Aline Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
revelaram um padrão de crescimento que combina características de saurópodes
mais antigos com a de titanossauros, um grupo próximo ao da espécie descoberta
agora.
O achado sugere que certos
padrões de crescimento e de remodelação óssea evoluíram antes do que se
imaginava, o que contribui para entender como alguns dinossauros atingiram
tamanhos tão extremos (leia mais em: agencia.fapesp.br/41176).
As condições que permitiram a
descoberta do Dasosaurus dizem muito sobre o paradoxo da
pesquisa paleontológica. Ao mesmo tempo em que grandes obras poderiam destruir
registros fósseis, os empreendimentos acessam o solo de uma forma que os
paleontólogos não poderiam fazer sozinhos apenas com picaretas e cinzéis.
“O Brasil é um país tropical,
com muita cobertura vegetal. Geólogos e paleontólogos dependem muito da
atividade humana para escavar, expor as rochas e revelar os fósseis. Se
mapearmos as localidades fossilíferas brasileiras, veremos rodovias, pedreiras.
Esses empreendimentos são importantes para conhecer nosso patrimônio. Mas é
óbvio que é preciso acompanhamento especializado e resgate das peças, o que nem
sempre acontece”, afirma Langer.
“Por isso, é urgente uma maior
aproximação entre as partes, para conciliar as obras com a legislação federal
sobre os fósseis e promover novas descobertas com a devida preservação do
patrimônio”, comenta Mayer.
Atualmente, o grupo de
pesquisadores negocia com a empresa que realiza a obra para seguir na escavação
em busca de mais fósseis, que podem fornecer novas informações sobre a espécie
e o grupo como um todo.
Mayer prepara fóssil do fêmur, de cerca de 1,5 metro
(foto: Elver Mayer/Univasf)
O trabalho teve apoio da FAPESP ainda por meio de bolsas de doutorado, pós-doutorado e de um auxílio na modalidade Jovem Pesquisador.
O artigo A new
titanosauriform with European affinities in the Early Cretaceous of Brazil:
insights on Somphospondyli phylogeny, histology and biogeography pode
ser lido em: tandfonline.com/doi/full/10.1080/14772019.2025.2601579.
André Julião
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/novo-dinossauro-pescocudo-encontrado-no-maranhao-era-parente-proximo-de-especie-europeia/57516

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