Dificuldade para enxergar à distância, necessidade
frequente de apertar os olhos para ler ou assistir a aulas e dores de cabeça
recorrentes. Sintomas que, até pouco tempo, eram mais associados à
adolescência, agora aparecem cada vez mais cedo e persistem na vida adulta. A
miopia avança no Brasil, acompanhando uma tendência global que especialistas já
classificam como uma epidemia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050, mais de
50% da população mundial deverá sofrer com a miopia. No Brasil, embora não haja
um levantamento nacional único e recente, é observado um crescimento
consistente no número de diagnósticos em crianças, adolescentes e jovens
adultos, especialmente após a pandemia de Covid-19, período marcado por ensino
remoto e aumento expressivo do tempo de exposição a telas.
A condição é um erro refrativo que dificulta a visão de objetos
distantes. O problema ocorre quando o globo ocular é mais alongado ou quando há
alteração na curvatura da córnea, fazendo com que a imagem se forme antes da
retina. O resultado é enxergar de forma embaçada para longe, um quadro que pode
evoluir ao longo dos anos se não houver acompanhamento.
“O que estamos observando é uma mudança no padrão epidemiológico e
está surgindo mais cedo e progredindo mais rapidamente”, explica Gabriel
Gorgone, médico oftalmologista com especialização em córnea e coordenador da
Eye Clinic. “O aumento expressivo de atividades de perto, como o uso prolongado
de celular, tablet e computador, combinado à redução do tempo ao ar livre,
desponta hoje como um dos principais fatores ambientais que impulsionam esse
avanço.”
Estudos científicos recentes reforçam essa relação. Pesquisas
publicadas em revistas internacionais indicam que crianças que passam mais
tempo em ambientes externos apresentam menor risco de desenvolver miopia ou têm
progressão mais lenta do grau. A luz natural e o foco em objetos distantes
parecem exercer papel protetor no desenvolvimento ocular.
Além do impacto na qualidade de vida, esse problema de visão pode
trazer riscos quando atinge graus elevados e está associada a maior
probabilidade de complicações como descolamento de retina, glaucoma e
degeneração macular miópica. “Por isso, não se trata apenas de usar óculos. É
necessário acompanhar de perto, especialmente quando há progressão rápida”,
afirma o especialista.
Principais sintomas:
Os principais sinais de alerta são dificuldade para enxergar
lousas, placas ou legendas à distância, necessidade de aproximar muito o
celular ou o livro do rosto, dores de cabeça frequentes, queda no rendimento
escolar ou profissional por esforço visual.
O diagnóstico é feito por meio de exame oftalmológico completo,
incluindo avaliação da acuidade visual e refração. O tratamento envolve,
inicialmente, correção óptica com óculos ou lentes de contato. Em casos
selecionados, especialmente em crianças e adolescentes, há estratégias para
controle da progressão, como colírios específicos, lentes especiais e mudanças
no estilo de vida, sempre sob orientação médica.
Para adultos com grau estável, a cirurgia refrativa pode ser
considerada, desde que haja indicação clínica adequada. “A decisão pelo
procedimento cirúrgico exige avaliação criteriosa. O mais importante é que o
paciente entenda que é uma condição crônica que demanda acompanhamento
periódico”, explica o oftalmologista.
Diante do cenário atual, especialistas defendem medidas
preventivas simples, mas eficazes: incentivar atividades ao ar livre por pelo
menos duas horas ao dia na infância, estabelecer pausas regulares no uso de
telas e realizar consultas oftalmológicas anuais.
“Estamos diante de uma epidemia silenciosa porque a miopia não causa dor e, muitas vezes, é subestimada, mas investir em prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento regular é fundamental para proteger a saúde ocular das próximas gerações”, conclui.

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