Especialista
alerta para sintomas que muitas vezes são normalizados pelas mulheres e podem
atrasar o diagnóstico da doença
Apesar de atingir milhões de mulheres no mundo, a endometriose ainda é cercada por silêncio, desinformação e diagnósticos tardios. Estima-se que 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva conviva com a doença, enquanto 57% das pacientes relatam dores crônicas e mais de 30% podem enfrentar dificuldades para engravidar.
Mesmo com números expressivos, o reconhecimento da doença ainda costuma demorar. Em muitos casos, o diagnóstico pode levar entre sete e dez anos desde o início dos sintomas, período em que muitas mulheres passam por diferentes especialistas até descobrir a origem das dores.
Foi exatamente esse o caminho percorrido pela Marcella Benita Maksoud, artista visual, arquiteta, fotógrafa e idealizadora da Casa-Corpo. Durante anos, ela conviveu com dores intensas e sintomas recorrentes sem compreender o que estava acontecendo. “Levei 13 anos para receber um diagnóstico, passando por vários médicos. Durante muito tempo diziam que aquilo era normal, que era apenas cólica. Quando finalmente entendi que se tratava de endometriose, percebi que aquela dor não era exagero, era uma doença real”, conta.
Segundo o ginecologista Dr. Rodrigo Fernandes, especialista no tratamento da doença e embaixador da Sociedade Mundial de Endometriose, o atraso no diagnóstico ainda é um dos principais desafios no enfrentamento da condição. “A endometriose pode surgir ainda na adolescência, mas muitas vezes só é identificada anos depois. Existe uma cultura de normalizar a dor menstrual, e isso faz com que muitas mulheres demorem a buscar ajuda ou tenham seus sintomas minimizados. Quanto antes investigamos, maiores são as chances de controlar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida da paciente”, explica.
Durante o Março Amarelo, mês dedicado à
conscientização sobre a endometriose, o especialista reforça a importância de
reconhecer sinais que vão além da cólica comum e que podem indicar a presença
da doença.
1. Cólica menstrual intensa e incapacitante
A dor durante o período menstrual é o sintoma mais comum da endometriose, mas existe uma diferença importante entre a cólica habitual e aquela que pode indicar a doença.
“Quando a cólica impede a mulher de
trabalhar, estudar ou realizar atividades do dia a dia, isso já é um sinal de
alerta. Muitas pacientes relatam que precisam faltar ao trabalho ou usar
medicações fortes todos os meses. Esse nível de dor não deve ser considerado
normal. A chamada dismenorréia intensa costuma ser um dos primeiros sinais da
doença e merece investigação, principalmente quando piora ao longo do tempo”,
afirma o Dr. Rodrigo Fernandes.
2. Dor durante a relação sexual
Outro sintoma frequente é a dor durante
a relação sexual, especialmente em posições que provocam contato mais profundo.
“A dispareunia pode ocorrer quando as lesões de endometriose estão localizadas
em regiões profundas da pelve. Muitas mulheres convivem com esse sintoma por
anos sem saber que ele pode ter origem ginecológica”, explica o médico.
3. Dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação
A doença também pode afetar órgãos
próximos ao sistema reprodutivo, como intestino e bexiga. “Quando a paciente
sente dor ao evacuar ou urinar, especialmente durante o período menstrual, isso
pode indicar a presença de implantes de endometriose próximos ao intestino ou
às vias urinárias. Esses sintomas podem passar despercebidos, mas costumam ser
bastante característicos da doença”, diz.
4. Dor pélvica persistente
Além do período menstrual, algumas
mulheres desenvolvem dor crônica na região pélvica. “Com o tempo, a inflamação
provocada pela endometriose pode gerar uma dor constante, que aparece em
diferentes momentos do ciclo. Muitas vezes essa dor é confundida com problemas
musculares ou intestinais”, explica o especialista. Ele alerta ainda que anos convivendo
com dor mal tratada podem levar ao que chamamos de “memória da dor”. Nesses
casos, mesmo após a retirada cirúrgica dos focos da doença, o cérebro pode
manter o registro da dor, fazendo com que a paciente continue sentindo
desconforto.
5. Dificuldade para engravidar
A infertilidade também pode estar relacionada à doença. “A endometriose provoca inflamação e alterações anatômicas na pelve que podem dificultar a gravidez. Isso não significa que todas as pacientes terão infertilidade, mas a investigação se torna fundamental quando existe dificuldade para engravidar”, afirma.
Quando existe suspeita clínica, o diagnóstico envolve avaliação médica detalhada e exames de imagem específicos, como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal voltada à investigação de endometriose profunda e ressonância magnética de abdômen e pelve, que também exige preparo intestinal, que ajudam a mapear as lesões e compreender a extensão da doença.
Segundo o médico, o tratamento pode
envolver diferentes abordagens, dependendo do quadro clínico e dos planos
reprodutivos da paciente. “A decisão terapêutica leva em conta a intensidade da
dor, a localização das lesões e o desejo de engravidar. Em muitos casos, o
controle hormonal do ciclo, mudanças no estilo de vida e acompanhamento
multidisciplinar já trazem melhora significativa na qualidade de vida”,
explica.
Quando a experiência vira arte
Para Marcella Maksoud, o diagnóstico tardio acabou se transformando também em impulso criativo. “Depois de passar por vários médicos e ouvir repetidamente que a dor era normal, comecei a me perguntar quantas mulheres também tinham suas experiências minimizadas. Transformar essa vivência em arte foi uma forma de dar visibilidade a uma dor que muitas vezes permanece invisível”, conta.
A artista participa do projeto “Saúde da Mulher em Foco”, realizado na Casa Pinheiral, em Bragança Paulista (SP). A programação acontece até 29 de março e reúne exposições, encontros e conversas com especialistas sobre saúde feminina.
Segundo Carolina Escobar, representante da Casa Pinheiral, iniciativas como essa reforçam a importância de unir cultura e informação para ampliar o debate público sobre temas muitas vezes invisibilizados. “Não se faz impacto social sozinho. A parceria com a Casa Corpo reforça nosso propósito de unir arte, educação e impacto social, dando visibilidade, por meio da arte, a um tema ainda pouco discutido como a endometriose”, afirma.
Para ela, espaços culturais podem
desempenhar um papel importante na ampliação dessas discussões. “Quando levamos
o debate para além do consultório médico, criamos ambientes seguros para falar
sobre temas sensíveis. A arte permite acessar dimensões emocionais da
experiência feminina e ajuda a gerar empatia, reconhecimento e
conscientização”, diz.
Segundo o ginecologista Dr. Rodrigo Fernandes, especialista no tratamento da doença e embaixador da Sociedade Mundial de Endometriose:
A endometriose surge na adolescência, ou até antes, mas costuma ser descoberta mais tarde, principalmente por causa do conhecido jargão: “menstruar é normal”. Essa frase corriqueira, somada ao desconhecimento da doença por pacientes e até por muitos médicos, é um dos motivos pelos quais o diagnóstico costuma levar, em média, quase oito anos desde o início dos sintomas. Algumas mulheres chegam a procurar mais de oito profissionais até obter a confirmação da doença.
Mas então surge a dúvida: se eu tomar pílula desde a primeira menstruação, não terei endometriose? Não é tão simples assim. Tenho algumas pacientes, inclusive colegas médicas, que bloquearam a menstruação desde a adolescência e, ainda assim, apresentavam endometriose. Infelizmente, não é possível prevenir completamente o surgimento da doença, mas existem maneiras de evitar que ela avance.
A dor pélvica é o sintoma mais comum da endometriose. Mas como saber se o que você sente é apenas uma cólica menstrual normal ou um sinal da doença? Vou explicar.
Existem seis sintomas principais que chamamos de “seis Ds”, que, quando se intensificam durante a menstruação, levantam a suspeita de endometriose.
São eles:
·
Dismenorreia: dor intensa durante a menstruação;
·
Dispareunia: dor durante a relação sexual, principalmente
profunda;
·
Disúria: dor ao urinar;
·
Disquesia: dor ao evacuar;
·
Dor crônica pélvica;
·
Dificuldade para engravidar.
É muito importante
que você descreva em detalhes cada um dos seus sintomas durante a consulta
médica. A partir desse relato e da avaliação clínica, o médico poderá seguir
para a próxima etapa do diagnóstico: os exames de imagem. Mas esse será o tema
do nosso próximo vídeo.
Apesar de o relato
dos sintomas e o exame físico serem cruciais na investigação, dois exames se
destacam no diagnóstico da endometriose: o ultrassom e a ressonância magnética.
Em alguns casos,
até seria possível optar por apenas um deles. No entanto, já sabemos que,
quando realizados em conjunto, os dois exames se complementam e fornecem muito
mais informações.
O ultrassom com
preparo intestinal para pesquisa de endometriose profunda – que é o nome técnico
correto – é um exame que dura, em média, cerca de uma hora. Durante o
procedimento, são avaliadas diversas regiões, como pelve, intestino, vias
urinárias, ceco, apêndice e até o diafragma. Dependendo do grau de dor da
paciente, o exame pode causar algum desconforto.
Já a ressonância
magnética de abdômen e pelve, também com preparo intestinal, é outro método
mais demorado, que busca avaliar todas essas áreas com grande detalhamento. A
vantagem da ressonância é que ela gera imagens que podem ser analisadas
diretamente pelo médico responsável pela paciente.
Vale ressaltar que
ambos os exames, quando realizados por profissionais experientes, permitem uma
interpretação muito mais rica e detalhada, o que impacta diretamente na
condução do caso. Eles ajudam a estimar a complexidade da doença, orientar a
paciente sobre o tratamento recomendado, prever resultados esperados e
possíveis riscos de complicações, além de auxiliar no planejamento da equipe
multidisciplinar, no tempo estimado de cirurgia, nos materiais necessários e no
período de recuperação.
Lembre-se: um bom
exame, realizado por profissionais experientes, faz toda a diferença na
investigação da endometriose. Leve isso em consideração ao escolher onde
realizá-lo.
Agora, vamos falar
sobre o tratamento.
Você descobriu que
tem endometriose e o médico disse que a única saída é a cirurgia. Pode até ser
uma possibilidade, mas é importante saber que existem muitas coisas que você
pode fazer para reduzir os sintomas e lidar melhor com a doença.
A endometriose
exige um tratamento multifatorial. A decisão de operar ou não depende de vários
fatores, como a localização dos implantes, a intensidade da dor e os objetivos
da mulher ou do casal.
Primeiro ponto:
sabemos que os implantes de endometriose se alimentam de estrogênio, hormônio
produzido pelos ovários. Por isso, uma das recomendações atuais é o bloqueio
contínuo do ciclo menstrual, que pode ser feito por meio de pílulas, implantes
hormonais, anéis vaginais, entre outros métodos.
O segundo ponto é
reorganizar o estilo de vida. Reservar um tempo para cuidar do próprio corpo e
da saúde mental é fundamental.
Um dos aspectos
mais importantes é o sono. Quando atingimos um sono profundo e reparador, o
corpo descansa melhor e fica menos sensível à dor. Por isso, procure desligar
as telas e deixar o celular de lado pelo menos uma hora antes de dormir. Um
corpo descansado é um corpo com menos dor.
Outro fator
essencial são os exercícios físicos. Além de liberar endorfina e promover
bem-estar, eles ajudam a reduzir o peso e a inflamação do organismo. O ideal é
começar com exercícios de menor impacto, como hidroginástica, natação, yoga ou
tai chi.
Um lembrete
importante: se você tem endometriose e está iniciando uma atividade física, não
comece com carga total. Comece devagar. Isso evita que a dor apareça com
intensidade e faça você desistir. Dê tempo para o seu corpo se adaptar ao
exercício. Ele pode se tornar um grande aliado no seu tratamento.
A alimentação
também merece atenção especial. A busca por uma dieta anti-inflamatória é
importante, mas evite mudanças radicais logo no início. O ideal é procurar um
nutricionista que possa adaptar a alimentação gradualmente à sua rotina.
Evite o excesso de
pães, massas, carboidratos refinados e alimentos industrializados. Dê
preferência a alimentos frescos e naturais. Em alguns casos, também é
importante ter atenção ao consumo de glúten e derivados do leite, podendo optar
por alternativas como leites vegetais de coco, amêndoas ou arroz.
Lembre-se de uma
regra simples: descasque mais e abra menos.
Priorize uma
alimentação rica em grãos, vegetais e peixes, reduzindo o consumo de carne
bovina, que pode estar associada ao aumento da inflamação e do estrogênio
circulante.
Práticas como
meditação e mindfulness também podem ajudar. Elas auxiliam no controle da
ansiedade, melhoram a percepção do próprio corpo e contribuem para o equilíbrio
geral do organismo.
Por fim, chegamos
ao terceiro ponto: medicações e cirurgia.
A decisão sobre o
bloqueio hormonal ideal ou sobre a necessidade de cirurgia deve ser tomada
sempre com acompanhamento médico, de preferência com um profissional experiente
no tratamento da endometriose.
Enquanto o
tratamento hormonal busca bloquear o ciclo ovariano, o tratamento cirúrgico tem
como objetivo remover completamente os implantes da doença presentes na pelve e
no abdômen.
Tanto o tratamento
hormonal quanto a cirurgia exigem planejamento cuidadoso. No entanto, todas
essas mudanças no estilo de vida podem começar agora. Com o tempo, você perceberá
os efeitos positivos no seu corpo e na sua qualidade de vida.
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