Crise venezuelana, reposicionamento militar dos
Estados Unidos e tensões no Oriente Médio revelam um cenário de disputas
estratégicas e instabilidade crescente 
APAimages/Wikipédia
Os conflitos
internacionais voltaram a ocupar as manchetes com uma intensidade raramente
observada desde o fim da Guerra Fria. A recente operação militar conduzida
pelos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro e em sua
condução para julgamento em território norte-americano marcou uma inflexão nas
relações hemisféricas e reacendeu debates sobre soberania, intervenção e a
disputa por recursos e zonas de influência. A movimentação também se conectou a
um reposicionamento mais amplo de Washington na região, com reforço operacional
no Caribe e aumento do custo político e logístico dessas ações.
E, agora, neste
fim de semana, a escalada ganhou um capítulo ainda mais explosivo: Estados
Unidos e Israel conduziram ataques contra alvos no Irã, ampliando o risco de um
conflito regional de grandes proporções. As ações desencadearam resposta
iraniana com mísseis contra Israel e bases militares americanas no Golfo,
elevando a tensão no entorno de rotas estratégicas de energia e reabrindo o
debate sobre limites entre dissuasão, guerra preventiva e mudança de regime. O
resultado imediato é uma aceleração do ambiente de instabilidade sistêmica, com
efeitos que transbordam o Oriente Médio e pressionam alianças, mercados e
instituições multilaterais.
A crise
venezuelana, que já envolvia tensões políticas e humanitárias profundas, passou
a integrar um cenário geopolítico ainda mais amplo, no qual se destacam também
o aumento da presença militar norte-americana no Caribe e os deslocamentos
estratégicos de Washington em torno do Irã e do Golfo Pérsico. Em 2026, a
dinâmica que se desenha é a de uma política externa mais orientada por operações
de força, securitização e controle de “riscos” percebidos — com implicações
diretas para o debate sobre legalidade internacional, precedentes de
intervenção e novas formas de escalada.
Em meio a esse
cenário de transformações aceleradas, cresce a necessidade de compreender não
apenas as crises imediatas, mas também os mecanismos históricos e políticos que
tornam possíveis episódios de guerra, intervenção e instabilidade prolongada.
A Editora Unesp
oferece uma seleção de obras fundamentais para quem deseja analisar a guerra em
suas múltiplas dimensões, reunindo títulos que permitem refletir tanto sobre
conflitos contemporâneos quanto sobre padrões recorrentes de disputa por poder,
território e legitimidade internacional.
Confira abaixo:
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Israel-Palestina: A construção da paz vista de uma perspectiva global
Gilberto Dupas, Tullo Vigevani (orgs.)
Dois povos se envolvem num conflito persistente que parece resistir incólume a cada tentativa de pacificação. Israelenses e palestinos propõem a negociadores e analistas um enorme quebra-cabeça político, cada vez mais associado ao fanatismo religioso e nacionalista. Existiria uma forma de acabar com o que parece ser um infindável derramamento de sangue? O que explica o fracasso de uma solução estável para a guerra na região? Este livro procura expor a complexidade dessas perguntas e fornecer elementos que permitam entender e entrever as condições necessárias para uma resposta.
Esta obra
indispensável de Edward Saíd, ícone da resistência política e cultural da
Palestina, é editada pela primeira vez no Brasil. Escrita entre 1977 e 1978 e
publicada originalmente em 1979, foi atualizada pelo autor no prefácio à edição
de 1992. Nesse texto, Said lembra que entre 1978 e 1992, quando considerava a
questão palestina “a última grande causa do século 20”, um mundo novo havia
surgido, moldado por inúmeros fatos. No Oriente Médio, a invasão do Líbano por
Israel, em 1982, o início da longa intifada, em 1987, a crise e a Guerra do
Golfo, de 1990 a 1991, e a conferência de paz de 1991, além da revolução
iraniana. No Leste Europeu, a dissolução da União Soviética, na África, a
libertação de Nelson Mandela e a independência da Namíbia e, na Ásia, o fim da
guerra do Afeganistão. “No entanto, causando estranheza e infortúnio, a questão
palestina persiste – sem solução, aparentemente irreconciliável, indomável”,
escreveu Said, mudando o tom ligeiramente otimista que imprimiu ao livro.
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A pena e a espada: Diálogos com
Edward W. Said
David Barsamian , Edward W. Said
As cinco entrevistas compiladas neste volume não se limitam a discutir a prolífera produção do crítico Edward Said. Realizadas pelo jornalista David Barsamian entre 1987 e 1994, elas apresentam o homem detrás da obra, desvelando suas angústias e opiniões sobre um momento histórico impar para as relações entre Israel e a Palestina.
Petróleo e poder: O envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico
Igor Fuser
Neste livro, Igor
Fuser analisa em profundidade o papel do petróleo na definição da política
norte-americana para o Golfo Pérsico entre 1945 e 2003, com ênfase na relação
entre o aumento da dependência dos Estados Unidos em relação aos combustíveis
importados e seu crescente intervencionismo na região. O autor demonstra que,
para entender os motivos da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, é preciso
ir muito além de temas como terrorismo, armas de destruição em massa e o
suposto interesse norte-americano na promoção da democracia. A postura
unilateral e belicosa adotada pelo presidente George W. Bush após os atentados
de 11 de setembro, sem dúvida, ajuda a explicar a polêmica iniciativa militar.
Ainda assim, a história da política dos Estados Unidos no Oriente Médio nos
últimos sessenta anos revela uma notável continuidade entre a agressão militar
ao Iraque e a conduta dos governos anteriores – republicanos ou democratas.
Entre os objetivos permanentes que a maior potência do planeta persegue naquela
região, destaca-se, em primeiro plano, o controle de suas imensas reservas de
petróleo.
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Em uma região conturbasda desde tempos imemoriais, o Irã da segunda metade do século XX honra a tradição e abriga situação explosiva: uma monarquia, autointitulada herdeira dos vetustos imperadores persas, debate-se, espremida entre a autocracia, a corrupção e os anseios modernizadores. Completando o quadro dramático, a presença crescente do fundamentalismo islâmico e a não disfarçada intervenção das potências ocidentais – sempre obcecadas pelas enormes reservas petrolíferas do país – acarretam a tensão geopolítica prenunciadora de típicos cenários contemporâneos. A "revolução dos aiatolás" é, assim, exemplar. Mais do que conflito localizado, é fruto das variáveis definidoras de nossa época e expõe os perigos e os desafios que enfrentamos.
Paz e guerra: Defesa e segurança entre as nações
Eduardo Mei e Héctor Luis Saint-Pierre
Os oito ensaios reunidos nesta coletânea apresentam um panorama multifacetado
da pesquisa em defesa e segurança internacional no Brasil. Abordando questões
diversas, que vão das referências teóricas e históricas da área a estudos sobre
a participação feminina nas forças armadas, Paz e guerra: defesa e segurança
entre as nações reúne um rico subsídio para pesquisadores e interessados em
questões de conflitos internacionais.
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O problema da guerra e as vias da paz
Norberto Bobbio
Os escritos de Norberto Bobbio vão da filosofia do direito à ética e da filosofia política à história das idéias, incluindo temas contemporâneos com lucidez, elegância e admirável coerência filosófica. Neste livro, o filósofo italiano debate o que significa a guerra e como ela pode ser combatida de maneira programática pelos indivíduos. Focaliza ainda quais são os melhores caminhos para os movimentos pacifistas em relação a uma atividade política que propicie o diálogo entre as mais diferentes tendências e que tenha como grande objetivo a eliminação das guerras internas e entre as nações.
Por que os homens vão à guerra
Bertrand Russell
“O princípio supremo, tanto na política quanto na vida privada, deveria ser o
de promover tudo o que for criativo e, assim, diminuir os impulsos e desejos
que giram em torno da posse.” Esta obra constitui potente reflexão sobre os
elementos que levam o homem a estados de beligerância e os níveis em que isso
poderia ou deveria ser evitado, contribuindo decisivamente para a fama de
Russell como crítico social e pacifista.
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As teorias das guerras preventivas e
as relações internacionais
Alberto Montoya Correa Palacios Junior
Nos dias atuais, a agressão militar vem sendo reeditada frequentemente em todos os continentes. Sob a máscara da "defesa preventiva", são realizadas expedições punitivas, derrubadas de governos e outros tipos de ingerência na soberania nacional dos países. A defesa da democracia, a defesa do livre mercado, a defesa da livre manifestação da cidadania ante o Estado opressor, a defesa da segurança nacional e até a defesa de algum deus já soaram como escusa para a "guerra preventiva". Neste livro, Alberto Montoya Correa Palacios Junior retorna aos textos clássicos da filosofia política para analisar as diferentes doutrinas sobre "guerra preventiva". O resultado desse esforço intelectual é uma análise madura e profunda sobre um tema muito atual, cuja gênese é mostrada na história do pensamento das Relações Internacionais sob o prisma das considerações políticas, jurídicas e éticas que envolvem a questão.
Domenico Losurdo
Nesta obra, Domenico Losurdo traça a história da ideia de paz, desde a
Revolução Francesa até os dias atuais, e problematiza questões dramáticas de
nosso tempo: é possível construir um mundo sem guerras? Devemos confiar na não
violência? A democracia é garantia real de paz ou pode transformar-se em
ideologia de guerra? Refletir sobre as promessas, as decepções, as voltas e
reviravoltas da história da ideia de paz perpétua é essencial para compreender
nosso passado e dar novo impulso à luta contra o crescente perigo de novas
guerras.
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Securitização e política de exceção
Bárbara Vasconcellos de Carvalho Motta
A extinção da segunda grande potência no cenário internacional, após o fim da Guerra Fria, possibilitou aos Estados Unidos reforçar um papel, à época já latente, de universalizar princípios e valores. O aprofundamento e a exploração dessa moral universalizante tornam-se um aspecto fundamental para compreender a atuação dos Estados Unidos, principalmente no âmbito de suas relações internacionais. Este livro analisa os processos "securitização" empreendidos pelos EUA após o 11 de Setembro, ou seja, o tratamento de conflitos geopolíticos pela via da emergência e da excepcionalidade, com o recurso à exceção e a medidas bélicas emergenciais. Ao mesmo tempo, debruça-se sobre a construção discursiva que acompanhou esses processos de securitização.
Michael Ruse
Articulando exemplos e estudos que vão da biologia até a literatura, o filósofo
da ciência Michael Ruse enfrenta uma das mais espinhosas perguntas acerca da
natureza humana: quais as raízes do ódio? Explorando temas como grupos e
pertencimento, agressividade e cordialidade, racismo, antissemitismo e
misoginia, Ruse traz neste ensaio multidisciplinar uma valiosa contribuição
para tentarmos cercar a questão do ódio – tanto como um fenômeno a ser
entendido quanto como um impulso a ser refreado.
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John J. Mearsheimer e Sebastian Santoro
Uma análise inovadora de uma questão central nas relações internacionais: o que é a racionalidade na política? Para entender a política mundial, é preciso entender como os Estados pensam. Os Estados são racionais? Grande parte da teoria das relações internacionais pressupõe que sim, mas muitos acadêmicos acreditam que líderes globais quase nunca agem de forma racional. Examinando conflitos políticos e líderes mundiais do passado e do presente, incluindo George W. Bush e Vladimir Putin, os autores renovam a reflexão sobre esse ponto fundamental, mostrando como se deram os processos racionais (ou irracionais) por trás das grandes decisões políticas da história recente.
Nicolai N. Petro
Mais do que uma análise do conflito ucraniano, esta é uma reflexão profunda sobre as armadilhas universais da condição humana e um convite a redescobrir na sabedoria antiga modelos para lidar com os impasses e traumas do nosso próprio tempo.
Jürgen Habermas
“Não foi o perigo do terrorismo internacional que dividiu o Ocidente, mas uma política do atual governo norte-americano que ignora o direito internacional, marginaliza as Nações Unidas e mantém o rompimento com a Europa. O que está em jogo é o projeto kantiano de eliminação do estado de natureza entre os Estados. Os espíritos não se dividem em relação aos objetivos políticos que estão em primeiro plano, mas em relação a um dos maiores esforços para a civilização do gênero humano.”
O retorno da geopolítica na Europa?
Stefano Guzzini (Org.)
O fim da Guerra Fria demonstrou a possibilidade histórica de mudança pacífica e aparentemente mostrou a superioridade das abordagens não realistas nas Relações Internacionais. No entanto, no período subsequente, muitos países europeus experimentaram o ressurgimento de uma área distintamente realista: a geopolítica. Em geopolítica enfatiza-se, de um lado, a relação entre política e poder; e, de outro, entre território, localização e ambiente. Este estudo comparativo mostra como o renascimento da geopolítica veio não apesar do fim da Guerra Fria, mas por causa dele. Desorientados pelos eventos de 1989 em sua autocompreensão e na concepção de seus papéis no cenário mundial, muitos atores da política externa europeus usaram o determinismo do pensamento geopolítico para encontrar rapidamente seu lugar na política mundial. O autor desenvolve uma metodologia construtivista que permite estudar mecanismos causais, e sua abordagem comparativa permite uma ampla avaliação de algumas das dinâmicas fundamentais da segurança europeia.
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A luta pela supremacia na Europa
A. J. P. Taylor
A corrida pelo poder, as intrigas diplomáticas e a busca por dominação: reviva a história da Europa entre 1848 e 1918 e compreenda as raízes dos conflitos que moldaram o mundo. Com base em uma riqueza de documentos diplomáticos, A. J. P. Taylor examina neste livro as relações entre as grandes potências quando a Europa ainda era o centro do mundo. Escrita em prosa vigorosa, esta é uma história diplomática desafiadora e original, que também considera as forças políticas e econômicas que tornaram inevitável a guerra continental. “Um clássico” – History Today
Globalização, democracia e ordem internacional
Sebastião Carlos Velasco e Cruz
Os ensaios reunidos nesta obra abordam um conjunto de questões que vão da
política externa brasileira à guerra do Iraque, das reformas econômicas à ordem
internacional. Resultaram da confluência de dois movimentos profundos: - a
transição política do Brasil e os impasses da política industrial; - e um
episódio histórico dramático, a crise internacional que se seguiu à invasão do
Kuait pelo Iraque, em 1990, à coalizão gigantesca formada em tornos dos Estados
Unidos e ao espetáculo televisivo do bombardeio aéreo de Bagdá. A primeira, de
um ciclo de intervenções militares que vêm marcando, como um de seus sinais
distintivos mais salientes, a ordem (?) internacional pós-Guerra Fria, com a
passividade da União Soviética diante de uma ação militar de legitimidade
contestável em uma região crítica para seus interesses e a exibição mundial,
pela tevê, do funcionamento de armas altamente sofisticadas como os mísseis
balísticos, com sistemas informatizados de orientação. Também no plano das
formas da guerra era o ingresso a um "mundo novo".
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Peter Burke
Peter Burke debruça-se sobre um tema que, de tempos em tempos, torna-se especialmente candente: a migração humana. A história da humanidade confunde-se com a história das diásporas, catapultadas pela escassez, pela guerra e pela ambição. Afora os grandes movimentos migratórios, o deslocamento individual, ou de células familiares, permanece ativo diuturnamente no planeta. Em resposta, encontramos frequentes tentativas de se lacrar fronteiras, ao passo que, em outros momentos, fomenta-se a recepção. Entretanto, com os corpos humanos, migram as histórias e migram os intelectos; e o foco principal deste livro é justamente o impacto desses movimentos para a história do conhecimento.
Ordem, poder e conflito no século XXI
Luis Fernando Ayerbe
A radicalização de posições por parte do governo Bush não está associada ao
abandono do consenso hegemônico, decorrente da aceleração de uma crise de
caráter estrutural que impõe a dominação aberta como única alternativa. A
exacerbação do poder duro busca lidar preventivamente com fatores de
instabilidade associados a uma conjuntura de transição entre a bipolaridade da
Guerra Fria e a ordem em configuração. Apesar das controvérsias sobre o grau de
autonomia dos Estados Unidos e dos métodos privilegiados no combate às ameaças,
não se prevê qualquer mudança imediata ou de médio prazo na cúpula do poder.
Tanto a União Europeia quanto o Japão, a China e a Rússia trabalham pela
acomodação de interesses diante da superioridade militar estadunidense, cuja
equiparação exigiria esforços no momento impraticáveis, optando-se pelos ganhos
econômicos que no futuro possam garantir maior projeção internacional.




















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