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quinta-feira, 19 de março de 2026

Gravidez em pacientes com doença neurológica rara exige atenção no pós-parto, aponta estudo da Faculdade Santa Casa de SP

Pesquisa revela que, embora a gestação não aumente riscos significativos, o período após o parto concentra maior chance de recaídas e evidencia desafios no acesso ao tratamento no Brasil.

 

Atualmente, as mulheres representam a maioria da população brasileira e possuem uma expectativa de vida de 79,7 anos, o que representa 8,7% a mais que os homens. Apesar do avanço na expectativa de vida feminina no Brasil, ainda há desafios importantes relacionados à saúde da mulher — especialmente no período reprodutivo. O cenário se torna mais complexo quando envolve doenças raras, que afetam cerca de 13 milhões de brasileiros e exigem acompanhamento especializado.

 

Entre essas condições está o Transtorno do Espectro da Neuromielite Óptica (NMOSD), uma doença autoimune que atinge o sistema nervoso central e pode impactar diretamente a gestação e o pós-parto.

 

Um estudo coordenado pelas médicas Profª Dra. Elisa Matias Vieira de Melo e Profª Dra. Maria Fernanda Mendes, docentes da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), avaliou as características epidemiológicas e clínicas de pacientes com esse transtorno que engravidaram, bem como os desfechos gestacionais de cada paciente.

 

A pesquisa analisou 52 gestações de pacientes da Irmandade da Santa Casa de São Paulo, sendo que 15 ocorreram após o diagnóstico e 37 antes do diagnóstico de NMOSD. De acordo com o estudo, a doença rara tem início médio por volta dos 40 anos — faixa que coincide com a idade reprodutiva.

 

Como há mudanças hormonais e no sistema imunológico para garantir uma gestação saudável, essas alterações podem impactar a atividade da doença. De acordo com o estudo, o maior risco de atividade da doença ocorre no pós-parto, e não durante a gestação. A pesquisa das docentes da Faculdade Santa Casa de São Paulo relatou que sete pacientes tiveram surtos do transtorno após o parto, com maior risco nos primeiros meses.

 

Entre os motivos apontados estão a interrupção do tratamento por medo de prejudicar a gravidez; a falta de acesso a medicamentos modernos; e a queda brusca de hormônios no pós-parto.

 

Apesar dos dados, o estudo teve como resultado preliminar que a gravidez em mulheres com NMOSD é possível e não apresenta piora significativa nos desfechos gerais, mas exige cuidado especializado. Além disso, apontou-se que o principal problema não é uma gravidez tardia ou a doença em si, mas barreiras administrativas e judiciais para o acesso a tratamentos, além da falta de integração entre neurologia e obstetrícia para garantir um acompanhamento e tratamento mais eficazes.  

 

Para os pesquisadores, o impacto da doença rara na gravidez deve ser cuidadosamente considerado no planejamento familiar, com acompanhamento de uma equipe multidisciplinar e uso adequado de terapias compatíveis com a gestação.

 

Os achados também evidenciam a necessidade de avançar na integração entre especialidades e na ampliação do acesso a tratamentos no país — um desafio que passa pela formação de profissionais qualificados, pela produção científica e pelo fortalecimento de políticas públicas voltadas à saúde da mulher, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade.

 

Nesse cenário, a Faculdade Santa Casa de São Paulo reafirma seu compromisso com a pesquisa aplicada e com a formação de profissionais preparados para responder às necessidades reais da população, contribuindo para o avanço de práticas assistenciais mais integradas e acessíveis.


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