Pesquisa revela que, embora a gestação não aumente riscos significativos, o período após o parto concentra maior chance de recaídas e evidencia desafios no acesso ao tratamento no Brasil.
Atualmente, as
mulheres representam a maioria da população brasileira e possuem uma
expectativa de vida de 79,7 anos, o que representa 8,7% a mais que os homens.
Apesar do avanço na expectativa de vida feminina no Brasil, ainda há desafios
importantes relacionados à saúde da mulher — especialmente no período
reprodutivo. O cenário se torna mais complexo quando envolve doenças raras, que
afetam cerca de 13 milhões de brasileiros e exigem acompanhamento
especializado.
Entre essas
condições está o Transtorno do Espectro da Neuromielite Óptica (NMOSD), uma
doença autoimune que atinge o sistema nervoso central e pode impactar
diretamente a gestação e o pós-parto.
Um estudo
coordenado pelas médicas Profª Dra. Elisa Matias Vieira de Melo
e Profª Dra. Maria Fernanda Mendes, docentes da Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), avaliou as características
epidemiológicas e clínicas de pacientes com esse transtorno que engravidaram,
bem como os desfechos gestacionais de cada paciente.
A pesquisa
analisou 52 gestações de pacientes da Irmandade da Santa Casa de São Paulo,
sendo que 15 ocorreram após o diagnóstico e 37 antes do diagnóstico de NMOSD.
De acordo com o estudo, a doença rara tem início médio por volta dos 40 anos —
faixa que coincide com a idade reprodutiva.
Como há mudanças
hormonais e no sistema imunológico para garantir uma gestação saudável, essas
alterações podem impactar a atividade da doença. De acordo com o estudo, o
maior risco de atividade da doença ocorre no pós-parto, e não durante a
gestação. A pesquisa das docentes da Faculdade Santa Casa de São Paulo relatou
que sete pacientes tiveram surtos do transtorno após o parto, com maior risco
nos primeiros meses.
Entre os motivos
apontados estão a interrupção do tratamento por medo de prejudicar a gravidez;
a falta de acesso a medicamentos modernos; e a queda brusca de hormônios no
pós-parto.
Apesar dos
dados, o estudo teve como resultado preliminar que a gravidez em mulheres com
NMOSD é possível e não apresenta piora significativa nos desfechos gerais, mas
exige cuidado especializado. Além disso, apontou-se que o principal problema
não é uma gravidez tardia ou a doença em si, mas barreiras administrativas e
judiciais para o acesso a tratamentos, além da falta de integração entre neurologia
e obstetrícia para garantir um acompanhamento e tratamento mais
eficazes.
Para os
pesquisadores, o impacto da doença rara na gravidez deve ser cuidadosamente
considerado no planejamento familiar, com acompanhamento de uma equipe
multidisciplinar e uso adequado de terapias compatíveis com a gestação.
Os achados
também evidenciam a necessidade de avançar na integração entre especialidades e
na ampliação do acesso a tratamentos no país — um desafio que passa pela
formação de profissionais qualificados, pela produção científica e pelo
fortalecimento de políticas públicas voltadas à saúde da mulher, especialmente
em contextos de maior vulnerabilidade.
Nesse
cenário, a Faculdade Santa Casa de São Paulo reafirma seu compromisso com a
pesquisa aplicada e com a formação de profissionais preparados para responder
às necessidades reais da população, contribuindo para o avanço de práticas
assistenciais mais integradas e acessíveis.

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