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sábado, 14 de março de 2026

Filósofo aponta que polarização no Brasil alimenta tentativas constantes de controlar emoções, afetos e até a política

Autor do recém-lançado “O Amor Está Nu”, o filósofo e professor universitário João Batista Silva critica a moralização do amor e outros afetos, em um país marcado por posicionamentos intolerantes
 

Em meio à polarização político-social que marca o Brasil contemporâneo e ao avanço de discursos morais cada vez mais sobre a vida privada, o filósofo e professor universitário João Batista Silva analisa de forma crítica como a tentativa de controlar afetos, desejos e comportamentos tem produzido impactos profundos nas relações humanas, na experiência subjetiva e no própria forma de governo democrática. 

Autor do recém-lançado O Amor Está Nu (2025), o pensador sustenta que o país atravessa um processo de radicalização moral no qual o amor, o corpo e a diferença passam a ser constantemente submetidos ao julgamento social.

“O Brasil vive hoje uma tentativa constante de controlar afetos, corpos e desejos. Quando isso acontece, o amor deixa de ser encontro e passa a ser tribunal”, afirma. Nessa perspectiva, o autor desloca o debate do campo estritamente moral para o campo político, evidenciando como determinadas normas afetivas operam como dispositivos de exclusão e controle. 

Na obra, o foco recai sobre a moralização das relações afetivas, sobretudo quando incide sobre formas de amar que escapam aos modelos hegemônicos. João Batista critica o que chama de uma tentativa “profundamente hipócrita” de legislar sobre o amor, transformando-o em objeto de regulação normativa. 

“Quando o amor é submetido a projetos morais, ele se converte em instrumento de intolerância e violência”, observa. Essa dinâmica se expressa, segundo o autor, na hierarquização dos afetos, que legitima determinadas experiências amorosas enquanto marginaliza outras, em especial as relações homoafetivas e outras vivências consideradas dissidentes. 

“Aprendemos a enaltecer algumas formas de amor e a depreciar outras. Essa hierarquização não nasce do amor, nasce do medo da diferença”, afirma. 

Para o filósofo, essa visão revela um equívoco fundamental: o amor, enquanto experiência ética e existencial, não se submete a normas morais nem a racionalizações instrumentais. “O amor é um ato livre. Todo projeto moral sucumbe diante dele”, sustenta, reafirmando o caráter irredutível do afeto frente às tentativas de captura normativa.
 

A tirania do ideal - Essa reflexão dialoga diretamente com as análises desenvolvidas em Entre o Ideal e o Real das Inquietudes Humanas, ambos publicados em 2023, nos quais João Batista examina a busca obsessiva pela perfeição, pela certeza e pelo sucesso como ideais socialmente impostos, mesmo em um contexto marcado por profundas desigualdades estruturais. Nesses livros, o autor demonstra como a internalização desses ideais produz frustração crônica e sofrimento psíquico, uma vez que impõe aos indivíduos metas inalcançáveis e modelos de vida descolados de suas condições objetivas. 

“O ideal de perfeição é um dos grandes flagelos da vida contemporânea. Ele não existe, mas seguimos nos autoflagelando em nome dele”, afirma o pensador. 

Na continuidade reflexiva entre uma obra e outra, João Batista Silva constrói uma análise consistente do Brasil contemporâneo, no qual a moralização dos afetos, a imposição de ideais abstratos e a negação da diferença operam como dispositivos de controle social e subjetivo. Ao examinar o amor convertido em tribunal, o ideal de perfeição transformado em fonte permanente de sofrimento e a distância estrutural entre o real vivido e os modelos normativos impostos, o autor evidencia os modos pelos quais os indivíduos, atravessados por essas tensões, buscam afirmar seus afetos, desejos e formas de existência. 

Sua obra se consolida, assim, como uma chave interpretativa potente para compreender as inquietudes humanas em um país atravessado por desigualdades, intolerância e crises de sentido.

 

João Batista Silva - filósofo, professor universitário e escritor. Atua na reflexão sobre temas centrais da existência humana, como desejo, amor, liberdade, moralidade, sofrimento psíquico e crise de sentido na contemporaneidade. Com uma escrita que transita entre o rigor filosófico e a experiência cotidiana, o autor se dedica a analisar os impactos sociais e subjetivos da polarização, da moralização dos afetos e da busca por ideais inalcançáveis, especialmente no contexto brasileiro. É autor dos livros Entre o Ideal e o Real das Inquietudes Humanas (2023) e O Amor Está Nu (2025).


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