Autor do recém-lançado “O Amor Está Nu”, o filósofo
e professor universitário João Batista Silva critica a moralização do amor e
outros afetos, em um país marcado por posicionamentos intolerantes
Em
meio à polarização político-social que marca o Brasil contemporâneo e ao avanço
de discursos morais cada vez mais sobre a vida privada, o filósofo e professor
universitário João Batista Silva analisa de forma crítica como a tentativa de
controlar afetos, desejos e comportamentos tem produzido impactos profundos nas
relações humanas, na experiência subjetiva e no própria forma de governo
democrática.
Autor
do recém-lançado O Amor Está Nu (2025), o pensador sustenta que o país
atravessa um processo de radicalização moral no qual o amor, o corpo e a
diferença passam a ser constantemente submetidos ao julgamento social.
“O Brasil vive hoje uma tentativa constante de controlar afetos, corpos e
desejos. Quando isso acontece, o amor deixa de ser encontro e passa a ser
tribunal”, afirma. Nessa perspectiva, o autor desloca o debate do campo
estritamente moral para o campo político, evidenciando como determinadas normas
afetivas operam como dispositivos de exclusão e controle.
Na
obra, o foco recai sobre a moralização das relações afetivas, sobretudo quando
incide sobre formas de amar que escapam aos modelos hegemônicos. João Batista
critica o que chama de uma tentativa “profundamente hipócrita” de legislar
sobre o amor, transformando-o em objeto de regulação normativa.
“Quando
o amor é submetido a projetos morais, ele se converte em instrumento de
intolerância e violência”, observa. Essa dinâmica se expressa, segundo o autor,
na hierarquização dos afetos, que legitima determinadas experiências amorosas
enquanto marginaliza outras, em especial as relações homoafetivas e outras
vivências consideradas dissidentes.
“Aprendemos
a enaltecer algumas formas de amor e a depreciar outras. Essa hierarquização
não nasce do amor, nasce do medo da diferença”, afirma.
Para
o filósofo, essa visão revela um equívoco fundamental: o amor, enquanto
experiência ética e existencial, não se submete a normas morais nem a
racionalizações instrumentais. “O amor é um ato livre. Todo projeto moral
sucumbe diante dele”, sustenta, reafirmando o caráter irredutível do afeto
frente às tentativas de captura normativa.
A tirania do ideal - Essa
reflexão dialoga diretamente com as análises desenvolvidas em Entre o Ideal
e o Real das Inquietudes Humanas, ambos publicados em 2023, nos quais
João Batista examina a busca obsessiva pela perfeição, pela certeza e pelo
sucesso como ideais socialmente impostos, mesmo em um contexto marcado por
profundas desigualdades estruturais. Nesses livros, o autor demonstra como a
internalização desses ideais produz frustração crônica e sofrimento psíquico,
uma vez que impõe aos indivíduos metas inalcançáveis e modelos de vida
descolados de suas condições objetivas.
“O
ideal de perfeição é um dos grandes flagelos da vida contemporânea. Ele não
existe, mas seguimos nos autoflagelando em nome dele”, afirma o pensador.
Na
continuidade reflexiva entre uma obra e outra, João Batista Silva constrói uma
análise consistente do Brasil contemporâneo, no qual a moralização dos afetos,
a imposição de ideais abstratos e a negação da diferença operam como
dispositivos de controle social e subjetivo. Ao examinar o amor convertido em
tribunal, o ideal de perfeição transformado em fonte permanente de sofrimento e
a distância estrutural entre o real vivido e os modelos normativos impostos, o
autor evidencia os modos pelos quais os indivíduos, atravessados por essas
tensões, buscam afirmar seus afetos, desejos e formas de existência.
Sua obra se consolida, assim, como uma chave interpretativa potente para compreender as inquietudes humanas em um país atravessado por desigualdades, intolerância e crises de sentido.
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