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segunda-feira, 16 de março de 2026

Corrida, pressa e rotina social: por que jovens se lesionam mais quando “sobem o nível” rápido demais

Ortopedista explica como o salto de volume e a recuperação insuficiente aumentam o risco de lesões, e como o cuidado especializado ajuda a manter consistência no esporte

 

Impulsionado pelas redes sociais, o boom das corridas de rua tem levado cada vez mais jovens a trocar o sedentarismo por treinos, metas e provas, e em poucas semanas, quem começou correndo alguns minutos já está pensando em 10 km ou meia maratona. Enquanto isso, a rotina social segue intensa, com noites curtas e pouco espaço para recuperação. O problema é que o condicionamento cardiovascular costuma evoluir mais rápido do que a adaptação de tendões, cartilagens e ossos. E é nesse descompasso que surgem as lesões. 

“Existe hoje uma busca maior por saúde e desempenho, o que é extremamente positivo. Mas, também vivemos uma era de imediatismo, e as redes sociais, com essa cultura de registrar treinos, metas e provas, acabam acelerando essa expectativa. Isso aparece muito na corrida”, afirma Dr. João Polydoro, ortopedista do esporte do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. 

No Centro Especializado em Ortopedia do hospital, que atua em diferentes níveis de complexidade e recebe desde queixas iniciais até casos que exigem investigação mais aprofundada, o padrão é claro, segundo o médico: dores no joelho, síndrome do trato iliotibial, condropatia patelar, tendinopatias, dores em tornozelos e quadril e fraturas por estresse estão entre as queixas mais frequentes de corredores iniciantes e intermediários.

 

O salto de performance e o aumento do risco

A evolução do fôlego pode enganar, já que o coração e o pulmão respondem rápido ao estímulo do treino, mas o tecido musculoesquelético precisa de tempo para se fortalecer e se adaptar à carga repetitiva do impacto. 

Estudos mostram que uma proporção significativa de corredores recreacionais apresenta lesões ao longo de um ano, com destaque para joelho, panturrilha e tendão de Aquiles1, e que, no Brasil, aproximadamente 36,5% dos corredores amadores reportam lesões musculoesqueléticas, sendo os joelhos a região mais acometida2. 

“Não é a corrida em si o problema, mas a progressão inadequada. Quando o volume e a intensidade aumentam mais rápido do que o corpo consegue suportar, a sobrecarga aparece”, explica o ortopedista. 

Para muitos jovens, a corrida não substitui a rotina anterior, ela se soma a ela. O desafio começa quando o treino passa a exigir um padrão elevado, mas a recuperação continua sendo tratada como opcional. 

“Do ponto de vista ortopédico e da medicina do esporte, treino sem recuperação é uma das maiores causas de lesões. Vemos muitos pacientes que treinam forte, dormem mal, consomem álcool e, no dia seguinte, querem fazer o longão. O resultado clássico é fadiga precoce, pior coordenação, desconforto gastrointestinal, queda de desempenho e maior risco de lesões”, reforça o ortopedista. 

O sono é peça central nesse processo. Ele é fundamental para síntese proteica, liberação hormonal e reparo tecidual. Quando falha, a capacidade de recuperação muscular diminui. “Treinar mal recuperado é como acelerar um carro com o motor superaquecido”, resume o médico.

 

“O corpo jovem “aguenta”: até certo ponto

A reserva fisiológica do jovem realmente existe, esses tendem a ter uma recuperação mais rápida, mas não significa que não há limites biológicos. “Quando a rotina não respeita a progressão e descanso, o que costuma falhar primeiro é o desequilíbrio muscular, depois a sobrecarga cartilaginosa, as tendinopatias e, em casos mais importantes, lesões ósseas como fraturas por estresse”, afirma. 

Esse tipo de fratura, explica o Dr. Polydoro, surge quando microtraumas repetitivos excedem a capacidade de remodelação do osso. Em mulheres jovens, ele destaca ainda a atenção à deficiência energética relativa no esporte (RED-S), condição que pode afetar ciclo hormonal e densidade óssea, aumentando risco de fraturas.

 

Quando investigar faz diferença

Nem toda dor significa lesão. A dor muscular tardia faz parte da adaptação. Mas, dor localizada persistente por mais de sete dias, dor que piora progressivamente, inchaço articular, dor que altera a mecânica da corrida ou dor noturna são sinais de alerta. 

Quando negligenciadas ou tratadas de forma inadequada, lesões por sobrecarga podem evoluir para quadros de maior complexidade clínica, como fraturas por estresse, lesões cartilaginosas e tendinopatias crônicas, que demandam investigação diagnóstica mais aprofundada e acompanhamento especializado. 

Nesses casos, a avaliação especializada permite diferenciar uma adaptação esperada do treino de uma lesão em evolução, orientando ajustes na carga, no descanso e na reabilitação, com foco na recuperação adequada e no retorno seguro à prática esportiva. 

Em quadros persistentes ou com sinais de alerta, a condução em um hospital de alta complexidade contribui para uma abordagem mais integrada do cuidado, especialmente quando há necessidade de acompanhamento multiprofissional, reabilitação estruturada ou intervenções mais avançadas. 

No hospital, a Ortopedia integra assistência ambulatorial, cirúrgica e suporte multiprofissional, com estrutura voltada tanto para o manejo de lesões esportivas comuns quanto para casos que exigem abordagem mais avançada. A proposta é não apenas tratar a dor, mas entender o padrão de carga que levou à lesão e ajustar o percurso.

 

Consistência vale mais que intensidade

A mensagem final do especialista é menos sobre restringir a vida social e mais sobre coerência fisiológica. “Correr é uma das melhores intervenções de saúde pública que existem. Mas, saúde não vem apenas do treino, vem do equilíbrio entre carga, descanso, sono adequado, nutrição e consistência”, afirma. 

“No consultório, as lesões raramente acontecem por ‘excesso de esporte’ isolado. Elas acontecem por pressa, irregularidade e recuperação inadequada. Treinar bem é importante. Recuperar bem é indispensável.”  



Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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