Estudo
aponta que 92,5% das mulheres já receberam anúncios
considerados
sexistas ou inadequados
O marketing digital se apresenta, cada vez mais, como território estratégico para marcas que desejam dialogar com o público feminino. No entanto, estudo realizado para Mestrado em Marketing Digital da MUST University (Flórida, EUA) revela que há um descompasso significativo entre o discurso de empoderamento adotado por muitas empresas e a percepção real das mulheres que consomem esses conteúdos.
O estudo “O uso do marketing digital como instrumento de empoderamento feminino: análise de estratégias, desafios e oportunidades na comunicação contemporânea”, desenvolvido pela jornalista Monica Kulcsar, ouviu 134 mulheres entre os dias 31 de janeiro e 20 de fevereiro de 2026. A pesquisa analisou percepções sobre representatividade, autenticidade, uso de inteligência artificial, algoritmos e vieses de gênero nas campanhas digitais.
Com 25 anos de experiência na área de saúde e comunicação, a jornalista decidiu investigar o tema ao observar a crescente apropriação do discurso do empoderamento feminino pelas marcas nas redes sociais.
“Meu objetivo foi compreender se o marketing digital está,
de fato, contribuindo para ampliar autonomia, representatividade e inclusão, ou
se estamos diante de uma estratégia predominantemente simbólica, mais estética
do que estrutural”, afirma.
Alta exposição, olhar crítico
O perfil das participantes revela mulheres altamente inseridas no ambiente digital: a maioria acessa redes sociais várias vezes ao dia e possui elevado nível de escolaridade. A faixa etária predominante está entre 35 e 54 anos, grupo com forte poder de decisão de consumo e carreira.
Esse recorte contribui para um dado central do estudo: a
leitura crítica das campanhas de empoderamento.
Entre as respondentes:
- 92,5%
afirmam já ter recebido anúncios considerados sexistas ou inapropriados;
- 72,4%
concordam totalmente que o empoderamento feminino é frequentemente
utilizado mais como estratégia de marketing do que como compromisso real;
- 87,3% concordam totalmente que mulheres negras, gordas, LGBTQIAP+ ou com deficiência são sub-representadas nas campanhas digitais.
Os dados indicam que, embora as mulheres reconheçam o potencial do marketing digital como ferramenta de transformação social, há desconfiança em relação à autenticidade das marcas.
“Muitas campanhas falam em autonomia, mas continuam
reproduzindo padrões estéticos restritos e narrativas superficiais. Esta
divergência está cada vez mais evidente para as mulheres, que pedem coerência
entre discurso e prática organizacional”, explica Monica.
Empoderamento: discurso ou prática?
A pesquisa dialoga com a literatura acadêmica, que aponta para o fenômeno do chamado “feminismo de mercado”, ou seja, pautas feministas têm sido incorporadas à comunicação publicitária sem necessariamente promover mudanças estruturais nas empresas.
Para as participantes, tornam uma campanha mais autêntica a presença de mulheres e histórias reais (44%), ações concretas além do marketing (30,6%), transparência das ações (12,7%), representatividade diversa (6%) e linguagem inclusiva (4,5%).
O estudo identificou que 62,7% das mulheres se sentem
motivadas ao ver mulheres em posições de liderança nas redes sociais, indicando
que a representatividade pode ter impacto relevante, desde que autêntica.
Algoritmos e vieses de gênero
Outro ponto sensível revelado pela pesquisa diz respeito ao papel da inteligência artificial e da personalização algorítmica.
A maioria das respondentes (79,9%) acredita que algoritmos tratam homens e mulheres de forma desigual, direcionando conteúdos mais centrados em aparência e consumo para mulheres, enquanto áreas como carreira, tecnologia e finanças são menos frequentes.
“Há consciência crescente de que a tecnologia não é
neutra. As mulheres percebem quando os algoritmos reforçam desigualdades históricas”,
destaca a pesquisadora.
Apesar disso, as participantes reconhecem benefícios da
personalização digital, desde que acompanhada de ética, transparência e
governança de dados sensível às questões de gênero.
Marcas e referências de empoderamento
Quando questionadas sobre marcas consideradas exemplos de empoderamento feminino, nomes como Natura (51,6%), Dove (25,8%) e Magazine Luiza (19,3%) e Avon (12,9%) apareceram com maior recorrência.
Entre personalidades citadas, surgiram artistas, parlamentares, intelectuais e influenciadoras digitais, demonstrando que o empoderamento é percebido como fenômeno plural, que ultrapassa o campo do consumo. Um dado curioso: entre 188 nomes distintos mencionados como referências de empoderamento, apenas três eram homens, indicando que a pauta ainda é socialmente percebida como responsabilidade majoritariamente feminina.
Dentre os nomes mais lembrados, destacam-se a deputada
federal Erika Hilton (6,9%), a atriz Paola Oliveira (5,8%), a deputada federal
Sâmia Bomfim (5,3%), jornalista e ex-deputada federal Manuela d’Avila (4,2%) e
a atriz Taís Araújo (3,2%).
Conclusão: potencial existe, mas exige coerência
“Empoderamento não pode ser apenas narrativa. Precisa ser prática organizacional, política interna e postura ética diante da tecnologia”, resume Monica.
Para a pesquisadora, o desafio para as marcas não é apenas comunicar diversidade, mas incorporá-la estruturalmente, inclusive no desenvolvimento de tecnologias, segmentação de campanhas e definição de métricas de sucesso.
O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética da MUST University e integra a conclusão do Master of Science in Digital Marketing.
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