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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Contato pele a pele: por que os primeiros minutos de vida fazem tanta diferença?

 

Getty Images
Neonatologista do CEJAM explica como a prática contribui para reduzir complicações neonatais, estimular a amamentação e fortalecer o vínculo entre quem amamenta e o bebê 

 

No Brasil, 62% dos bebês são colocados ao seio ainda na primeira hora de vida, segundo dados do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Esse resultado está ligado ao contato pele a pele, prática reconhecida pelo SUS e incorporada a políticas públicas como a Rede Cegonha, por ajudar a reduzir complicações, estimular a amamentação e fortalecer o vínculo entre quem amamenta e o bebê.

O contato acontece quando o recém-nascido é colocado diretamente sobre o peito ou abdômen de quem acabou de dar à luz, desde que ambos estejam bem clinicamente. Apesar de simples, esse cuidado oferece estímulos importantes, como calor, cheiro, toque, voz e batimentos cardíacos.

Para a Dra. Marisa Salgado, médica neonatologista do Hospital Geral de Itapevi (HGI), unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) e gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, “esse primeiro encontro envolve diferentes estímulos sensoriais e deve ser protegido pela equipe de saúde, sempre respeitando os desejos da família, além de aspectos culturais e religiosos”.

Do ponto de vista do corpo, a estratégia ajuda a criança a se adaptar melhor à respiração, à circulação e à produção de hormônios. Quando combinado ao corte do cordão no tempo adequado, contribui para maior estabilidade logo após o nascimento. Também favorece a proteção natural da pele e o sistema imunológico, ao permitir o contato com bactérias benéficas da pessoa que amamenta.

Outro benefício importante é o controle da temperatura. A hipotermia pode aumentar o gasto de energia e oxigênio. “O corpo de quem amamenta ajuda a manter o bebê aquecido naturalmente. Assim, ele gasta menos energia e fica mais estável”, explica a neonatologista.

Quando há algum tipo de complicação no parto, as prioridades mudam. As manobras de reanimação não devem ser adiadas. “Existe o chamado Minuto de Ouro, em que o recém-nascido precisa começar a respirar e garantir oxigenação adequada ao cérebro. Nessas situações, o atendimento imediato é essencial”, reforça Dra. Marisa.

Apesar de ainda ser mais associado ao parto normal, o contato pele a pele pode ser realizado em qualquer tipo de parto, inclusive cesáreas, desde que a pessoa que deu à luz e o bebê estejam estáveis. Fora da sala de parto, a prática também pode ser incentivada durante a internação e em momentos potencialmente estressantes, como na coleta do teste do pezinho.

O Método Canguru, usado com prematuros, é um dos exemplos mais conhecidos dessa abordagem.


Contato pele a pele como prática institucional no Hospital Geral de Itapevi 

No HGI, o contato pele a pele é uma prática institucional presente em diferentes setores, sustentada por protocolos alinhados ao Manual da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC).

Segundo Maria Arleide Ibiapino, supervisora de Enfermagem da unidade, a organização dos processos foi essencial para garantir a continuidade e a segurança da prática. “Estruturamos protocolos claros, respeitando as especificidades de cada setor e assegurando o cuidado ao binômio pessoa que deu à luz e bebê”, afirma.

No Centro de Parto Normal, esse contato começa logo após o nascimento e é mantido, sempre que possível, por pelo menos uma hora, tanto em partos vaginais quanto em cesarianas. Em centros cirúrgicos, protocolos específicos viabilizam a prática de forma segura, com atuação integrada das equipes.

A abordagem também se estende à UTI Neonatal, por meio do Método Canguru e da presença da família no cuidado. “Mesmo em contextos de alta complexidade, o vínculo familiar é preservado”, destaca Maria.

Com isso, são observados impactos positivos na experiência hospitalar e na qualidade da assistência. Sem exigir investimentos adicionais, a prática se apoia na capacitação dos times e no monitoramento por indicadores assistenciais.

No hospital, o contato pele a pele reforça que cuidar vai além do procedimento técnico: é acolher e incluir a família desde os primeiros minutos de vida.

 

CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial



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