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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Fim do “tapetinho”? CBF endurece regras para gramados em 2026 após pressão de atletas e alta no índice de lesões

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Especialista explica como o coeficiente de atrito e temperaturas de até 60°C em campos artificiais impactam a integridade física dos profissionais.

 

O início de 2026 consolida um movimento de urgência no futebol brasileiro em torno da revisão da qualidade e da natureza das superfícies de jogo. No fim de janeiro, a Comissão Brasileira de Futebol (CBF) publicou o Manual de Competições para a temporada 2026, estabelecendo novas diretrizes para a melhoria dos gramados no país, naturais ou sintéticos, com exigências mais rigorosas e alinhadas aos padrões da Conmebol. 

 

A pressão de atletas, incluindo Neymar, contribuiu para que a CBF e sua Comissão de Médicos intensificassem, desde o início de 2025, os debates sobre a padronização dos campos. A movimentação ganhou força após episódios críticos de interdição e falhas estruturais, como o derretimento de componentes termoplásticos sob o calor tropical, que evidenciaram riscos à integridade física dos atletas e à própria mecânica do jogo. Atualmente, cinco clubes da Série A utilizam gramado sintético: Palmeiras, Botafogo, Atlético-MG, Athletico e Chapecoense.

 

Uma pesquisa do estudo Instituto de Economia da UFRJ, que analisou o impacto dos gramados sintéticos entre 2018 e 2024, revelou que partidas em superfícies artificiais resultam, em média, aproximadamente 10 dias a mais de afastamento por lesões musculares e articulares (joelhos e tornozelos) em comparação aos gramados naturais de alta performance. Além do prejuízo técnico, o impacto financeiro é alarmante para os clubes da Série A, dado que o custo de manutenção de atletas no departamento médico pode ultrapassar centenas de milhares de reais mensais em salários sem produtividade.

 

O ortopedista e professor de Medicina do Esporte na Afya Educação Médica Belo Horizonte, Dr Gabriel Miura, explica a diferença dos impactos de jogar em um gramado artificial para uma superfície natural. “Campos sintéticos, em geral, apresentam menor capacidade de absorção de impacto e maior resistência rotacional (coeficiente de atrito) quando comparados a muitos gramados naturais de alta performance. Essas características alteram a forma como as forças são transmitidas do solo para o pé, tornozelo e joelho. Superfícies de grama natural ou híbrida bem mantidas costumam dissipar melhor a energia do impacto do que muitas estruturas sintéticas que não possuem camada amortecedora adequada”. 

 

Dr Gabriel Miura ainda ressalta que muitos gramados sintéticos, especialmente os que utilizam o infill (material granulado espalhado entre as fibras de grama sintética), exibem coeficiente de atrito e resistência rotacional superiores aos do gramado natural. Isso reduz a capacidade de deslizamento da sola do calçado no momento do apoio, aumentando os momentos de torção transmitidos ao tornozelo e ao joelho durante movimentos de corte e frenagem. Esse aumento de torque está mecanicamente associado a lesões ligamentares sem contato. “Como consequência, picos mais elevados de torque rotacional e maior carga de choque vertical ampliam a demanda sobre as estruturas passivas (ligamentos do tornozelo, ligamento cruzado anterior e meniscos) e sobre a musculatura estabilizadora (tibial anterior e posterior, quadríceps e isquiotibiais), responsáveis por controlar e dissipar essas forças”, complementa o especialista da Afya. 


 

Impacto das arenas multiuso no Brasil

 

A polêmica no Brasil concentra-se em arenas multiuso como por exemplo o Allianz Parque, a Ligga Arena e o Nilton Santos. Embora o piso sintético favoreça um jogo mais veloz, com maior número de passes e progressões, a pesquisa corrobora com as falas do professor de medicina do esporte, Dr Gabriel Miura, e indica que essa agilidade não se traduz em vantagem estatística no placar final ou no saldo de gols. 

 

O que se observa, na prática, é um "travamento" maior das articulações devido ao coeficiente de atrito superior, além do estresse térmico: em dias de sol forte, a temperatura dessas superfícies pode ultrapassar os 60°C, exigindo sistemas de irrigação muito mais robustos para o resfriamento.

“Medidas de controle do microclima, como irrigação ou acionamento de sistemas de resfriamento antes do uso, ajudam a mitigar riscos. Há, inclusive, campos sintéticos de última geração cujas propriedades de absorção de impacto e resistência rotacional se aproximam muito das observadas em gramados naturais de alto nível. Estudos experimentais mostram que o aumento da temperatura altera as propriedades mecânicas do sistema superfície, calçado e atleta, afetando a absorção de forças e a resistência rotacional. Superfícies aquecidas podem ficar mais rígidas, modificar o comportamento em aterrissagens, cortes e frenagens e, com isso, aumentar as cargas articulares e alterar o padrão de contato com o solo”, conclui o especialista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

 

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