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O início de 2026
consolida um movimento de urgência no futebol brasileiro em torno da revisão da
qualidade e da natureza das superfícies de jogo. No fim de janeiro, a Comissão
Brasileira de Futebol (CBF) publicou o Manual de Competições para a temporada
2026, estabelecendo novas diretrizes para a melhoria dos gramados no país,
naturais ou sintéticos, com exigências mais rigorosas e alinhadas aos padrões
da Conmebol.
A pressão de
atletas, incluindo Neymar, contribuiu para que a CBF e sua Comissão de Médicos
intensificassem, desde o início de 2025, os debates sobre a padronização dos
campos. A movimentação ganhou força após episódios críticos de interdição e
falhas estruturais, como o derretimento de componentes termoplásticos sob o
calor tropical, que evidenciaram riscos à integridade física dos atletas e à
própria mecânica do jogo. Atualmente, cinco clubes da Série A utilizam gramado
sintético: Palmeiras, Botafogo, Atlético-MG, Athletico e Chapecoense.
Uma pesquisa do
estudo Instituto de Economia da UFRJ, que analisou o impacto dos gramados
sintéticos entre 2018 e 2024, revelou que partidas em superfícies artificiais
resultam, em média, aproximadamente 10 dias a mais de afastamento por lesões
musculares e articulares (joelhos e tornozelos) em comparação aos gramados
naturais de alta performance. Além do prejuízo técnico, o impacto financeiro é
alarmante para os clubes da Série A, dado que o custo de manutenção de atletas
no departamento médico pode ultrapassar centenas de milhares de reais mensais
em salários sem produtividade.
O ortopedista e
professor de Medicina do Esporte na Afya Educação Médica Belo Horizonte, Dr
Gabriel Miura, explica a diferença dos impactos de jogar em um gramado
artificial para uma superfície natural. “Campos sintéticos, em geral,
apresentam menor capacidade de absorção de impacto e maior resistência
rotacional (coeficiente de atrito) quando comparados a muitos gramados naturais
de alta performance. Essas características alteram a forma como as forças são
transmitidas do solo para o pé, tornozelo e joelho. Superfícies de grama
natural ou híbrida bem mantidas costumam dissipar melhor a energia do impacto
do que muitas estruturas sintéticas que não possuem camada amortecedora
adequada”.
Dr Gabriel Miura
ainda ressalta que muitos gramados sintéticos, especialmente os que utilizam o
infill (material granulado espalhado entre as fibras de grama sintética),
exibem coeficiente de atrito e resistência rotacional superiores aos do gramado
natural. Isso reduz a capacidade de deslizamento da sola do calçado no momento
do apoio, aumentando os momentos de torção transmitidos ao tornozelo e ao
joelho durante movimentos de corte e frenagem. Esse aumento de torque está
mecanicamente associado a lesões ligamentares sem contato. “Como consequência,
picos mais elevados de torque rotacional e maior carga de choque vertical
ampliam a demanda sobre as estruturas passivas (ligamentos do tornozelo,
ligamento cruzado anterior e meniscos) e sobre a musculatura estabilizadora
(tibial anterior e posterior, quadríceps e isquiotibiais), responsáveis por
controlar e dissipar essas forças”, complementa o especialista da Afya.
Impacto
das arenas multiuso no Brasil
A polêmica no
Brasil concentra-se em arenas multiuso como por exemplo o Allianz Parque, a
Ligga Arena e o Nilton Santos. Embora o piso sintético favoreça um jogo mais
veloz, com maior número de passes e progressões, a pesquisa corrobora com as
falas do professor de medicina do esporte, Dr Gabriel Miura, e indica que essa
agilidade não se traduz em vantagem estatística no placar final ou no saldo de
gols.
O que se observa,
na prática, é um "travamento" maior das articulações devido ao
coeficiente de atrito superior, além do estresse térmico: em dias de sol forte,
a temperatura dessas superfícies pode ultrapassar os 60°C, exigindo sistemas de
irrigação muito mais robustos para o resfriamento.
“Medidas de controle do microclima,
como irrigação ou acionamento de sistemas de resfriamento antes do uso, ajudam
a mitigar riscos. Há, inclusive, campos sintéticos de última geração cujas
propriedades de absorção de impacto e resistência rotacional se aproximam muito
das observadas em gramados naturais de alto nível. Estudos experimentais
mostram que o aumento da temperatura altera as propriedades mecânicas do
sistema superfície, calçado e atleta, afetando a absorção de forças e a
resistência rotacional. Superfícies aquecidas podem ficar mais rígidas,
modificar o comportamento em aterrissagens, cortes e frenagens e, com isso,
aumentar as cargas articulares e alterar o padrão de contato com o solo”,
conclui o especialista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.
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