Durante anos, a segurança privada brasileira foi relegada a um papel de apêndice operacional: vigilantes, viaturas e protocolos de reação. Era o serviço contratado para “apagar incêndios” ou proteger fisicamente o patrimônio, tratado muitas vezes como um custo a ser minimizado. Esse modelo, pautado na reação, não apenas está em cheque, como se tornou obsoleto diante da realidade nacional.
Vivemos em um país onde a logística é
intrinsecamente vulnerável, cerca de 75% das mercadorias circulam em rodovias
desafiadoras, e onde o roubo de cargas impõe prejuízos bilionários à economia.
Só em 2024, o prejuízo registrado com roubos de carga atingiu o recorde de R$
1,2 bilhão, com o cenário se agravando ainda mais no primeiro
semestre de 2025. Mais grave ainda, a criminalidade não é mais amadora;
quadrilhas organizadas operam com inteligência, comunicação e logística que
rivalizam com grandes empresas.
Diante desse cenário de alta especialização criminosa, a pergunta que o mercado e o Estado devem se fazer não é “como reagir melhor?”, mas sim: como antecipar a ameaça?
A resposta passa por uma ruptura de mentalidade que coloca a segurança privada não mais como um serviço complementar, mas como um ator essencial na engrenagem econômica do país.
O dado é a nova patrulha
A transformação tecnológica já está em
curso. Rastreadores avançados, telemetria, sensores inteligentes e sistemas de
análise preditiva não são mais itens de luxo, mas o motor da operação. O que
está em jogo é muito mais do que a localização de um veículo à distância.
A nova segurança se baseia na interpretação de sinais. É o algoritmo que detecta um padrão de comportamento anormal, uma mudança brusca de rota ou um indício de coação, tudo em tempo real. Essa inteligência transforma a segurança de um conjunto de procedimentos pós-incidente para uma estratégia de prevenção ativa.
Quando o dado se torna o pilar da tomada de decisão, a eficácia é medida em minutos, ou segundos, que separam um incidente evitado de um prejuízo consumado. Não é exagero afirmar que cada fluxo analisado e cada alerta emitido se convertem na nova patrulha: uma força invisível, onipresente e, crucialmente, preditiva.
Segurança não é custo, é ativo
estratégico
A lógica de tratar o investimento em proteção como despesa precisa ser demolida para que o Brasil avance em competitividade. Investir em sistemas modernos de monitoramento e rastreamento não é apenas proteger um bem; é fortalecer a capacidade de operar com previsibilidade, reduzir o alto custo dos prêmios de seguro, mitigar interrupções operacionais e, em última análise, proteger vidas.
Em um ambiente marcado por grandes distâncias e infraestrutura desafiadora, quem investe em tecnologia de proteção está, na verdade, economizando no médio e longo prazo. Este é o cerne da provocação: a segurança, quando orientada por dados, não é um dreno de recursos, mas um ativo estratégico que melhora a produtividade e combate diretamente o chamado “Custo Brasil”. A mentalidade que define segurança como algo a ser minimizado é a mesma que perpetua a vulnerabilidade.
Integração Estratégica: o salto da
política pública
Um dos equívocos históricos do país é a separação artificial entre a segurança pública e a privada. No dia a dia, essas fronteiras são inexistentes. Empresas, transportadores e motoristas são vítimas de um crime que usa big data e logística avançada.
O setor privado coleta, em escala nacional, centenas de milhares de dados operacionais que poderiam orientar operações policiais, políticas de prevenção e decisões de infraestrutura. Por que, então, ainda não existe um protocolo nacional seguro e regulado para o compartilhamento estratégico dessa informação?
A verdadeira virada de chave para 2026 reside na integração responsável. O setor de segurança privada está no centro da economia de dados, e essa centralidade exige ética, governança e transparência máximas.
A tecnologia já trouxe o protagonismo; agora, o desafio é transformar esse potencial em uma política de Estado.
Se a estrada é vulnerável e o crime é estratégico, a segurança privada precisa ser a nossa defesa mais inteligente.
Gaudêncio
Lucena - presidente da CORPVS, uma das maiores empresas de segurança privada do
Brasil
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