Uso de dados cognitivos e aprendizado de máquina ajudam a transformar
intenções em hábitos com impacto no bem-estar físico e emocional
Crédito: Benjamin Child / Unsplash
Com a
chegada do Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental,
o início do ano volta a ser marcado por promessas de mudança de comportamento,
como meditar mais, cuidar do sono, praticar exercícios e organizar melhor o
tempo. No entanto, o distanciamento entre intenção e prática ainda é um desafio
para a maioria das pessoas. Um levantamento da Forbes Health, baseado em
pesquisa com adultos nos Estados Unidos, mostra que a duração média de uma
resolução de Ano Novo, por exemplo, é de apenas 3,74 meses. Esse cenário, no
entanto, começa a mudar com a convergência entre inteligência artificial e
neurociência, cuja aplicação prática já permite transformar intenções em
hábitos por meio de dados.
Ao contrário
das abordagens tradicionais, baseadas em força de vontade ou disciplina
genérica, a aplicação de IA ao comportamento humano parte de dados reais
sobre atenção, carga cognitiva e padrões mentais. Sensores, registros
fisiológicos e modelos de aprendizado de máquina permitem identificar quando o
cérebro está mais propenso ao foco, ao cansaço ou à dispersão,
informações-chave para criar rotinas que respeitam limites individuais.
Para o engenheiro
da computação e líder técnico da Autonomic, startup que integra IA e
neurociência, Gabriel Rodrigues, na maioria das vezes a construção de
hábitos falha, porque as pessoas tentam repetir modelos que não consideram o
funcionamento real do cérebro. “A tecnologia permite sair da ideia do ‘tente
mais’ e entrar na lógica do ‘ajuste melhor’, usando dados para orientar pequenas
mudanças no momento certo”, afirma.
Ele explica
que, na prática, soluções baseadas em IA conseguem personalizar estímulos
cognitivos, sugerir pausas estratégicas, reorganizar tarefas e adaptar treinos
mentais conforme o desempenho observado. “Em vez de cobrar constância
irrestrita, os sistemas aprendem com o usuário e ajustam o ritmo, reduzindo a
frustração que normalmente leva ao abandono das metas”, completa.
Esse
movimento ganha força em um contexto em que a tecnologia vem se consolidando
como aliada do cuidado em saúde mental. Pesquisas recentes publicadas em
periódicos científicos indicam que soluções digitais voltadas ao bem-estar
psicológico já conseguem promover melhorias significativas em sintomas de
ansiedade e estresse. De acordo com projeções da consultoria Mordor
Intelligence, o segmento global de IA cognitiva deve mais que triplicar de
tamanho, passando de cerca de US$ 33,8 bilhões em 2025 para aproximadamente
US$ 110,4 bilhões até 2030.
Mas o
engenheiro alerta que a proposta de uso da inteligência artificial no cuidado
com a saúde mental e na mudança de comportamento exige critério e orientação
técnica. Ele destaca que não se trata de recorrer a ferramentas genéricas e
pedir respostas prontas, pois a IA não substitui o conhecimento clínico e
neurocientífico. “Ela é uma ferramenta de apoio aos especialistas,
potencializando diagnósticos, acompanhamentos e ajustes finos. É justamente
essa mediação qualificada que transforma a tecnologia em um suporte de melhoria
contínua, e não em mais uma promessa rápida fadada ao abandono”, frisa.
Para
Gabriel, o diferencial da união de IA e neurociência orientada por
especialistas está no foco em intervenções pequenas e consistentes,
orientadas por dados, e não em mudanças radicais. É essa combinação que
aumenta a chance de uma meta definida em dezembro ainda fazer parte da rotina
em março, julho ou no fim do ano seguinte.
“No mundo da
tecnologia, já entendemos que sistemas precisam de monitoramento contínuo para
performar bem. O que está mudando agora é a aplicação dessa mesma lógica ao
desempenho humano. Quando a IA ajuda a identificar sinais precoces de
sobrecarga ou queda de atenção, ela contribui diretamente para hábitos mais
sustentáveis e decisões melhores ao longo do tempo”, destaca.
Gabriel Rodrigues - Formado em Engenharia da Computação pela Centro Universitário IESB (Brasília), Gabriel Rodrigues tem mais de 10 anos de experiência com atuação e liderança em iniciativas de engenharia de software, cloud, DevOps e modernização de plataformas em empresas como PayPal, Estated e Vocon IT. Ao longo da carreira, trabalhou com equipes multiculturais no Brasil, Alemanha, Canadá e Estados Unidos. No Canadá, cofundou a Autonomic, startup que integra Inteligência Artificial e Neurociência para otimizar o desempenho cerebral.
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