Especialista do Hospital Paulista explica por que o cuidado com a comunicação, a voz e a audição dependem do fator humano — e como a tecnologia pode ser aliada, não substituta
Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial em diferentes áreas da saúde, um levantamento da ISE Business School em parceria com a consultoria IDados chama atenção para um ponto fora da curva: a fonoaudiologia figura entre as profissões menos suscetíveis à substituição por IA. O motivo vai além da técnica e passa, sobretudo, pela natureza humana do cuidado envolvido no desenvolvimento da comunicação ao longo da vida.
Para a fonoaudióloga Christiane Nicodemo, mestre em distúrbios da comunicação e linguagem e integrante do corpo clínico do Hospital Paulista, a explicação está na própria origem da linguagem.
“A comunicação humana não
nasce do digital. Ela se constrói a partir do vínculo, do toque, do olhar e da
escuta. É um processo analógico, relacional e afetivo — algo que nenhuma
tecnologia consegue reproduzir integralmente”, afirma.
Linguagem começa no vínculo — e no sistema límbico
Segundo a especialista, o desenvolvimento da linguagem se inicia ainda nos primeiros momentos de vida, na relação entre mãe e bebê. “Logo após o nascimento, o contato pele a pele e a amamentação estimulam a liberação da ocitocina, um hormônio fundamental para o vínculo afetivo. Esse estímulo desencadeia uma série de respostas no sistema límbico, responsável pelas emoções, pela memória e pela construção da comunicação”, explica.
Esse conjunto de estímulos — sensoriais, motores, emocionais e afetivos — forma a base da cognição e da linguagem. “É nesse cuidado inicial que se estrutura o ‘hardware’ humano da comunicação. O digital pode funcionar como um ‘software’ complementar, mas nunca substituir essa base relacional”, destaca Christiane.
Esse entendimento ajuda a
explicar por que entidades como a Sociedade Brasileira de Pediatria
contraindicam o uso de telas por crianças menores de dois anos. “Há evidências
consistentes de prejuízos na linguagem social, no comportamento e no
desenvolvimento cognitivo quando o vínculo humano é substituído precocemente
por estímulos digitais”, alerta.
Tecnologia avança, mas não substitui o olhar clínico
Apesar disso, a fonoaudióloga reforça que a inteligência artificial tem um papel importante quando bem aplicada. “Hoje contamos com dispositivos cada vez mais sofisticados para avaliação auditiva, reabilitação, estímulos cognitivos e terapias assistidas. A tecnologia amplia possibilidades, favorece a neuroplasticidade e pode acelerar resultados”, afirma.
O ponto central, segundo ela,
está no discernimento. “A IA não substitui o fonoaudiólogo. Ela complementa o
cuidado quando utilizada no momento adequado, com indicação correta e
interpretação clínica qualificada. Para isso, é indispensável um profissional
atualizado, capaz de integrar a tecnologia sem perder a dimensão humana do
atendimento.”
Do nascimento à velhice: um cuidado contínuo
A atuação da fonoaudiologia acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. “Começa no teste da orelhinha e na orientação da amamentação, passa pelo acompanhamento do desenvolvimento da linguagem na infância, pela comunicação e pela voz na vida adulta — fundamentais para relações pessoais e profissionais — e segue até o envelhecimento, com foco em autonomia, memória, audição e interação social”, detalha Christiane.
No envelhecer, inclusive, a
tecnologia também se torna aliada. “Hoje existem dispositivos auditivos
altamente tecnológicos, com conectividade e inteligência artificial, que
facilitam a comunicação em teatros, cinemas, igrejas e no dia a dia. Mas,
novamente, o benefício real depende de avaliação, adaptação e acompanhamento
profissional.”
O que se perde sem o cuidado especializado
Para a especialista, confiar exclusivamente em soluções tecnológicas pode gerar lacunas importantes. “Quando o cuidado com comunicação, voz e audição não é conduzido por um fonoaudiólogo, perde-se a escuta sensível, a adaptação às necessidades individuais e a compreensão do contexto emocional, social e funcional do paciente.”
Em um mundo cada vez mais
mediado por telas, automações e respostas rápidas, esse aspecto tende a se
tornar ainda mais relevante. “O cuidar exige tempo, gentileza, presença e
vínculo. A tecnologia pode apoiar — e muito —, mas não substituir essa relação.
Por isso, a fonoaudiologia segue essencial e, justamente por isso,
insubstituível”, conclui.
Hospital Paulista de Otorrinolaringologia

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