Às vezes, é desconcertante viver em um estado de superestimulação, a ponto de nada fazer mais sentido. Tantas coisas acontecem ao mesmo tempo ao nosso redor, e o mundo muitas vezes parece demais. Nessa era de superexposição social, encontro grande dificuldade em sentir intimidade com este mundo, mas vivo neste paradoxo: anseio pela minha íntima solidão, onde encontro o silêncio e a paz mental, e, ainda assim, não consigo parar de escrever e de externalizar tudo que sinto. É como se algo dentro de mim estivesse sempre tentando alcançar alguma coisa. Eu desejo (e amo) estar sozinha, mas também desejo uma conexão humana real.
Percebi que esta foi uma lição valiosa que aprendi
com a minha relação tóxica com as redes sociais. Eu entendi que não
as usava como uma ferramenta. Puxada pelos algoritmos, abria
os aplicativos instintivamente, postando sem nem pensar (ou pensando
demais — de um lugar de insegurança).
Automaticamente, caí na ilusão de que precisava
compartilhar tudo com meus amigos e família: minhas conquistas,
minha escrita, meus pensamentos, viagens… talvez até uma selfie bonita. Eu
queria mostrar ao mundo como me sinto. Como se precisasse validar com
todos minhas conquistas, quem eu sou, o que vejo e a forma como vejo — e
aí talvez, só talvez, ser vista e me conectar. Porque é assim que
nos conectamos hoje em dia, certo?
Mas, com o tempo, percebi que essas conexões são,
na maioria das vezes, vazias. O que significa “curtir um story”? Eu já nem
sei mais e, honestamente, não quero saber. Eu sou intensa e gosto da
intensidade. Gosto de conexões com profundidade e propósito. Cheguei à
conclusão de que, se eu não puder ter algo real, prefiro não ter
nada, pois assim estarei em paz na minha solidão.
Ano passado, tirei um ano off das redes sociais.
Ainda postei aqui e ali, mas, em grande parte, deletei todos os
aplicativos. E vou te dizer como eu estava com saudades da vida real. Quem
já fez o mesmo costuma dizer a mesma coisa: se afastar das redes
sociais hoje em dia é como acordar. Por quê? Porque começamos a alimentar
nossa humanidade de novo.
Largar o celular nos faz perceber o quanto estamos
perdendo do mundo lá fora, bem diante dos nossos olhos. Que percepção triste e,
ao mesmo tempo, libertadora. Comecei a sentir tédio novamente. E que sensação
magnífica o tédio é: andar de elevador, compartilhar silêncio com um
estranho e notar como todos olham para seus celulares. Observar de fora e
sentir… algo. Não superioridade, nem julgamento, apenas uma tristeza humana.
Acho que, quando estamos constantemente performando
para os outros, buscando fora algo que só existe dentro, perdemos
completamente o sentido de viver. Temos tanto medo do tédio… De nos
sentarmos conosco e com nossos pensamentos. Você já se perguntou por
quê?
O que percebi foi simples: o tédio é um presente.
Ele nos torna humanos e traz sentimentos à superfície — o bruto, o complexo, o
desconfortável. E precisamos sentar com isso. Deixar entrar. Sentir o
desconforto. E depois deixar sair. E, paralelamente, comecei a fazer
escolhas conscientes ao me mover na direção oposta do mundo
da superexposição online. Nesse tempo em que vivemos, em que se valorizam
números, métricas e velocidade; em que IA e automação tomam conta — faço a
escolha consciente de ir mais devagar.
Escolho ir ao cinema justamente quando dizem que
ele está morrendo. Escolho ir ao teatro ver performance de humanos para
humanos, do jeito mais vulnerável que é experimentar a humanidade, e ir à
livraria da minha rua, apoiar artistas locais. Escolho uma carreira dedicada a
fazer filmes que espero um dia ver nas telas grandes (onde filmes são
feitos para serem assistidos).
Em um mundo de photo dumps e fotos
infinitas no rolo de câmera, escolho fotografar em filme. E, com apenas 35
chances de capturar uma imagem perfeita, de repente, cada foto importa. Eu
preciso respirar, olhar, decidir: isso merece mesmo ser captado? E, quando sim,
eu lembro de cada registro daquele exato momento. Receber um rolo de
filme recém-revelado do laboratório, depois de uma
viagem, é como ganhar presentes no Natal: você nunca sabe qual surpresa virá,
mas fica animado com todas as possibilidades.
E, em um mundo onde “ninguém” mais lê, escolho
escrever um livro físico. À mão. Em três dias, numa cafeteria em frente a
uma pequena padaria judaica perto da minha casa.
Em um mundo em que tudo é sobre estar online, eu
deleto o Instagram e fico offline quando preciso.
Faço um esforço enorme para alcançar o que é mais
difícil que já tentei: ser simples. Desacelerar. Observar. Sentir. Não precisar
de muito. E ninguém incentiva mais isso: ser simples, querer pouco,
ser nada e ser ninguém. Que maravilha é ter consciência da nossa própria
insignificância.
Todos nós queremos tão desesperadamente nos tornar
alguém. Mas, ultimamente, tenho pensado na minha grande amiga: a solidão. Fiz
as pazes com ela a ponto de não parecer mais sombria, mas quase reconfortante.
Enquanto observo os outros perseguindo versões maiores de si mesmos, percebo o
quão quieta e pequena tenho sido nesses tempos. Nesse silêncio, me peguei
pensando: talvez o objetivo não seja se tornar alguém, uma hiperexposição,
a celebração de um cry for help de
“conexão” — talvez o objetivo seja ficar um pouco isolado e se tornar ninguém.
Descascar as camadas de si, não com julgamento ou
com a exigência de respostas imediatas, mas com curiosidade. Ver o que sobra
depois que você tira tudo o que o mundo jogou por cima de você. E, quando
finalmente o fizer, talvez encontre algo pequeno, bruto e precioso: um eu
recém-nascido, frágil, mas cheio de amor, esperando para ser amado. Se um dia
você se descobrir tornando-se essa “ninguém” que tanto temia, espero que a trate
com gentileza, com a ternura que ela merece. Esse é o seu presente para si
mesmo.
Bem-vindo a este mundo selvagem, você-bebê. Você é
insignificante. Você não é ninguém. E esse é o milagre. Parabéns, você
conseguiu!
Eu te desafio a tentar: delete tudo e saia do
radar, só por um tempo, talvez uma semana. Em vez de performar e revelar tudo,
desapareça. Deixe ir. Saia do emprego. Do relacionamento. Das redes sociais.
Tire tudo até sobrar apenas você — cru, sem filtros, desconfortável. Pergunte a
si mesmo: se ninguém estivesse te olhando, você ainda faria o que faz? Você
está construindo uma vida da qual se orgulha?
Depois de tempo suficiente sozinho —
verdadeiramente sozinho — vai surgir novamente o desejo de se conectar.
Mas, dessa vez, de maneira real, com profundidade, intenção e propósito. Serão
menores as conexões, mas muito mais verdadeiras e profundas, e você não vai se
sentir mais só (ou vai — mas existe uma beleza em saber que há outras pessoas
sentindo exatamente o mesmo). Eu te prometo.
E se, depois de tudo isso, você ainda não estiver
contente consigo, talvez seja hora de encarar uma verdade: essa necessidade de
ser visto, curtido, lembrado — por quem? E para quê? Se você nunca recebesse a
validação que deseja, ainda assim faria o que faz? Ainda
assim, importaria? Deixe essas perguntas te assombrar, se for preciso.
Porque é somente sozinho — verdadeiramente sozinho
— nessa imersão em si, onde ninguém te aplaude, ninguém rola a tela,
ninguém observa, sem rede social, sem internet, sem telefone, que você
finalmente se vê com clareza. E, quando você voltar, se um dia decidir voltar,
volte nos seus termos. Não pelos olhos dos outros, nem pela ilusão de
conexão, mas porque lembrou quem você é sem nada disso.
E aí sim, você escolhe ser visto. Não pela
performance do que você quer mostrar ser, mas pela essência de quem você é
de verdade. E isso muda completamente tudo.
Lara Ferry - atriz, produtora e autora do
livro "A
privacidade é um luxo que o escritor não pode ter"
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