Nas conversas com psicólogos, pais e professores tem crescido uma
preocupação que há alguns anos parecia exceção e agora aparece como sintoma de
época, porque crianças e adolescentes estão aprendendo a interagir com o mundo
a partir de sistemas que respondem rápido, não julgam, não interrompem e não
exigem leitura de sinais emocionais, o que facilita a comunicação imediata, mas
reduz a convivência real que ensina a interpretar tons e expressões.
A pesquisa ‘Mais do Mesmo’, conduzida pela
consultoria estratégica Página 3 com 600 brasileiros,
identificou que 76% das pessoas dizem estar cada vez mais difícil
conversar e se relacionar com os outros, e esse dado ajuda a
entender o que está acontecendo com a geração Alfa, que está chegando ao mundo
já mediada por algoritmos enquanto ainda aprende a dar nome ao que sente.
No ambiente doméstico isso aparece quando crianças pedem conselhos
a chatbots para resolver conflitos com colegas, mas travam ao explicar para um
adulto porque ficaram chateadas, criando uma espécie de atalho emocional que
evita desconfortos e elimina o treino social que constrói vocabulário afetivo,
tolerância à frustração e capacidade de negociar limites.
Pais relatam um paradoxo curioso, pois ao mesmo tempo em que se
impressionam com a autonomia tecnológica dos filhos, também percebem que a
segurança dessa autonomia é frágil quando o assunto envolve sentimentos,
rejeição, ciúme, insegurança e as pequenas dores do convívio que nenhuma máquina
consegue simular por completo.
Para Sabrina Abud, co-fundadora da Página 3,
a dependência de sistemas inteligentes para tarefas que deveriam ser internas
altera o processo de construção emocional. “Quando terceirizamos até o que
sentimos, abrimos mão do esforço de interpretar a experiência. Estamos formando
uma geração que aprende a pensar com atalhos e a sentir com legendas, o que
enfraquece o vocabulário emocional e empobrece o vínculo humano”, afirma.
Esse debate tem ganhado espaço no Janeiro Branco, que costuma chamar atenção para temas como ansiedade e estresse, mas agora também ilumina uma camada menos visível relacionada ao repertório afetivo e à capacidade de sustentar conversas difíceis, já que vínculos saudáveis dependem de confronto, ambiguidade e tempo, ingredientes que não existem na lógica dos agentes inteligentes.
A questão afinal não é a presença da tecnologia, mas o que ela substitui, porque quando a IA ocupa o lugar de mediadora emocional antes reservado a outros seres humanos, abrimos a possibilidade de formar uma geração que sabe operar dispositivos, mas tem pouca prática em operar relações.
Página 3
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