A menopausa sempre foi apresentada
como um momento de perda. Mas, na prática clínica e nas histórias que acompanho
há décadas, ela se revela como algo mais complexo e menos negativo: uma
reorganização do corpo. Isso não significa minimizar os sintomas, que são
reais, mas compreender que o organismo está ajustando parâmetros, não deixando
de funcionar.
O tema é urgente não apenas pela
experiência individual, mas também pelos números. Segundo o IBGE, cerca de 17
milhões de brasileiras estão no climatério, e aproximadamente 9,2 milhões já
vivem a menopausa. Mesmo assim, ainda existe uma grande lacuna de informação.
Muitas mulheres chegam ao consultório sem entender completamente o que está
acontecendo com elas.
Uma pesquisa nacional conduzida
pela Ipsos (2025) confirma o que vejo diariamente: metade das mulheres teve
seus sintomas tratados como exagero ou algo “normal da idade”. E, ainda mais
preocupante, 44% não realizam nenhum tipo de tratamento, mesmo quando o impacto
físico e emocional é significativo.
Essa negligência não acontece por
falta de recursos terapêuticos; ela nasce da falta de diálogo. Falar de
menopausa exige clareza, mas também sensibilidade. É uma fase de mudanças
hormonais, sim, mas também de mudanças cognitivas, emocionais e
comportamentais. É o fim da fase reprodutiva, não produtiva. No livro
AtmaSoma, reforço justamente esse ponto: saúde não acontece em
compartimentos isolados. Os hormônios influenciam o humor, o sono afeta a
memória, o intestino dialoga com o cérebro. Nada funciona sozinho.
Quando observamos a menopausa por
esse prisma integrado, os sintomas deixam de parecer fragmentados. Ondas de
calor, irritabilidade, perda de sono ou da libido fazem parte de um mesmo
processo de adaptação. O corpo está mudando o ritmo e precisa ser acompanhado,
não ignorado.
A ciência hoje oferece caminhos
seguros. A Terapia de Reposição Hormonal (TRH) é considerada padrão ouro
internacional, e 75% das mulheres relatam melhora expressiva da qualidade de
vida, segundo pesquisa da Editora Abril (2024). Ainda assim, a pesquisa da
Ipsos mostra que 53% das mulheres nunca tiveram essa opção apresentada por seu
médico. A informação continua sendo a principal ferramenta de cuidado.
Mas o cuidado não se resume a
tratamentos. Muitas mulheres chegam a essa fase com mais consciência do que em
qualquer outro momento da vida. Sabem o que priorizar, o que não querem mais
carregar, o que desejam ajustar. Quando essa clareza encontra um acompanhamento
adequado, a menopausa deixa de ser vista como perda e passa a ser entendida
como ajuste de rota.
É por isso que, quando uma paciente
me diz “não sou mais a mesma”, não vejo isso como sinal de declínio. Vejo como
uma mudança real, que pode ser conduzida com saúde, autonomia e propósito. O
corpo está reorganizando sistemas; a vida, reorganizando prioridades.
A menopausa não reduz a mulher, ela
a redireciona. Com informação correta, apoio contínuo, uso das terapias
disponíveis e escolhas personalizadas, essa transição pode se transformar em
uma fase de estabilidade e vitalidade, não de apagamento.
Alessandra
Rascovski - endocrinologista
Atma Soma
Nenhum comentário:
Postar um comentário